SUSSURROS DE HELENA

1102 Palavras
O convite chegou no final da manhã, entregue em um envelope branco, com o brasão dourado dos Markatos. Dentro, apenas uma frase escrita em letra elegante: > "Larissa, precisamos conversar. - H.M." Nada mais. Mas o tom da mensagem era claro: não era um pedido. Era uma convocação. Larissa sabia que Niko jamais aprovaria aquele encontro. Ele a advertira, na noite anterior: "Fique longe de Helena." Mas a fotografia marcada com o "X" ainda estava fresca na memória - e o nome de Helena era o único que fazia sentido. Então, duas horas depois, ela estava diante dos portões da villa Markatos, no alto de uma colina com vista para o mar. O lugar exalava poder e decadência - mármores polidos, colunas brancas, jardins meticulosamente desenhados. Um mordomo a conduziu até o salão principal. Helena a esperava ali, impecável em um vestido carmim, um sorriso frio pintado nos lábios. Os olhos - cinza, cortantes - a estudaram da cabeça aos pés. - Larissa Botelho-Andreadis. - O tom era doce, mas afiado. - A mulher que roubou o coração do homem que destruiu a minha irmã. Larissa manteve a postura. - Eu não roubei nada, senhora Markatos. Helena riu baixo. - Ah, querida... todos roubamos algo, mesmo que não percebamos. - Fez sinal para que ela se sentasse. - Vinho? - Não, obrigada. - Que pena. É do vinhedo da minha família. O mesmo que Ariadne amava. - Disse o nome como quem prova um veneno suave. - Sabe, ela acreditava no amor. Niko também... por um tempo. Até que ele provou o gosto do poder. Larissa cruzou as pernas, encarando-a. - E o que exatamente a senhora quer de mim? Helena apoiou o queixo na mão, sorrindo. - Quero saber o que uma mulher como você está fazendo casada com Nikolaus Andreadis. Um casamento tão repentino, tão... conveniente. Larissa manteve o olhar firme. - O mesmo que ele: tentando recomeçar. - Recomeçar? - Helena inclinou a cabeça. - É curioso. Porque, ao que parece, vocês dois estão presos ao mesmo fantasma. Larissa respirou fundo. - Está falando de Ariadne. - Estou falando de justiça. - A voz dela baixou, mais sombria. - Minha irmã não morreu por acaso, Larissa. Ela confiou em um homem que só amava a si mesmo. - Niko não a matou. - Talvez não com as mãos. - Helena se levantou, caminhando até a janela. - Mas a destruiu da forma mais c***l: com promessas. Ele a fez acreditar que a enfrentaria por amor, e depois... recuou. Larissa se levantou também. - A senhora quer vingança. É isso? Helena virou-se, o olhar ardendo. - Quero a verdade. E, se o preço for a ruína dele, que assim seja. Por um instante, o silêncio dominou o salão. O som distante das ondas parecia o único lembrete de que o mundo continuava existindo. Larissa quebrou o silêncio. - E por que me chamou? Helena deu um passo à frente, próxima demais. - Porque você é a fraqueza dele. Larissa recuou um pouco. - Está enganada. - Oh, não estou. - Helena sorriu, c***l. - Eu vi o olhar dele em você, Larissa. O mesmo que ele tinha por Ariadne antes do fim. E se há algo que Nikolaus teme, é perder o controle. Aquela frase a atingiu como um soco. Porque, no fundo, ela sabia que era verdade. Helena continuou, em tom sussurrado: - Acha que ele te contou tudo sobre o acidente? - O suficiente. - Então pergunte a ele sobre a noite anterior ao desastre. - O sorriso dela se transformou em algo quase predador. - Pergunte com quem Ariadne jantou... e o que descobriu. Larissa franziu o cenho. - O que ela descobriu? Helena se aproximou, quase encostando os lábios em seu ouvido. - Que Niko não a amava tanto quanto dizia. Que havia outro motivo para aquele relacionamento existir. Larissa se afastou, confusa. - Isso não faz sentido. Helena ergueu a taça de vinho, girando-a devagar. - Ah, querida... no mundo dos Andreadis e dos Markatos, o amor é apenas mais uma forma de negócio. De volta à mansão, Larissa entrou sem ser notada. Niko estava no escritório, e o som dos papéis sendo virados preenchia o silêncio. Ela ficou parada na porta por alguns segundos, observando-o - o homem que aprendera a admirar, o mesmo que Helena acabara de acusar de enganar a própria irmã da mulher morta. - Está tudo bem? - ele perguntou, sem erguer os olhos. - Preciso te perguntar uma coisa. Ele olhou para cima, e o tom dela o fez endireitar-se. - O que foi? - Na noite antes do acidente... - começou ela, devagar -, Ariadne jantou com você? Niko empalideceu. O silêncio respondeu antes das palavras. - Quem te contou isso? - perguntou ele, a voz mais baixa. - Helena. - Helena... - Ele riu, sem humor. - Claro. Ela não cansa de inventar versões. - Então me diga a sua. - insistiu Larissa. - O que aconteceu naquela noite? Ele se levantou, caminhando até a janela - o mesmo gesto que fazia sempre que queria fugir. - Ariadne me procurou - disse, por fim. - Disse que sabia de algo... algo sobre meu pai e o pai dela. Que os negócios deles estavam ligados por um acordo sujo. Larissa franziu o cenho. - Que tipo de acordo? - Suborno. Lavagem. Corrupção. - Ele passou a mão pelos cabelos. - Ela queria denunciar tudo, acabar com as duas famílias. Eu tentei impedi-la. Disse que era perigoso demais. - E no dia seguinte... - Larissa completou, quase sem voz. - O carro caiu do penhasco. Larissa ficou imóvel, o coração disparado. Helena não mentira totalmente. Ariadne realmente havia descoberto algo - e Niko tentara impedi-la. - Niko... - começou ela, mas ele a interrompeu. - Eu amava Ariadne, Larissa. Mas também temia o que ela podia fazer. Se ela tivesse vivido, talvez ambos estivéssemos mortos agora. O silêncio que seguiu era c***l. Larissa finalmente entendeu o peso real que ele carregava - e a profundidade da culpa. Mas também percebeu outra coisa. Alguém ainda estava jogando com eles. Mais tarde, sozinha, ela recebeu uma mensagem anônima no celular. A tela piscou com um número desconhecido. > "Você não sabe com quem está dormindo." Anexada, uma foto: Larissa e Niko na varanda, de costas, em um momento íntimo. O sangue dela gelou. Alguém estava observando. De perto. E, enquanto a noite caía sobre Atenas, Larissa entendeu que o jogo de Helena estava apenas começando - e que talvez, pela primeira vez, Niko não fosse o único com segredos a esconder.
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