O convite chegou no final da manhã, entregue em um envelope branco, com o brasão dourado dos Markatos.
Dentro, apenas uma frase escrita em letra elegante:
> "Larissa, precisamos conversar. - H.M."
Nada mais.
Mas o tom da mensagem era claro: não era um pedido. Era uma convocação.
Larissa sabia que Niko jamais aprovaria aquele encontro.
Ele a advertira, na noite anterior: "Fique longe de Helena."
Mas a fotografia marcada com o "X" ainda estava fresca na memória - e o nome de Helena era o único que fazia sentido.
Então, duas horas depois, ela estava diante dos portões da villa Markatos, no alto de uma colina com vista para o mar.
O lugar exalava poder e decadência - mármores polidos, colunas brancas, jardins meticulosamente desenhados.
Um mordomo a conduziu até o salão principal.
Helena a esperava ali, impecável em um vestido carmim, um sorriso frio pintado nos lábios.
Os olhos - cinza, cortantes - a estudaram da cabeça aos pés.
- Larissa Botelho-Andreadis. - O tom era doce, mas afiado. - A mulher que roubou o coração do homem que destruiu a minha irmã.
Larissa manteve a postura.
- Eu não roubei nada, senhora Markatos.
Helena riu baixo.
- Ah, querida... todos roubamos algo, mesmo que não percebamos. - Fez sinal para que ela se sentasse. - Vinho?
- Não, obrigada.
- Que pena. É do vinhedo da minha família. O mesmo que Ariadne amava. - Disse o nome como quem prova um veneno suave. - Sabe, ela acreditava no amor. Niko também... por um tempo. Até que ele provou o gosto do poder.
Larissa cruzou as pernas, encarando-a.
- E o que exatamente a senhora quer de mim?
Helena apoiou o queixo na mão, sorrindo.
- Quero saber o que uma mulher como você está fazendo casada com Nikolaus Andreadis. Um casamento tão repentino, tão... conveniente.
Larissa manteve o olhar firme.
- O mesmo que ele: tentando recomeçar.
- Recomeçar? - Helena inclinou a cabeça. - É curioso. Porque, ao que parece, vocês dois estão presos ao mesmo fantasma.
Larissa respirou fundo.
- Está falando de Ariadne.
- Estou falando de justiça. - A voz dela baixou, mais sombria. - Minha irmã não morreu por acaso, Larissa. Ela confiou em um homem que só amava a si mesmo.
- Niko não a matou.
- Talvez não com as mãos. - Helena se levantou, caminhando até a janela. - Mas a destruiu da forma mais c***l: com promessas. Ele a fez acreditar que a enfrentaria por amor, e depois... recuou.
Larissa se levantou também.
- A senhora quer vingança. É isso?
Helena virou-se, o olhar ardendo.
- Quero a verdade. E, se o preço for a ruína dele, que assim seja.
Por um instante, o silêncio dominou o salão.
O som distante das ondas parecia o único lembrete de que o mundo continuava existindo.
Larissa quebrou o silêncio.
- E por que me chamou?
Helena deu um passo à frente, próxima demais.
- Porque você é a fraqueza dele.
Larissa recuou um pouco.
- Está enganada.
- Oh, não estou. - Helena sorriu, c***l. - Eu vi o olhar dele em você, Larissa. O mesmo que ele tinha por Ariadne antes do fim. E se há algo que Nikolaus teme, é perder o controle.
Aquela frase a atingiu como um soco.
Porque, no fundo, ela sabia que era verdade.
Helena continuou, em tom sussurrado:
- Acha que ele te contou tudo sobre o acidente?
- O suficiente.
- Então pergunte a ele sobre a noite anterior ao desastre. - O sorriso dela se transformou em algo quase predador. - Pergunte com quem Ariadne jantou... e o que descobriu.
Larissa franziu o cenho.
- O que ela descobriu?
Helena se aproximou, quase encostando os lábios em seu ouvido.
- Que Niko não a amava tanto quanto dizia. Que havia outro motivo para aquele relacionamento existir.
Larissa se afastou, confusa.
- Isso não faz sentido.
Helena ergueu a taça de vinho, girando-a devagar.
- Ah, querida... no mundo dos Andreadis e dos Markatos, o amor é apenas mais uma forma de negócio.
De volta à mansão, Larissa entrou sem ser notada.
Niko estava no escritório, e o som dos papéis sendo virados preenchia o silêncio.
Ela ficou parada na porta por alguns segundos, observando-o - o homem que aprendera a admirar, o mesmo que Helena acabara de acusar de enganar a própria irmã da mulher morta.
- Está tudo bem? - ele perguntou, sem erguer os olhos.
- Preciso te perguntar uma coisa.
Ele olhou para cima, e o tom dela o fez endireitar-se.
- O que foi?
- Na noite antes do acidente... - começou ela, devagar -, Ariadne jantou com você?
Niko empalideceu.
O silêncio respondeu antes das palavras.
- Quem te contou isso? - perguntou ele, a voz mais baixa.
- Helena.
- Helena... - Ele riu, sem humor. - Claro. Ela não cansa de inventar versões.
- Então me diga a sua. - insistiu Larissa. - O que aconteceu naquela noite?
Ele se levantou, caminhando até a janela - o mesmo gesto que fazia sempre que queria fugir.
- Ariadne me procurou - disse, por fim. - Disse que sabia de algo... algo sobre meu pai e o pai dela. Que os negócios deles estavam ligados por um acordo sujo.
Larissa franziu o cenho.
- Que tipo de acordo?
- Suborno. Lavagem. Corrupção. - Ele passou a mão pelos cabelos. - Ela queria denunciar tudo, acabar com as duas famílias. Eu tentei impedi-la. Disse que era perigoso demais.
- E no dia seguinte... - Larissa completou, quase sem voz.
- O carro caiu do penhasco.
Larissa ficou imóvel, o coração disparado.
Helena não mentira totalmente.
Ariadne realmente havia descoberto algo - e Niko tentara impedi-la.
- Niko... - começou ela, mas ele a interrompeu.
- Eu amava Ariadne, Larissa. Mas também temia o que ela podia fazer. Se ela tivesse vivido, talvez ambos estivéssemos mortos agora.
O silêncio que seguiu era c***l.
Larissa finalmente entendeu o peso real que ele carregava - e a profundidade da culpa.
Mas também percebeu outra coisa.
Alguém ainda estava jogando com eles.
Mais tarde, sozinha, ela recebeu uma mensagem anônima no celular.
A tela piscou com um número desconhecido.
> "Você não sabe com quem está dormindo."
Anexada, uma foto:
Larissa e Niko na varanda, de costas, em um momento íntimo.
O sangue dela gelou.
Alguém estava observando.
De perto.
E, enquanto a noite caía sobre Atenas, Larissa entendeu que o jogo de Helena estava apenas começando - e que talvez, pela primeira vez, Niko não fosse o único com segredos a esconder.