O dia amanheceu com um céu pesado sobre Atenas - o tipo de cinza que anuncia não apenas chuva, mas também confissões.
Larissa observava o mar pela janela do quarto enquanto o vento fazia as cortinas dançarem.
Desde que Niko dissera "Amanhã, eu te levo até o penhasco", o sono se tornara impossível.
Havia algo na voz dele - uma mistura de promessa e sentença - que ecoava como o som de uma porta antiga se abrindo.
Pouco antes das nove, Niko apareceu.
Usava uma camisa escura, as mangas dobradas, e o olhar sombrio de quem carrega um passado pesado demais para o dia ser leve.
- Pronta? - perguntou, sem rodeios.
Larissa assentiu.
- Pronta.
O trajeto até Vouliagmeni foi silencioso.
O carro deslizava pela estrada costeira, revelando a imensidão azul do Egeu.
A paisagem era linda - e, ao mesmo tempo, trágica.
Quando pararam, Larissa entendeu o porquê.
O penhasco era alto, quase vertical, e terminava num mar revolto, onde as ondas batiam nas rochas com força.
Ali, o vento gritava.
E, por um instante, Larissa sentiu que o próprio ar guardava ecos do que acontecera.
Niko saiu do carro primeiro, caminhando até a borda.
Ela o seguiu, com o coração acelerado.
- Aqui - disse ele, apontando para o ponto onde o asfalto começava a rachar. - Foi aqui que o carro saiu da estrada.
Larissa ficou em silêncio.
O vento soprava forte, levando seus cabelos.
Niko parecia um homem à beira de um abismo literal e emocional.
- Eu lembro do som. - A voz dele era quase um sussurro. - O estalo dos freios, o grito dela, o vidro se partindo. Depois, só a água.
Ele fechou os olhos.
- Quando acordei, estava em um hospital. Ariadne não.
Larissa respirou fundo, tentando não chorar.
- Niko... você não pode carregar isso sozinho.
Ele riu, sem humor.
- Não tenho escolha.
- Tem, sim. Pode escolher acreditar que foi um acidente.
Ele se virou, encarando-a.
- E se não foi? E se alguém mexeu naquele carro?
Larissa o fitou, séria.
- Você tem suspeitas?
- Helena. - O nome saiu como veneno. - Ela odiava o que tínhamos. E sabia que Ariadne não desistiria de mim.
Larissa arregalou os olhos.
- Está dizendo que a própria irmã...
- Helena sempre quis o controle da família Markatos. Ariadne era a herdeira. Com ela fora do caminho, Helena ficou com tudo.
Larissa tentou processar.
A mulher que agora a tratava com um falso sorriso nos eventos, que fingia simpatia... teria sido capaz de matar a própria irmã por poder?
- Mas se acredita nisso - disse Larissa, firme -, por que nunca investigou?
Niko desviou o olhar para o horizonte.
- Porque não tinha provas. E porque parte de mim preferia acreditar que a culpa era minha.
Ela se aproximou, tocando o braço dele.
- Você se culpa por ter sobrevivido.
Ele a olhou - de um jeito que a fez prender a respiração.
- E você? - perguntou, baixo. - Por que se importa tanto?
Larissa hesitou.
Tinha mil respostas, mas nenhuma cabia ali.
Então disse apenas a verdade que o coração insistia em sussurrar:
- Porque você não merece continuar preso a isso.
O olhar dele suavizou.
Por um instante, o ar pareceu se transformar.
O vento diminuiu, e o mar ficou em silêncio, como se o mundo esperasse o que viria a seguir.
Niko deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles.
- Você não faz ideia do que está fazendo comigo, Larissa.
Ela sentiu o corpo reagir antes da mente.
- Talvez faça.
Por um momento, ele pareceu prestes a se render - o olhar oscilando entre raiva e desejo.
Mas então, como sempre, se conteve.
- Não posso. - murmurou, afastando-se. - Não com você.
- Por causa dela? - Larissa perguntou, ferida. - Porque acha que ainda pertence a um fantasma?
Ele a encarou, e dessa vez, a dor estava escancarada.
- Porque, se eu deixar, você vai me destruir de novo.
As palavras o traíram.
De novo.
Larissa percebeu o deslize e o agarrou.
- De novo?
Niko cerrou os punhos, mas não respondeu.
Então ela entendeu - não havia sido apenas Ariadne que o perdera naquele penhasco.
Algo nele também havia morrido ali.
Enquanto voltavam para o carro, Larissa notou algo no chão - um pequeno medalhão prateado, semi-enterrado na terra seca.
Curiosa, se abaixou e o pegou.
Dentro, havia uma foto antiga: Ariadne e Niko, sorrindo.
Ela mostrou a ele.
- Estava aqui.
Niko pegou o medalhão, olhando-o em silêncio.
- Era dela.
- Quer dizer que o penhasco guardou isso por cinco anos.
Ele assentiu, pensativo.
- Ou talvez alguém tenha voltado aqui.
- O que quer dizer?
- Que o medalhão está limpo demais. Brilhando. Como se tivesse sido colocado há pouco tempo.
Um arrepio percorreu a espinha de Larissa.
- Quem faria isso?
Niko guardou o medalhão no bolso.
- Alguém que quer me lembrar do que perdi. Ou me avisar que ainda estou sendo observado.
A volta foi tensa.
Ninguém falou uma palavra.
O silêncio entre eles era um campo minado - cheio de verdades prestes a explodir.
Quando chegaram à mansão, Niko foi direto para o escritório.
Larissa, ainda abalada, subiu para o quarto e sentou-se na cama, tentando compreender tudo.
Helena. O acidente. O medalhão.
Nada parecia coincidência.
Pouco tempo depois, uma batida na porta.
Ela abriu - e se deparou com Alexis, o braço direito de Niko.
- Senhora Andreadis, perdoe a hora, mas há algo que o senhor Nikolaus precisa ver.
Larissa o seguiu até o escritório.
Niko estava em pé diante da mesa, olhando para uma caixa de madeira recém-chegada.
Sem dizer nada, ele abriu.
Dentro, havia uma única fotografia.
A mesma imagem que Larissa encontrara no escritório dias antes - Niko e Ariadne sorrindo.
Mas agora, sobre o rosto de Ariadne, havia uma marca vermelha em forma de "X".
Larissa levou a mão à boca.
- Meu Deus...
Niko respirou fundo, a expressão de gelo voltando.
- Isso não é coincidência.
- Quem enviou?
Ele olhou o envelope vazio.
Nenhum remetente. Nenhuma pista.
- Alguém quer me lembrar que o passado não acabou.
Larissa o encarou.
- E o que vai fazer?
Ele a olhou de volta - e havia algo novo em seu olhar.
Não era apenas raiva. Era determinação.
- Descobrir quem começou essa história... - disse, pausadamente. - ...e terminar de vez.
Naquela noite, quando Larissa voltou ao quarto, não conseguiu evitar olhar pela janela.
A lua iluminava o mar, o mesmo mar que engolira Ariadne.
E, pela primeira vez, ela sentiu medo.
Não apenas pelo que Niko descobriria...
Mas pelo que eles dois poderiam se tornar quando toda a verdade viesse à tona.