Á BEIRA DO PENHASCO

1130 Palavras
O dia amanheceu com um céu pesado sobre Atenas - o tipo de cinza que anuncia não apenas chuva, mas também confissões. Larissa observava o mar pela janela do quarto enquanto o vento fazia as cortinas dançarem. Desde que Niko dissera "Amanhã, eu te levo até o penhasco", o sono se tornara impossível. Havia algo na voz dele - uma mistura de promessa e sentença - que ecoava como o som de uma porta antiga se abrindo. Pouco antes das nove, Niko apareceu. Usava uma camisa escura, as mangas dobradas, e o olhar sombrio de quem carrega um passado pesado demais para o dia ser leve. - Pronta? - perguntou, sem rodeios. Larissa assentiu. - Pronta. O trajeto até Vouliagmeni foi silencioso. O carro deslizava pela estrada costeira, revelando a imensidão azul do Egeu. A paisagem era linda - e, ao mesmo tempo, trágica. Quando pararam, Larissa entendeu o porquê. O penhasco era alto, quase vertical, e terminava num mar revolto, onde as ondas batiam nas rochas com força. Ali, o vento gritava. E, por um instante, Larissa sentiu que o próprio ar guardava ecos do que acontecera. Niko saiu do carro primeiro, caminhando até a borda. Ela o seguiu, com o coração acelerado. - Aqui - disse ele, apontando para o ponto onde o asfalto começava a rachar. - Foi aqui que o carro saiu da estrada. Larissa ficou em silêncio. O vento soprava forte, levando seus cabelos. Niko parecia um homem à beira de um abismo literal e emocional. - Eu lembro do som. - A voz dele era quase um sussurro. - O estalo dos freios, o grito dela, o vidro se partindo. Depois, só a água. Ele fechou os olhos. - Quando acordei, estava em um hospital. Ariadne não. Larissa respirou fundo, tentando não chorar. - Niko... você não pode carregar isso sozinho. Ele riu, sem humor. - Não tenho escolha. - Tem, sim. Pode escolher acreditar que foi um acidente. Ele se virou, encarando-a. - E se não foi? E se alguém mexeu naquele carro? Larissa o fitou, séria. - Você tem suspeitas? - Helena. - O nome saiu como veneno. - Ela odiava o que tínhamos. E sabia que Ariadne não desistiria de mim. Larissa arregalou os olhos. - Está dizendo que a própria irmã... - Helena sempre quis o controle da família Markatos. Ariadne era a herdeira. Com ela fora do caminho, Helena ficou com tudo. Larissa tentou processar. A mulher que agora a tratava com um falso sorriso nos eventos, que fingia simpatia... teria sido capaz de matar a própria irmã por poder? - Mas se acredita nisso - disse Larissa, firme -, por que nunca investigou? Niko desviou o olhar para o horizonte. - Porque não tinha provas. E porque parte de mim preferia acreditar que a culpa era minha. Ela se aproximou, tocando o braço dele. - Você se culpa por ter sobrevivido. Ele a olhou - de um jeito que a fez prender a respiração. - E você? - perguntou, baixo. - Por que se importa tanto? Larissa hesitou. Tinha mil respostas, mas nenhuma cabia ali. Então disse apenas a verdade que o coração insistia em sussurrar: - Porque você não merece continuar preso a isso. O olhar dele suavizou. Por um instante, o ar pareceu se transformar. O vento diminuiu, e o mar ficou em silêncio, como se o mundo esperasse o que viria a seguir. Niko deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles. - Você não faz ideia do que está fazendo comigo, Larissa. Ela sentiu o corpo reagir antes da mente. - Talvez faça. Por um momento, ele pareceu prestes a se render - o olhar oscilando entre raiva e desejo. Mas então, como sempre, se conteve. - Não posso. - murmurou, afastando-se. - Não com você. - Por causa dela? - Larissa perguntou, ferida. - Porque acha que ainda pertence a um fantasma? Ele a encarou, e dessa vez, a dor estava escancarada. - Porque, se eu deixar, você vai me destruir de novo. As palavras o traíram. De novo. Larissa percebeu o deslize e o agarrou. - De novo? Niko cerrou os punhos, mas não respondeu. Então ela entendeu - não havia sido apenas Ariadne que o perdera naquele penhasco. Algo nele também havia morrido ali. Enquanto voltavam para o carro, Larissa notou algo no chão - um pequeno medalhão prateado, semi-enterrado na terra seca. Curiosa, se abaixou e o pegou. Dentro, havia uma foto antiga: Ariadne e Niko, sorrindo. Ela mostrou a ele. - Estava aqui. Niko pegou o medalhão, olhando-o em silêncio. - Era dela. - Quer dizer que o penhasco guardou isso por cinco anos. Ele assentiu, pensativo. - Ou talvez alguém tenha voltado aqui. - O que quer dizer? - Que o medalhão está limpo demais. Brilhando. Como se tivesse sido colocado há pouco tempo. Um arrepio percorreu a espinha de Larissa. - Quem faria isso? Niko guardou o medalhão no bolso. - Alguém que quer me lembrar do que perdi. Ou me avisar que ainda estou sendo observado. A volta foi tensa. Ninguém falou uma palavra. O silêncio entre eles era um campo minado - cheio de verdades prestes a explodir. Quando chegaram à mansão, Niko foi direto para o escritório. Larissa, ainda abalada, subiu para o quarto e sentou-se na cama, tentando compreender tudo. Helena. O acidente. O medalhão. Nada parecia coincidência. Pouco tempo depois, uma batida na porta. Ela abriu - e se deparou com Alexis, o braço direito de Niko. - Senhora Andreadis, perdoe a hora, mas há algo que o senhor Nikolaus precisa ver. Larissa o seguiu até o escritório. Niko estava em pé diante da mesa, olhando para uma caixa de madeira recém-chegada. Sem dizer nada, ele abriu. Dentro, havia uma única fotografia. A mesma imagem que Larissa encontrara no escritório dias antes - Niko e Ariadne sorrindo. Mas agora, sobre o rosto de Ariadne, havia uma marca vermelha em forma de "X". Larissa levou a mão à boca. - Meu Deus... Niko respirou fundo, a expressão de gelo voltando. - Isso não é coincidência. - Quem enviou? Ele olhou o envelope vazio. Nenhum remetente. Nenhuma pista. - Alguém quer me lembrar que o passado não acabou. Larissa o encarou. - E o que vai fazer? Ele a olhou de volta - e havia algo novo em seu olhar. Não era apenas raiva. Era determinação. - Descobrir quem começou essa história... - disse, pausadamente. - ...e terminar de vez. Naquela noite, quando Larissa voltou ao quarto, não conseguiu evitar olhar pela janela. A lua iluminava o mar, o mesmo mar que engolira Ariadne. E, pela primeira vez, ela sentiu medo. Não apenas pelo que Niko descobriria... Mas pelo que eles dois poderiam se tornar quando toda a verdade viesse à tona.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR