Os dias seguintes ao jantar com Elena Andreadis foram silenciosos na mansão.
Niko mergulhara no trabalho, e Larissa, entre os corredores de mármore e o som distante do mar, sentia o peso das perguntas que a assombravam.
A imagem da sogra, altiva e enigmática, ecoava em sua mente:
> “A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele.”
Larissa não deveria se importar. O contrato não incluía curiosidade emocional.
Mas algo em sua natureza — e talvez algo em seu coração — se recusava a aceitar o silêncio como resposta.
Naquela manhã, a casa estava vazia.
Niko havia saído cedo para uma reunião no porto de Piraeus, e Alexis acompanhava-o como sempre.
Larissa aproveitou para explorar o escritório privado do marido — um cômodo que ele mantinha trancado, mas que, naquela manhã, estava curiosamente destrancado.
O ambiente era frio, minimalista, e ainda assim… vivo.
Livros de filosofia e economia, pastas organizadas por cor, fotos antigas em molduras de prata.
Ela se aproximou de uma delas — um retrato de Niko mais jovem, sorrindo ao lado de uma mulher morena, de olhos claros e expressão vibrante.
No canto da foto, uma dedicatória em grego:
> “Para sempre sua, A.”
Larissa passou os dedos sobre o vidro.
“A.”
Quem era ela?
O som de passos a fez se virar rapidamente, o coração disparado.
Mas era Sofia, a assistente doméstica.
— Senhora Andreadis — disse a mulher, hesitante —, o senhor Nikolaus pediu que deixasse tudo pronto para o jantar de amanhã.
— Claro. — Larissa sorriu. — Sofia… quem é a mulher desta foto?
Sofia congelou por um instante, os olhos fugindo do retrato.
— É… era Ariadne Markatos.
Larissa franziu o cenho.
— Markatos?
— Sim. — A voz de Sofia abaixou. — Irmã de Helena Markatos.
A informação caiu como uma pedra em sua mente.
Helena — a mulher que a havia recebido com um sorriso de veneno no evento — era irmã da mulher que Niko amara.
— E… o que aconteceu com ela? — perguntou Larissa.
Sofia olhou em volta, como se temesse ser ouvida.
— Um acidente. Cinco anos atrás. O carro caiu do penhasco da costa de Vouliagmeni. Dizem que Niko estava com ela, mas sobreviveu.
Larissa ficou imóvel.
O coração batia forte demais.
— Dizem?
— Sim. — Sofia baixou ainda mais o tom. — Há quem jure que não foi um acidente.
O dia passou devagar, e quando Niko voltou, o ar entre eles estava diferente.
Larissa o observou entrar — a postura ereta, o olhar cansado, a gravata afrouxada.
Ele parecia carregar o peso de alguém que aprendeu a viver com fantasmas.
— Está tudo bem? — perguntou ela, tentando soar casual.
— Sempre. — respondeu ele, frio. — Por quê?
— Porque às vezes você parece… ausente.
Ele se virou, fitando-a com aquele olhar cortante que ela já conhecia.
— E às vezes você faz perguntas demais.
Larissa cruzou os braços.
— É proibido tentar entender o próprio marido?
— Quando o casamento é um contrato, sim.
As palavras dele a atingiram com força.
Mas em vez de recuar, ela deu um passo à frente.
— Então me diga, Niko. O que aconteceu com Ariadne Markatos?
O nome caiu no ar como uma lâmina.
Niko congelou.
Por um segundo, Larissa viu o controle dele vacilar.
— Quem te contou esse nome?
— Não importa. Eu só quero saber a verdade.
O silêncio que se seguiu era espesso, denso.
Niko respirou fundo e caminhou até o bar, servindo-se de um copo de uísque.
A mão dele tremia — quase imperceptivelmente.
— Ela era… — começou, a voz baixa — …tudo o que eu não sabia que queria. Inteligente, livre, impossível de controlar.
Larissa o ouviu em silêncio.
— Mas a família dela nunca aceitou. Helena, principalmente. Ela achava que eu queria usar Ariadne para limpar o nome dos Andreadis, que já estava manchado pelo meu pai.
— E estava?
Ele a encarou, com um meio sorriso triste.
— Talvez. Eu era ambicioso, Larissa. Frio. Mas com ela… tudo parecia simples. Até o dia em que o carro despencou daquele penhasco.
Ele bebeu o uísque de um gole só.
— Eu dirigia.
Larissa sentiu um arrepio subir pela espinha.
— E sobreviveu.
— Sim. — Ele pousou o copo com força. — E ela não.
Por um momento, ele pareceu preso entre o passado e o presente.
— Disseram que foi o freio. Uma falha mecânica. Mas há dias em que eu acho… que não foi acidente.
— Está dizendo que alguém quis matá-la?
— Talvez. — A voz dele endureceu. — Ou talvez eu esteja apenas procurando uma desculpa para o que nunca vou perdoar em mim mesmo.
Larissa deu um passo à frente, hesitante.
— Niko…
Ele levantou a mão.
— Não. — O tom era um aviso. — Isso acabou. Ariadne está morta. E o que eu sinto também.
Mas Larissa viu o contrário nos olhos dele.
A dor ainda estava viva — queimando, sufocando.
Naquela noite, ela não dormiu.
Ficou deitada, olhando o teto, revendo tudo o que ouvira.
Ariadne Markatos. O carro. Helena. O penhasco.
Tudo se encaixava… e ainda assim, faltava algo.
O relógio marcava quase duas da manhã quando Larissa se levantou.
Pegou o tablet sobre a mesa e digitou o nome: “Ariadne Markatos acidente Vouliagmeni”.
Os resultados mostraram notícias antigas.
Uma, em especial, chamou sua atenção:
> “Misterioso acidente envolvendo herdeira Markatos e empresário Nikolaus Andreadis. Freios adulterados, investigação arquivada sem conclusão.”
Larissa leu e releu a frase.
Freios adulterados.
Investigação arquivada.
Seu coração disparou.
Não era apenas um trauma.
Era um segredo enterrado.
Na manhã seguinte, Niko estava no escritório quando ela entrou.
Ele levantou o olhar, surpreso.
— Aconteceu algo?
Larissa colocou o tablet sobre a mesa.
— Li sobre o acidente.
O olhar dele escureceu.
— Eu te avisei para não mexer nisso.
— Niko, alguém mexeu nos freios do carro. Você entende o que isso significa?
— Significa que o passado deve continuar onde está.
— E se ele não ficar? — rebateu ela. — E se for isso que ainda te prende?
Ele se levantou, a voz subindo um tom.
— Eu não preciso que você me salve, Larissa!
Ela deu um passo à frente, o encarando de igual para igual.
— E talvez eu não queira te salvar! Talvez eu só queira entender por que você insiste em se destruir!
O silêncio caiu como um golpe.
Os dois ficaram ali, frente a frente, respirando rápido.
A tensão era quase física — uma mistura de raiva, dor e algo que nenhum dos dois ousava nomear.
Niko passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar.
— Você não faz ideia do que está mexendo.
— Então me mostre. — A voz dela era firme. — Me conte tudo.
Ele a olhou por longos segundos.
Depois, murmurou:
— Amanhã. Eu te levo até o penhasco.
E saiu, deixando-a sozinha com o coração batendo forte demais.
Larissa ficou olhando a porta fechada, tentando entender o que acabara de acontecer.
O homem que ela conhecera como calculista e impenetrável agora estava prestes a abrir a única ferida que nunca cicatrizara.
E, enquanto o mar rugia ao longe, ela soube que o contrato estava prestes a mudar.
Não seria mais apenas uma farsa conveniente.
Seria o fio que os uniria — ou os destruiria.