ECOS DO PASSADO

1242 Palavras
Os dias seguintes ao jantar com Elena Andreadis foram silenciosos na mansão. Niko mergulhara no trabalho, e Larissa, entre os corredores de mármore e o som distante do mar, sentia o peso das perguntas que a assombravam. A imagem da sogra, altiva e enigmática, ecoava em sua mente: > “A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele.” Larissa não deveria se importar. O contrato não incluía curiosidade emocional. Mas algo em sua natureza — e talvez algo em seu coração — se recusava a aceitar o silêncio como resposta. Naquela manhã, a casa estava vazia. Niko havia saído cedo para uma reunião no porto de Piraeus, e Alexis acompanhava-o como sempre. Larissa aproveitou para explorar o escritório privado do marido — um cômodo que ele mantinha trancado, mas que, naquela manhã, estava curiosamente destrancado. O ambiente era frio, minimalista, e ainda assim… vivo. Livros de filosofia e economia, pastas organizadas por cor, fotos antigas em molduras de prata. Ela se aproximou de uma delas — um retrato de Niko mais jovem, sorrindo ao lado de uma mulher morena, de olhos claros e expressão vibrante. No canto da foto, uma dedicatória em grego: > “Para sempre sua, A.” Larissa passou os dedos sobre o vidro. “A.” Quem era ela? O som de passos a fez se virar rapidamente, o coração disparado. Mas era Sofia, a assistente doméstica. — Senhora Andreadis — disse a mulher, hesitante —, o senhor Nikolaus pediu que deixasse tudo pronto para o jantar de amanhã. — Claro. — Larissa sorriu. — Sofia… quem é a mulher desta foto? Sofia congelou por um instante, os olhos fugindo do retrato. — É… era Ariadne Markatos. Larissa franziu o cenho. — Markatos? — Sim. — A voz de Sofia abaixou. — Irmã de Helena Markatos. A informação caiu como uma pedra em sua mente. Helena — a mulher que a havia recebido com um sorriso de veneno no evento — era irmã da mulher que Niko amara. — E… o que aconteceu com ela? — perguntou Larissa. Sofia olhou em volta, como se temesse ser ouvida. — Um acidente. Cinco anos atrás. O carro caiu do penhasco da costa de Vouliagmeni. Dizem que Niko estava com ela, mas sobreviveu. Larissa ficou imóvel. O coração batia forte demais. — Dizem? — Sim. — Sofia baixou ainda mais o tom. — Há quem jure que não foi um acidente. O dia passou devagar, e quando Niko voltou, o ar entre eles estava diferente. Larissa o observou entrar — a postura ereta, o olhar cansado, a gravata afrouxada. Ele parecia carregar o peso de alguém que aprendeu a viver com fantasmas. — Está tudo bem? — perguntou ela, tentando soar casual. — Sempre. — respondeu ele, frio. — Por quê? — Porque às vezes você parece… ausente. Ele se virou, fitando-a com aquele olhar cortante que ela já conhecia. — E às vezes você faz perguntas demais. Larissa cruzou os braços. — É proibido tentar entender o próprio marido? — Quando o casamento é um contrato, sim. As palavras dele a atingiram com força. Mas em vez de recuar, ela deu um passo à frente. — Então me diga, Niko. O que aconteceu com Ariadne Markatos? O nome caiu no ar como uma lâmina. Niko congelou. Por um segundo, Larissa viu o controle dele vacilar. — Quem te contou esse nome? — Não importa. Eu só quero saber a verdade. O silêncio que se seguiu era espesso, denso. Niko respirou fundo e caminhou até o bar, servindo-se de um copo de uísque. A mão dele tremia — quase imperceptivelmente. — Ela era… — começou, a voz baixa — …tudo o que eu não sabia que queria. Inteligente, livre, impossível de controlar. Larissa o ouviu em silêncio. — Mas a família dela nunca aceitou. Helena, principalmente. Ela achava que eu queria usar Ariadne para limpar o nome dos Andreadis, que já estava manchado pelo meu pai. — E estava? Ele a encarou, com um meio sorriso triste. — Talvez. Eu era ambicioso, Larissa. Frio. Mas com ela… tudo parecia simples. Até o dia em que o carro despencou daquele penhasco. Ele bebeu o uísque de um gole só. — Eu dirigia. Larissa sentiu um arrepio subir pela espinha. — E sobreviveu. — Sim. — Ele pousou o copo com força. — E ela não. Por um momento, ele pareceu preso entre o passado e o presente. — Disseram que foi o freio. Uma falha mecânica. Mas há dias em que eu acho… que não foi acidente. — Está dizendo que alguém quis matá-la? — Talvez. — A voz dele endureceu. — Ou talvez eu esteja apenas procurando uma desculpa para o que nunca vou perdoar em mim mesmo. Larissa deu um passo à frente, hesitante. — Niko… Ele levantou a mão. — Não. — O tom era um aviso. — Isso acabou. Ariadne está morta. E o que eu sinto também. Mas Larissa viu o contrário nos olhos dele. A dor ainda estava viva — queimando, sufocando. Naquela noite, ela não dormiu. Ficou deitada, olhando o teto, revendo tudo o que ouvira. Ariadne Markatos. O carro. Helena. O penhasco. Tudo se encaixava… e ainda assim, faltava algo. O relógio marcava quase duas da manhã quando Larissa se levantou. Pegou o tablet sobre a mesa e digitou o nome: “Ariadne Markatos acidente Vouliagmeni”. Os resultados mostraram notícias antigas. Uma, em especial, chamou sua atenção: > “Misterioso acidente envolvendo herdeira Markatos e empresário Nikolaus Andreadis. Freios adulterados, investigação arquivada sem conclusão.” Larissa leu e releu a frase. Freios adulterados. Investigação arquivada. Seu coração disparou. Não era apenas um trauma. Era um segredo enterrado. Na manhã seguinte, Niko estava no escritório quando ela entrou. Ele levantou o olhar, surpreso. — Aconteceu algo? Larissa colocou o tablet sobre a mesa. — Li sobre o acidente. O olhar dele escureceu. — Eu te avisei para não mexer nisso. — Niko, alguém mexeu nos freios do carro. Você entende o que isso significa? — Significa que o passado deve continuar onde está. — E se ele não ficar? — rebateu ela. — E se for isso que ainda te prende? Ele se levantou, a voz subindo um tom. — Eu não preciso que você me salve, Larissa! Ela deu um passo à frente, o encarando de igual para igual. — E talvez eu não queira te salvar! Talvez eu só queira entender por que você insiste em se destruir! O silêncio caiu como um golpe. Os dois ficaram ali, frente a frente, respirando rápido. A tensão era quase física — uma mistura de raiva, dor e algo que nenhum dos dois ousava nomear. Niko passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar. — Você não faz ideia do que está mexendo. — Então me mostre. — A voz dela era firme. — Me conte tudo. Ele a olhou por longos segundos. Depois, murmurou: — Amanhã. Eu te levo até o penhasco. E saiu, deixando-a sozinha com o coração batendo forte demais. Larissa ficou olhando a porta fechada, tentando entender o que acabara de acontecer. O homem que ela conhecera como calculista e impenetrável agora estava prestes a abrir a única ferida que nunca cicatrizara. E, enquanto o mar rugia ao longe, ela soube que o contrato estava prestes a mudar. Não seria mais apenas uma farsa conveniente. Seria o fio que os uniria — ou os destruiria.
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