O céu sobre Vouliagmeni estava tingido de dourado quando o carro preto estacionou diante da mansão principal dos Andreadis.
O vento trazia o perfume das magnólias, e o mar, logo abaixo dos penhascos, murmurava como se guardasse histórias que ninguém ousava contar.
Larissa observou a fachada imponente à sua frente — colunas de mármore, varandas abertas, o brasão da família gravado sobre a entrada.
Era o lar onde Niko havia crescido.
E, segundo Alexis, o lugar que ele mais evitava voltar.
— A senhora Elena o aguarda para o jantar — informou o motorista, abrindo a porta.
Ela respirou fundo e desceu.
Estava linda — mas simples — em um vestido de seda azul, sem excessos. O colar com a pedra azul pendia no pescoço como uma ironia: presente do homem que agora seria julgado pela própria mãe.
Elena Andreadis a esperava no topo das escadas, rígida e elegante.
Os cabelos grisalhos estavam presos num coque perfeito, e o olhar — o mesmo olhar cortante de Niko — atravessava a alma.
— Então você é Larissa. — A voz dela era fria, musical. — A brasileira que conquistou meu filho.
Larissa sorriu com educação.
— É um prazer conhecê-la, senhora Andreadis.
— O prazer, imagino, é todo seu. — Elena virou-se e começou a andar. — Venha. O jantar não espera.
Larissa a seguiu, sentindo o peso invisível de cada passo.
O salão era um espetáculo de tradição e luxo — porcelanas antigas, prata polida, um piano de cauda.
Niko já estava lá, de pé ao lado da mesa, tenso.
— Mãe. — cumprimentou, contido. — Obrigado por nos receber.
— Receber? — Elena arqueou uma sobrancelha. — Receber uma nora que aparece de repente, sem aviso, sem casamento público, sem sequer uma foto oficial? Você devia me agradecer por não ter mandado investigar.
— Por que teria motivos para isso? — perguntou ele, gelado.
— Porque o nome Andreadis não se mistura facilmente, querido. — Ela o encarou. — Muito menos por impulso.
O silêncio que se seguiu era tão espesso que Larissa podia ouvir o tique-taque distante de um relógio antigo.
Ela percebeu que Niko apertava levemente a borda da taça — o único gesto que denunciava o desconforto.
Tentando aliviar a tensão, ela interveio:
— Senhora Andreadis, sei que tudo aconteceu rápido. Mas posso garantir que não foi por impulso.
Elena desviou o olhar para ela.
— Ah, então foi o quê? Amor à primeira vista?
Larissa manteve o tom sereno.
— Talvez destino.
A resposta surpreendeu as duas partes.
Niko a olhou, surpreso; Elena estreitou os olhos, intrigada.
— Destino — repetiu a matriarca. — Interessante. Há muito tempo não ouço meu filho usar essa palavra.
O jantar começou.
E foi, para Larissa, uma prova de fogo.
Elena fazia perguntas afiadamente educadas:
onde ela havia estudado, onde trabalhara, como conhecera Niko, se entendia grego, se tinha “ambições sociais”.
Larissa respondeu com a honestidade que podia.
Sabia que qualquer mentira sofisticada chamaria mais atenção.
— Sou formada em Letras. Trabalhei como professora por um tempo. Depois, vim para Atenas por um programa cultural. Foi… um acaso o encontro com seu filho.
— Um acaso? — Elena ergueu o cálice. — As mulheres raramente encontram um Andreadis por acaso, minha querida.
Niko interrompeu:
— Mãe.
— Só estou dizendo o que todos pensam, Nikolaus. — A voz dela agora era cortante. — Você sempre desprezou relacionamentos. Sempre disse que casamento era uma distração. E agora… aparece com uma estrangeira.
Larissa sentiu o coração apertar.
Sabia que precisava proteger a encenação, mas também percebeu que aquela mulher falava com feridas antigas.
— Talvez ele tenha mudado — disse, com suavidade.
Elena pousou o garfo.
— Homens como meu filho não mudam, Larissa. Eles apenas aprendem a esconder melhor o que sentem.
Os olhos de Niko endureceram.
— Basta, mãe.
Por um momento, ninguém se moveu.
O ar parecia eletrificado.
Então Elena respirou fundo e sorriu — um sorriso calculado, diplomático.
— Muito bem. Não quero discutir. Foi apenas uma observação.
Mas Larissa sabia que havia mais por trás daquelas palavras.
Depois do jantar, Elena os convidou para o jardim dos fundos.
O vento balançava as folhas das oliveiras, e o mar cintilava sob a luz da lua.
— Esta casa é velha demais para novos começos — disse Elena, olhando o horizonte. — Mas talvez vocês consigam provar que estou errada.
Ela se virou para Larissa.
— Sabe, meu filho era diferente antes. Mais leve. Mais… humano. Até que uma tragédia o mudou.
Larissa hesitou.
— Uma tragédia?
Elena assentiu lentamente.
— A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele.
Niko a interrompeu, ríspido:
— Mãe, chega.
Mas Larissa já havia entendido.
O olhar de Niko, a frieza calculada, o controle… tudo fazia sentido agora.
Ele não era apenas um homem acostumado ao poder. Era um homem que havia amado — e perdido.
Elena a observou em silêncio.
— Se realmente se importa com ele, Larissa, lembre-se disto: não tente curar o que não quer ser curado.
Larissa engoliu em seco.
— Talvez ele só precise lembrar que ainda é possível sentir.
Elena sorriu, pela primeira vez, com um traço de admiração.
— Veremos. Boa noite, minha querida.
E se retirou, deixando-os sozinhos sob o luar.
Niko permaneceu em silêncio por um longo tempo, olhando o mar.
Larissa, ao lado dele, não sabia o que dizer.
— Ela não devia ter contado. — A voz dele era baixa. — Isso não é da conta de ninguém.
— Eu não pedi.
— Eu sei. — Ele suspirou. — Mas agora você sabe demais.
Larissa se aproximou um pouco.
— Saber não é o mesmo que julgar, Niko.
Ele a encarou.
— Então não julgue o homem que escolheu a dor em vez do amor.
— Eu não escolhi você — respondeu ela, firme. — Escolhi um contrato. Mas talvez eu tenha encontrado algo mais complexo do que esperava.
O olhar dele suavizou, só por um instante.
— Você é diferente.
— Isso é bom?
— É perigoso.
O vento soprou mais forte, fazendo o vestido dela se mover.
Por um segundo, o rosto de Niko pareceu vacilar — entre o controle e o desejo.
Mas ele deu um passo atrás.
— Vamos. O carro está esperando.
E, enquanto voltavam em silêncio, Larissa sentia o peso do que havia descoberto.
O contrato que a unia a Niko era apenas a superfície.
Debaixo dela, havia dor, culpa e um passado que ainda respirava — como uma ferida aberta que o tempo se recusava a fechar.
Naquela noite, quando se deitou, ouviu o som distante do mar.
E pensou nas palavras de Elena:
> “Não tente curar o que não quer ser curado.”
Mas Larissa era feita de teimosia e esperança.
E, mesmo sem perceber, começava a fazer exatamente isso.