SEGREDOS Á MESA

1145 Palavras
O céu sobre Vouliagmeni estava tingido de dourado quando o carro preto estacionou diante da mansão principal dos Andreadis. O vento trazia o perfume das magnólias, e o mar, logo abaixo dos penhascos, murmurava como se guardasse histórias que ninguém ousava contar. Larissa observou a fachada imponente à sua frente — colunas de mármore, varandas abertas, o brasão da família gravado sobre a entrada. Era o lar onde Niko havia crescido. E, segundo Alexis, o lugar que ele mais evitava voltar. — A senhora Elena o aguarda para o jantar — informou o motorista, abrindo a porta. Ela respirou fundo e desceu. Estava linda — mas simples — em um vestido de seda azul, sem excessos. O colar com a pedra azul pendia no pescoço como uma ironia: presente do homem que agora seria julgado pela própria mãe. Elena Andreadis a esperava no topo das escadas, rígida e elegante. Os cabelos grisalhos estavam presos num coque perfeito, e o olhar — o mesmo olhar cortante de Niko — atravessava a alma. — Então você é Larissa. — A voz dela era fria, musical. — A brasileira que conquistou meu filho. Larissa sorriu com educação. — É um prazer conhecê-la, senhora Andreadis. — O prazer, imagino, é todo seu. — Elena virou-se e começou a andar. — Venha. O jantar não espera. Larissa a seguiu, sentindo o peso invisível de cada passo. O salão era um espetáculo de tradição e luxo — porcelanas antigas, prata polida, um piano de cauda. Niko já estava lá, de pé ao lado da mesa, tenso. — Mãe. — cumprimentou, contido. — Obrigado por nos receber. — Receber? — Elena arqueou uma sobrancelha. — Receber uma nora que aparece de repente, sem aviso, sem casamento público, sem sequer uma foto oficial? Você devia me agradecer por não ter mandado investigar. — Por que teria motivos para isso? — perguntou ele, gelado. — Porque o nome Andreadis não se mistura facilmente, querido. — Ela o encarou. — Muito menos por impulso. O silêncio que se seguiu era tão espesso que Larissa podia ouvir o tique-taque distante de um relógio antigo. Ela percebeu que Niko apertava levemente a borda da taça — o único gesto que denunciava o desconforto. Tentando aliviar a tensão, ela interveio: — Senhora Andreadis, sei que tudo aconteceu rápido. Mas posso garantir que não foi por impulso. Elena desviou o olhar para ela. — Ah, então foi o quê? Amor à primeira vista? Larissa manteve o tom sereno. — Talvez destino. A resposta surpreendeu as duas partes. Niko a olhou, surpreso; Elena estreitou os olhos, intrigada. — Destino — repetiu a matriarca. — Interessante. Há muito tempo não ouço meu filho usar essa palavra. O jantar começou. E foi, para Larissa, uma prova de fogo. Elena fazia perguntas afiadamente educadas: onde ela havia estudado, onde trabalhara, como conhecera Niko, se entendia grego, se tinha “ambições sociais”. Larissa respondeu com a honestidade que podia. Sabia que qualquer mentira sofisticada chamaria mais atenção. — Sou formada em Letras. Trabalhei como professora por um tempo. Depois, vim para Atenas por um programa cultural. Foi… um acaso o encontro com seu filho. — Um acaso? — Elena ergueu o cálice. — As mulheres raramente encontram um Andreadis por acaso, minha querida. Niko interrompeu: — Mãe. — Só estou dizendo o que todos pensam, Nikolaus. — A voz dela agora era cortante. — Você sempre desprezou relacionamentos. Sempre disse que casamento era uma distração. E agora… aparece com uma estrangeira. Larissa sentiu o coração apertar. Sabia que precisava proteger a encenação, mas também percebeu que aquela mulher falava com feridas antigas. — Talvez ele tenha mudado — disse, com suavidade. Elena pousou o garfo. — Homens como meu filho não mudam, Larissa. Eles apenas aprendem a esconder melhor o que sentem. Os olhos de Niko endureceram. — Basta, mãe. Por um momento, ninguém se moveu. O ar parecia eletrificado. Então Elena respirou fundo e sorriu — um sorriso calculado, diplomático. — Muito bem. Não quero discutir. Foi apenas uma observação. Mas Larissa sabia que havia mais por trás daquelas palavras. Depois do jantar, Elena os convidou para o jardim dos fundos. O vento balançava as folhas das oliveiras, e o mar cintilava sob a luz da lua. — Esta casa é velha demais para novos começos — disse Elena, olhando o horizonte. — Mas talvez vocês consigam provar que estou errada. Ela se virou para Larissa. — Sabe, meu filho era diferente antes. Mais leve. Mais… humano. Até que uma tragédia o mudou. Larissa hesitou. — Uma tragédia? Elena assentiu lentamente. — A mulher que ele amava morreu. E com ela, parte dele. Niko a interrompeu, ríspido: — Mãe, chega. Mas Larissa já havia entendido. O olhar de Niko, a frieza calculada, o controle… tudo fazia sentido agora. Ele não era apenas um homem acostumado ao poder. Era um homem que havia amado — e perdido. Elena a observou em silêncio. — Se realmente se importa com ele, Larissa, lembre-se disto: não tente curar o que não quer ser curado. Larissa engoliu em seco. — Talvez ele só precise lembrar que ainda é possível sentir. Elena sorriu, pela primeira vez, com um traço de admiração. — Veremos. Boa noite, minha querida. E se retirou, deixando-os sozinhos sob o luar. Niko permaneceu em silêncio por um longo tempo, olhando o mar. Larissa, ao lado dele, não sabia o que dizer. — Ela não devia ter contado. — A voz dele era baixa. — Isso não é da conta de ninguém. — Eu não pedi. — Eu sei. — Ele suspirou. — Mas agora você sabe demais. Larissa se aproximou um pouco. — Saber não é o mesmo que julgar, Niko. Ele a encarou. — Então não julgue o homem que escolheu a dor em vez do amor. — Eu não escolhi você — respondeu ela, firme. — Escolhi um contrato. Mas talvez eu tenha encontrado algo mais complexo do que esperava. O olhar dele suavizou, só por um instante. — Você é diferente. — Isso é bom? — É perigoso. O vento soprou mais forte, fazendo o vestido dela se mover. Por um segundo, o rosto de Niko pareceu vacilar — entre o controle e o desejo. Mas ele deu um passo atrás. — Vamos. O carro está esperando. E, enquanto voltavam em silêncio, Larissa sentia o peso do que havia descoberto. O contrato que a unia a Niko era apenas a superfície. Debaixo dela, havia dor, culpa e um passado que ainda respirava — como uma ferida aberta que o tempo se recusava a fechar. Naquela noite, quando se deitou, ouviu o som distante do mar. E pensou nas palavras de Elena: > “Não tente curar o que não quer ser curado.” Mas Larissa era feita de teimosia e esperança. E, mesmo sem perceber, começava a fazer exatamente isso.
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