NARRADO POR ROSA Dobrei a última blusa com as mãos trêmulas. Era simples. De algodão grosso, sem cor viva. Igual às que usei a vida toda desde que virei viúva de mentira. A mala era velha. Carcomida pelo tempo. Mas ainda aguentava. Enfiei os sapatos no canto. Ajeitei o rosário por cima das roupas. E quando fui puxar o zíper… — “Vai mesmo voltar?” A voz veio da porta. Baixa. Certa. ** Levantei o olhar. Era a Dona Zuleide. A única que sabia da minha história desde o primeiro dia. A mulher que me ajudou a fugir, que escondeu meu nome, que mentiu pra vizinhança dizendo que eu era parente de longe. Tava encostada no batente, com o pano de prato no ombro e o olhar de quem já viu muita gente partir… e pouca voltar viva. — “Vai mesmo voltar pro Morro Azul, Rosa?” Travei. O zíper

