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1641 Palavras
CAPÍTULO TRÊS. Selene Moreau Neste preciso momento, eu estou do meu lado preferido do país, bem na frente do mar. — Selene, não. Nós viemos para cá trabalhar — a Kaiane, minha amiga e assistente diz, enquanto eu coloco alguns acessórios para combinar com o biquíni que escolhi. — Eu posso deixar de ser escrava do meu pai por uma hora — a respondo, e ela me observa, suspirando fundo, como quem diz: vamos nos meter em encrenca. — Vá Kaiane, não seja careta, você viu como estão as ondas? — pergunto, admirando através da janela. As ondas mais lindas que já vi, ótimas para pegar numa prancha. E, parece que está tendo alguma competição de surf. — Primeiro, ondas são com você e não comigo — ela diz, e eu reviro os olhos, calçando os meus chinelos e pegando na minha bolsa, indo até a porta e ela me segue. — Selene, a reunião é daqui a uma hora! — ela exclama, e eu dou de ombros, saindo com ela do quarto. — E eu com isso? — pergunto, querendo curtir o meu dia longe do monte dos homens do meu pai, e fazendo o que eu quero. — E você com isso, Selene Moreau? — ela pergunta, ultrajada, caminhando do meu lado. — É suposto você conseguir fechar a negociação da compra desse resort para o seu pai, é por isso que estamos aqui — oh, sabe que eu tinha esquecido disso, Kaiane? Entramos no elevador, e eu me encosto a parede metálica a encarando. — Trata-se do senhor Moreau, se eu me atrasar ou for a adiar a reunião, ele continuará sendo o melhor cliente que eles terão — falo, e ela suspira. — Dá para relaxar, Kaiane? — pergunto, incomodada com a insistência dela. — Eu não consigo! — exclama, quando o som de chegada ao nosso andar apita e as portas metálicas escorregam para o lado nos dando passagem. — Primeiro, você conhece o seu pai. Segundo, você é perigosa perto do mar, e a probabilidade de ser comida por um tubarão lá dentro é de noventa e nove por cento, e eu não estou afim de ver isso — ela diz, fazendo-me rir, enquanto coloco os óculos escuros no meu rosto, fugindo dos olhares alheios aqui, na entrada no resort. Óculos escuros tem o poder de me fazer sentir invisível. — Eu não sei como você fez essas contas, mas tenho certeza que essa sua percentagem é bem equivocada, Kaiane — digo, e ela revira os olhos enquanto saímos em direção à praia. — Como equivocada, se vocês estão invadindo o habitat desses animais? — pergunta retoricamente. — Eu não entendo como alguém em sã consciência se joga no meio de tubarões... — deu para notar que a Kaiane não é nada exagerada? Deu, não? O céu está lindo, o mar atraente, o dia está ensolarado, e a energia aqui das pessoas, bem legal! E essa competição, oh! Eu estou me tremendo toda para não me inscrever. — Tem um lugar ali — comento, já indo para lá e ela vem logo atrás. — Nem um terço do Oceano foi investigado e vocês se enfiam no meio dele... — ela fala, e eu sorrio. — Quem escuta você falando, nem imagina que você trabalha para alguém pior que uma legião de tubarões — falo, e ela suspira. — Entendido — ela diz, e eu agradeço internamente, enquanto nos sentamos nas espreguiçadeiras que achamos bem aqui na frente. — Será que ele domina essa onda? — o moço que está narrando a competição pergunta, fazendo-me olhar para frente e oh, é daquelas ondas altíssimas, e agressivas. Só se ele for muito bom, ele não será engolido por ela e isso pode acabar muito feio... — Porque ele se jogaria para a morte desse jeito? — eu ouço a Kaiane perguntando, desacreditada. — Duas águas de coco, por favor! — peço ao moço que está bem aqui do lado. — Aqui vai! — o moço diz, nós entregando. — Obrigada! — agradecemos. Docinha! Deito-me na espreguiçadeira, deixando a minha pele ser acariciada pelos raios solares, e pousando os óculos escuros no topo da minha cabeça, com o coco no topo da minha barriga. O som das ondas e das pessoas gritando pela maestria admirável do competidor que está longe demais para o conseguir o ver, o cheiro da água salgada... Tem como alguém não gostar disso? Sabe melhor que me embebedar de whiskey, com certeza! — O Zade está ligando — a Kaiane fala do meu lado, estendendo o celular na minha direção para ver o nome desse desgraçado. Estava demorando... — Desligue isso, Kaiane — eu falo, e ela se senta na espreguiçadeira. — Selene, eu sou a sua amiga, e eu estou amando o facto de você estar desse jeito, oh! Deus sabe como eu estava com saudades dessa Selene... — ela fala, apreensiva. — Mas se você não atender, isso vai acabar em questão de segundos, e não será nada bom — ela avisa, e eu a encaro. — Eu não irei atender essa chamada — deixo claro, e ela olha para o céu, suspirando. — Eu vou nadar — falo, me levantando, porque aqui não tem como eu fugir da minha bela realidade. — Então, eu atendo... — ela diz, e eu simplesmente vou para o outro lado, e deixo o meu corpo ser tomado pela água salgada e gelada do mar, num mergulho longo e profundo. Dei uns três mergulhos no total, e deixei o meu corpo flutuando no mar, o mais relaxada que eu já estive e me senti em muito tempo, até eu escutar gritos do lado onde a competição de surf está decorrendo. Olho na direção das pessoas e estão todos sorrindo e gritando de felicidade, todos se levantaram, e eu também saio do mar, curiosa. Se ele não se machucou, quer dizer que ele conseguiu?! Com os meus pés molhados na areia caminho até onde eu estava com a Kaiane, escutando a narração do moço, só rasgando elogios para o concorrente que simplesmente ganhou a competição. Encontro a Kaiane falando ao celular, tensa, para variar, e eu estou aqui tentando ver o ser que arrasou com uma das maiores ondas que eu já vi, mas ele está sendo tão aclamado que eu m*l consigo vê-lo. Espremo a água do meu cabelo, pegando no meu coco com a outra mão, observando a pontuação insana que o competidor obteve no placar que tem aqui. — Ele é bom! — comento com a Kaiane, que se aproxima desligando o celular. — Nós precisamos voltar, você precisa ficar pronta, só temos trinta minutos — ela diz, e eu suspiro, com ela jogando a toalha na minha direção. — Sem mais, Selene... — tenho a sensação que ela terá um infarto se eu somente dizer que não. — Ele virá para cá — ela fala, apreensiva, e eu suspiro. — O que você falou? — pergunto. — Precisava eu falar alguma coisa, bastou eu atender ao invés de você que foi o suficiente — ela diz pegando na bolsa, e no seu coco. — Vamos! — ela diz, e que escolha eu tenho mais? Ficar aqui com ela cantarolando no meu ouvido, não é uma opção. Sacudo os meus pés no posterior de cada perna, e calço os meus chinelos. Pego no meu coco e apoio a toalha no meu antebraço caminhando com ela. — Ele arrasou, nunca vi algo parecido! — a Kaiane comenta, enquanto vemos finalmente as pessoas começarem a afastar-se da roda que criaram em volta do ganhador. — Lá se vai o filho do Poseidon! — o narrador brinca, fazendo as pessoas rirem, quando o meu coração falha bruscamente, e as minhas pernas paralisam. — Oh, não... — a voz da Kaiane sai num fio. Os meus olhos observam o que seria o modelo perfeito para se parecer um deus grego. Seu corpo esbelto, levemente bronzeado recheado por gotas de água salgada escorregando por ele de forma atraente. Um alarme soa dentro da minha cabeça e o meu coração que tinha falhado, acelera numa velocidade preocupante. A sua mão passa de forma desleixada pelos seus cabelos escuros e molhados, exibindo o seu bíceps perfeito. — Uma salva de palmas para Laurent Guvall! — esse nome causa um curto circuito na minha mente, e eu sinto o meu corpo aquecer, vendo ele exibir o seu sorriso para a sua noiva, a que está em tudo quanto é revista, quando ela o entrega uma toalha. Eu quero me mover, mas não consigo. Seu olhar se volta para frente, e é aí que os meus olhos se perdem não apenas nos traços másculos, e desenhados de forma atraente do seu olhar, e terminam cativos no seu belo olhar azul oceano, que faz um contraste ridículo com os seus cabelos negros. Sete meses! Sete meses se passaram desde que eu não o vejo e tampouco escuto a sua voz, diretamente. A minha respiração começa a ficar escassa, a minha barriga fria, e o resto do meu corpo quente. Seu sorriso some, e como se eu fosse invisível ele coloca a toalha por cima do seu ombro largo, e como se estivesse em câmera lenta passa por mim, bem rente a mim, como se eu fosse simplesmente um poste, e as minhas pernas enfraquecem. — Selene... — ouço a voz da Kaiane, e a sua mão segura o meu braço, quando eu simplesmente sinto como se tivesse levado uma facada no estômago. Eu seguro o meu pescoço para não olhar na sua direção, e seguro os portais do meu olhar, e o fogo ensurdecedor que consome o meu corpo. Filho do Poseidon... Com certeza, ele domina o mar e te faz criar um oceano para te afogar com ele, sem nem olhar para trás.
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