CAPÍTULO QUATRO.
Selene Moreau
Por que ele está aqui?
Sete Meses Atrás...
— Você vai se casar com o Zade Nightingale — o meu pai diz, e o meu rosto aquece, e eu franzo a minha testa, nervosa, observando o seu rosto impassível, e o seu olhar frio me observando.
— Eu não irei me casar com ninguém! — exclamo, com o meu coração batendo forte contra o meu peito.
O meu mundo está desmoronando.
Eu fui trazida para cá de forma abrupta, o Laurent, meu namorado, não pode vir comigo, porque o pai dele estava numa cirurgia de emergência, por conta de três tiros que levou inesperadamente, bem no final da nossa graduação.
Eu não posso estar com ele, eu nem sei como ele está.
Ninguém sabia que nós estávamos namorando, até porque eu nem sequer terminaria o curso se assim fosse, e voltaria no instante em que descobrissem.
Um terror!
Eu estava pronta para arriscar tudo, contar tudo, até estar no meio dessa sala com todos da minha família.
Falo do meu pai, da minha mãe, da Vesper, a minha madrasta, a irmã da minha mãe, os irmãos do meu pai, e os meus primos.
Todos!
Falando que eu não tenho escolha alguma a não ser noivar e me casar com o Zade, quando o meu namorado está numa sala de espera, aguardando por notícias do pai.
Se as coisas não podiam piorar, elas pioraram...
Os tiros que o senhor Duvall levou, foram desferidos a mando do meu pai.
O meu namorado está sozinho, do outro lado da porta de um hospital, depois de ver o pai todo ensanguentando e lutando entre a vida e a morte, por causa do meu pai!
— Você acha que tem escolha? — um dos meus primos pergunta, olhando no meu rosto e simplesmente sorri, debochado.
O meu sangue está fervendo, a minha cabeça orbitando, eu quero chorar, eu quero gritar, eu quero sair daqui!
— O que você tem a ver com isso? Porque estão aqui, hamn? — pergunto, nervosa, olhando para eles. — Se eu não quero, se eu digo que não vou me casar ou noivar com alguém, é porque eu não quero e eu não vou — procuro deixar isso bem claro, olhando para o rosto de cada um deles.
— Garrett, o que você diz? — o meu tio, irmão do meu pai, o tio Dawson fala, o encarando, e o meu pai não tira os seus olhos de mim.
— O que se tem a dizer? — ele questiona, me encarando, frio. — As minhas filhas fazem o que eu mando, e se eu ordeno, eu espero que seja feito — ele fala, e eu franzo a minha testa, irritada. — Preparem o noivado — ele diz, com os seus olhos nos meus, e eu levo o meu olhar para a minha mãe que se mantém calada.
Ninguém fala coisa nenhuma quando tem que falar, mas passam o dia todo falando besteira.
— Eu já disse que não vou! — berro, e no mesmo instante o meu pai se levantou, a sua mão pesada encontrou o meu rosto, e eu desmoronei no chão pela força ridícula que ele usou para me bater.
— ... — o som da chapada que ele me deu ecoou, e a dor arrepiou todo o meu corpo.
Eu fiquei tão desorientada, que a minha mão encontrou a minha bochecha que está aquecendo. O meu olhar que fica inundado de lágrimas, vão na sua direção, perplexa.
Sinto gosto de sangue nos meus lábios, e raiva se tornar o único sentimento que tenho agora.
— Se pensa... — o meu dedo limpa o sangue que verte pelo meu lábio. — Se pensa que isso me amedronta está muito enganado, papai — falo.
— Mandá-la para fora não foi uma boa decisão, Garrett. Veja como a sua filha ficou rebelde! — o meu outro tio, também irmão do meu pai, o tio Bennett, diz.
— Acha que o filho do Duvall vai se casar com a filha do maior inimigo do pai dele? — perplexa, foi como fiquei.
— Foi o senhor? — a minha questão sai num fio.
Ele ainda fala em voz alta!
— Que tipo de pai é o senhor? — esbravejo, endoidecida.
— Do tipo que irá prender você aqui, se não quiser obedecer as minhas ordens por bem — ele afirma, e o meu coração acelera.
— Ele ainda não está morto... — ele fala sugestivo. — Eu posso terminar com o que comecei — não, não, não.
— Ou você se casa com o Zade, ou quem está tentando proteger irá morrer hoje mesmo junto do pai — como um som de alarme, os meus ouvidos ensurdecem com a sua afirmação, que vinda dele não é nenhum blefe, e uma lágrima verte pelo meu rosto.
Com medo, aterrorizada, tudo pelo Laurent, e incrédula com o meu o pai que eu tenho.
As minhas pernas que simplesmente perderam forças, se esforçam para me ajudar a levantar desse chão.
— Não ouse fazer nada com eles — num sopro ríspido eu falo, e ele sorri.
— Ótima escolha minha filha — ele diz, e eu sinto desgosto. — Agora vá descansar, você teve um dia e uma viagem agitada — ela fala. — Deve ter sentido saudades demais da sua família, mas deve descansar antes de oficializar o seu noivado. Faz tempo que não se veem, não é verdade? — e ele continua falando.
— A esse ponto, eu penso que se eu não tivesse a coisa que vocês insistem em chamar de família, estaria bem melhor — falo, olhando para o rosto de todos eles, com raiva.
— Oh, para de drama, menina... — ouço a Medina, minha madrasta falar, e eu simplesmente a ignoro, subindo as escadas rumo ao meu quarto.
— Selene! — ouço a voz da Vesper, que vem atrás de mim, e eu simplesmente subo querendo explodir de raiva.
Abro a porta e a Vesper entra logo em seguida, fechando-a assim que entra.
— Que doença é essa? — eu questiono, sem conseguir me segurar e ela me observa, preocupada.
— Eu senti saudades suas! — ela exclama, me abraçando, e um pouco da raiva que estava sentindo, diminuiu.
— Eu também! — respondo desenvencilhando-me dela depois de alguns segundos.
— Mas o que foi isso? — eu pergunto, ultrajada, extremamente preocupada, tentando pensar no que fazer.
— O mesmo de sempre. Por que ainda se surpreende com as coisas que o papai faz? — ela me pergunta e eu olho para o teto, nervosa.
— Porque são anormais, Vesper! — eu exclamo. — E agora ele está machucando o pai de quem eu amo, ele ainda ameaçou matá-lo a ele, você entende? — pergunto, atordoada.
— Então, a minha irmãzinha está mesmo apaixonada? — ela pergunta, sorrindo, e eu sorrio, mesmo sem querer.
— Você está mesmo apaixonada, Selene! — ela exclama, e eu me sento na cama, com a minha mente e coração a mil.
— O que eu faço, Vesper? — pergunto, realmente apreensiva, e lágrimas encharcam o meu rosto.
— Eu prometo que eu quero ajudar, mas não há muito a ser feito agora, Selene — ela diz, puxando o puff e se sentando na minha frente.
— A segurança aqui está alta, se você tentar alguma coisa, você sabe que não acabará bem com você — ela fala o óbvio, mas ele só tem o pai, e ao contrário de nós, ele é muito amigo do pai.
E, por minha culpa ele pode perder o pai.
— Sem contar que ele ficou lá, e você está aqui — ela fala, como se eu já não soubesse.
— É, você realmente não está ajudando — falo, inconformada.
— Eu sei — ela afirma, e suspira. — Apenas me diga do que você precisa, e eu farei, tudo bem? — ela diz, pegando nas minhas mãos, e eu sorrio.
— Eu amo você — digo, e ela sorri.
— Eu mais ainda — diz, e eu jogo a minha cabeça contra o colchão.
Ela está latejando.
— Me empreste o seu celular — falo.
Eles levaram o meu celular de mim no mesmo instante em que me encontraram.
— Aqui — ela diz, e eu o pego, já discando o número dele.
Ela me encara com os seus belos olhos castanhos escuros iguais ao da mamãe, e eu olho o celular chamar, mas ninguém atende.
Foram minutos em silêncio que eu fiquei olhando para essa tela sem resposta alguma, e ela aqui do lado.
Tentei ligar para o seu amigo, que também é seu segurança pessoal, mas o sinal sempre está ocupado.
Eu estou ficando louca!
— ... — inspiro fundo me levantando, e ela que já estava sonecando na minha cama, se senta.
— O quê? — ela pergunta, observando-me.
— Eu preciso ir para lá — falo, e ela sorri, abanando a cabeça negativamente.
— Só se você for louca... — ela diz, e eu a encaro.
— Eu sou louca — afirmo, o que ela sabe. — Vai me ajudar ou não? Eu não vou ficar mais um minuto aqui sem ter notícia alguma — deixo claro.
Não tem meio termo nisso.
— Selene, isso não vai acabar bem... — ela diz, levantando-se. — Mas eu estou dentro, me fale o que está pensando — eu adoro a minha irmã.
— Lembra daquele senhor que gosta da mamãe e detesta o papai? — pergunto, e ela assente.
— Sei... — ela diz, me observando.
— Ligue para ele, e diga que eu estou pedindo o helicóptero dele emprestado e que é segredo. Ele vai aceitar, porque detesta o papai, e quer atenção da nossa mãe — falo.
— Não me diga que vai querer pilotar aquele negócio em plena madrugada? — ela questiona, e eu dou de ombros.
— Não tenho outra alternativa, tenho? — pergunto, e ela suspira fundo.
— E se houver algum problema, um acidente? — ela já está pirando. — Não, não, não, Selene... Eu não vou me perdoar — ela diz, e eu reviro os olhos.
— Entre ser acidentada e casar forçada, eu prefiro a primeira opção — deixo claro. — E outra, eu sou a mais velha aqui, você devia fazer as coisas sem me questionar, Vesper — falo, e ela revira os olhos agora.
— Diferença de um ano — ela retifica. — Um ano não conta como mais velha, mas eu ajudo você, porque eu sou uma ótima irmã — ela fala.
— Que horas pretende sair? — ela pergunta.
— Meia-noite — respondo. — Eu irei sair daqui durante a madrugada, e você irá chamar um táxi e o mandará parar três quarteirões depois daqui. Ele me levará para a casa do senhor, e eu irei direto pegar o helicóptero — conto.
— Muito arriscado, os homens do papai estão por tudo quanto é canto... — eu a corto.
— Você vai fazer isso, Vesper... — eu falo. — Por favor! — peço, e ela suspira fundo, olhando para o teto.
— Você não me perdoaria se eu não fizesse — que bom que você sabe.
— Só não me deixe preocupada — ela pede e eu sorrio.
— Não se preocupe — respondo, e no mesmo instante, batem na porta e depois ela é aberta revelando a nossa mãe.
— Meu amor... — ela diz, vindo até mim e eu estou lutando entre a ignorar e a abraçar.
A conversa não durou muito, porque eu estou com a cabeça atordoada e quente, e elas foram para casa.
O meu pai veio para cá?
Não.
A minha cabeça estava a mil e só foi piorando.
As coisas aconteceram muito rápido, quando fui ver, eu tinha feito um arranjo na cama para parecer que estava dormindo.
No auge dos meus vinte e cinco anos, eu estou forjando o meu sono.
Fiquei o tempo inteiro de olho na janela, e quando observei a troca de seguranças sendo feita, eu pulei da janela do meu quarto, que fica no primeiro andar, e usei de toda a minha habilidade sensorial para escapar dessa casa sem ser pega por nenhum dos seguranças.
E a adrenalina, o alarme soando na minha cabeça, o medo, o desespero, me fez chegar ao heliponto da casa alheia, e simplesmente pilotar o helicóptero até o hospital de outro país.
A Vesper deixou um celular novo aqui, com um bilhete dizendo para a ligar assim que chegasse, e eu agradeço.
Estacionei o helicóptero no heliponto do hospital, e eu reconheço o rosto do primeiro segurança que vejo na porta daqui.
— Selene?! — ele exclama, surpreso em me ver.
— Apollo... — eu falo, nervosa. — Me diga que ele não morreu, por favor... — lágrimas vertem pelo meu rosto, eu estou prestes a perder a cabeça.
— Se acalme — ele diz, e céus! — Como você chegou aqui de helicóptero? Sozinha? Desde quando você sabe pilotar? — ele pergunta.
— Sério, Apollo? Agora? — pergunto, nervosa.
— Tudo bem — ele fala. — O senhor Duvall está vivo. Ele acabou de sair da cirurgia, mas ainda está em observação — ele conta, e eu estou entre o alívio e a apreensão.
— Eu preciso falar com o Laurent — falo.
— Eu acompanho você, mas ele está no quarto com o senhor Duvall — ele avisa, e eu vou descendo na frente dele.
— Como você atravessou o país pilotando um helicóptero? — escuto ele perguntar. — Você consegue me surpreender a cada dia que passa... — escuto ele murmurando atrás de mim.
Nem como cheguei aqui direito eu sei, Apollo. Eu só preciso ver e falar com o Laurent.
— Não está ninguém aqui... — comento quando chegamos a sala de espera onde era suposto ele estar, mas está cheio de seguranças.
E tudo por causa do meu pai.
— Ele deve estar no quarto. Eu vou o chamar, e depois trago um chá para você se aquecer, está tremendo — ele comenta, e eu assinto, vendo-o entrar no quarto depois de bater na porta.
Não demorou muito, e o ser mais perfeito que os meus olhos alguma vez viram, se iluminam quando me veem, deixando-me mais aliviada.
Ele não me odeia.
— Selene?! — ele exclama, surpreso em me ver, e eu simplesmente me jogo nos seus braços, chorando.
Era suposto ser o contrário, mas eu não consigo me conter.
— Me desculpe... — eu peço, levantando o meu rosto na sua direção, e os seus olhos me observam, enquanto ele limpa o meu rosto, e sorri.
— Por simplesmente pilotar um helicóptero até aqui no meio da noite? Eu desculpo — céus! Como pode ser brincalhão agora?
— Foi o meu pai que mandou atirar no seu — eu falo, e ele assente, extremamente calmo.
— Eu sei — ele afirma, e os meus batimentos cardíacos estão descontrolados. — Mas nada disso é culpa sua, essa é uma richa do seu pai com o meu, você não tem que se sentir culpada por nada, e nem devia ter se arriscado desse jeito, meu amor — a voz dele, a maneira dele falar... ele acabou de dizer meu amor, e eu sinto o meu corpo derreter e aquecer mediante a sua presença.
— Ele está bem? — pergunto, preocupada, e ele assente.
— Ele está — afirma, me levando para outra sala que tem aqui. — Você está tremendo — ele diz, colocando a sua camisola e colocando em mim, enquanto aumenta a temperatura na sala.
Batem na porta no mesmo instante.
— Entre — ele responde, e eu simplesmente me conforto com o cheiro bom dele emprignado em mim, e o facto dele simplesmente não me odiar.
Tem como ele ser mais perfeito?
— Um chá pequena aventureira? — o Apollo diz, me oferecendo e eu sorrio.
— Obrigada, Apollo! — agradeço, pegando.
— Trouxe café para você e para mim — ele diz, dando o copo de café para o Laurent.
— Obrigado! — ele responde, e eu levo o copo para a minha boca e me arrependo.
— ... — gemo de dor, atraindo a atenção deles.
— Quem fez isso com você? — o Laurent pergunta no mesmo instante, vindo tocar no meu lábio que cortou com a chapada do meu pai.
E que vergonha é, eu ter de dizer que foi ele.
— O meu pai... — respondo.
Mas não é como se fosse a primeira vez.
Seu olhar antes preocupado, arrefece, e o seu maxilar cerra, e se ele não consegue ficar mais atraente desse jeito, mesmo me causando frio na barriga.
— Propositalmente? — ele busca confirmar e eu suspiro fundo.
— Você pode se sentar? — pergunto, querendo despejar tudo de uma vez, eu estou os colocando mais em risco estando aqui.
— O que aconteceu, Selene? — ele pergunta, observando-me minuciosamente, e eu simplesmente me levanto.
— O meu pai quer que eu me case com outra pessoa, e ameaçou-me terminar o que ele começou se eu ousasse negar, e essa foi a consequência de eu me opor — falo de uma só vez, e o olhar azulado dele vai para o teto, enquanto ele respira fundo, como se pedisse paciência.
— O seu pai o quê? — o Apollo questiona, inconformado.
— Eu nem sequer deveria estar aqui, mas eu precisava ver como você estava — eu falo.
— Você está ponderando ouvir o seu pai, Selene? — ele pergunta, e o meu coração está extremamente acelerado.
— Eu não quero me casar com ninguém que não seja você, mas eu prefiro me sacrificar do que perder você, e por minha causa — deixo claro.
— Você é minha, Selene. E nem por cima do meu cadáver eu permitiria que outro homem tocasse em você — o meu esqueleto literalmente treme, e o meu coração agitado no meu peito, finalmente derrete.
— Qual será o plano? — o Apollo pergunta, animado.
E eu regressei para aquela maldita casa, mais calma, e confiante de que eu não ficaria lá por muito tempo.
Dias Atuais...
E agora, depois dele simplesmente ter me destruído, ele passa por mim, como se nunca tivesse me visto?!