O Que Se Espalha

1496 Palavras
Nada aconteceu por algumas horas. E isso foi o mais estranho. Você e Nicolas voltaram para casa em silêncio, cada um sentindo o mundo com uma atenção nova, como se qualquer detalhe pudesse ser arrancado a qualquer momento. O elevador subiu lento demais. O espelho refletiu vocês dois — ainda completos. — Enquanto ele não age… — Nicolas murmurou. — Ele observa — você completou. — Ajusta. O primeiro sinal veio das redes sociais. Não como trending topic. Como ruído repetido. “Não sei quem ele é, mas não consigo esquecer o rosto.” “Vi algo estranho hoje. Pessoas pararam juntas, como se lembrassem de alguém.” “Isso é só comigo ou vocês também sentem que algo tentou sumir?” Você leu em silêncio, o peito apertado. — Eles não estão lembrando de você — disse. — Estão lembrando da sensação de escolha. Nicolas se aproximou. — E isso se espalha. — Como fogo — você confirmou. A televisão ligou sozinha. Não canal. Imagem. Uma praça cheia, em outra parte da cidade. Pessoas paradas, imóveis, como se algo invisível tivesse passado por elas. Uma mulher falou para a câmera, confusa: — Não aconteceu nada. Mas… parece que quase aconteceu. — Engoliu em seco. — E isso mudou tudo. Você sentiu o impacto como um arrepio profundo. — O Véu vai intervir — disse. — n******e permitir consciência coletiva. Como se invocado, o ar se dobrou. Elián Voss surgiu novamente, desta vez à vista de todos. A transmissão não caiu. Isso foi o erro dele. — Atenção — disse Elián, a voz atravessando microfones, celulares, mentes. — O que sentem é um erro perceptivo. Não resistam. As pessoas reagiram. Não com pânico. Com raiva. — Não fala comigo assim — alguém gritou. — Você não manda em mim! — outra voz ecoou. Elián franziu o cenho. — Emoção não altera correções. — Altera sim — você disse, avançando até a televisão. — Porque não somos dados. Elián olhou diretamente para a câmera. Para você. — Você ultrapassou o limiar — disse. — Se continuar, vou precisar remover um símbolo. Nicolas sentiu o estômago afundar. — Um símbolo… — repetiu. — Tipo o quê? Elián inclinou a cabeça. — Algo que represente permanência. — Olhou novamente para a câmera. — Algo que muitos reconheçam. O aviso foi dado. Minutos depois, outra transmissão interrompeu a programação. Uma imagem conhecida. Um hospital infantil. Você sentiu o gelo subir pela espinha. — Não… — sussurrou. A câmera mostrou o corredor principal. Crianças. Pais. Enfermeiros. E então, no centro do quadro, o espaço vazio onde alguém acabara de desaparecer. Não houve grito. Só confusão. Elián reapareceu na tela. — Isto é correção — disse. — Um símbolo foi removido para evitar contágio. O mundo explodiu em reação. Pessoas choraram. Outras gritaram. Algumas desligaram a TV, incapazes de aceitar. Nicolas sentiu a marca arder violentamente. — Ele matou alguém. — Não — você respondeu, o olhar escuro, furioso. — Ele apagou alguém amado. O vínculo reagiu. Não em ataque. Em chamado. Você sentiu pessoas — desconhecidas — se conectarem a algo invisível, como se procurassem instintivamente aquilo que lhes fora tirado. — Nicolas… — você disse, sentindo o peso da decisão se formar. — Ele está testando o limite da culpa coletiva. Nicolas respirou fundo. — E ele sabe — disse — que eu posso virar esse símbolo. Você virou-se para ele, alarmada. — Não. — Se eu desaparecer voluntariamente — ele continuou — talvez ele pare. Talvez o movimento perca força. O silêncio caiu como uma lâmina. — Não faça isso — você disse, a voz firme demais para esconder o medo. — É exatamente o que ele quer. Nicolas segurou suas mãos. — Ou talvez seja o que ele não sabe calcular — respondeu. — Escolha consciente… não apagamento f*****o. Você sentiu o mundo tremer. Não por ele. Pelo que ele representava. Lá fora, a cidade vibrava com algo novo: pessoas lembrando de quem não sabiam o nome, chorando por ausências que não conseguiam explicar, recusando a normalidade imposta. Elián observava tudo de um ponto fora do tempo. — Interessante — murmurou. — O erro se tornou movimento. Ele ergueu a mão. — Então vamos ver… — disse — se ele também se espalha quando o símbolo escolhe sumir. Você apertou as mãos de Nicolas, sentindo o vínculo pulsar, instável. A próxima escolha não seria apenas deles. Seria de todos.O silêncio que se seguiu à transmissão foi insuportável. Não o silêncio da ausência — mas o da decisão iminente. Você soltou as mãos de Nicolas devagar, como se qualquer gesto brusco pudesse empurrá-lo para longe do mundo. — Não ouse — disse, a voz baixa, firme, perigosa. — Não transforme a própria existência em moeda. Nicolas respirava fundo, os olhos fixos em um ponto invisível à frente. — Ele está usando vidas como aviso — respondeu. — E sabe que isso funciona porque as pessoas sentem culpa antes de sentir raiva. Você se aproximou mais, tocando o rosto dele. — E você acha que desaparecer vai salvá-las? — perguntou. — Ou só ensinar o Véu que vale a pena chantagear? Ele fechou os olhos por um instante. — Eu não sei — admitiu. — Mas eu sei que ele está certo sobre uma coisa. — Qual? — Símbolos importam. O vínculo pulsou, instável, como se estivesse escutando demais. Do lado de fora, gritos ecoaram pela rua. Não de pânico — de indignação. Pessoas reunidas, celulares em mãos, compartilhando o vídeo do hospital, discutindo, chorando, recusando-se a seguir em frente como se nada tivesse acontecido. — Olha — Nicolas murmurou, indo até a janela. Você viu também. Velas improvisadas. Cartazes sem nomes. Frases escritas às pressas: “Eu lembro.” “Não aceito o apagamento.” “Alguém esteve aqui.” Seu peito apertou. — Eles não sabem quem foi apagado — você disse. — Mas decidiram lembrar mesmo assim. O ar mudou. Não como ataque. Como pressão descendente. Elián Voss surgiu no centro da sala, mais sólido do que antes. Não havia neutralidade agora. Havia algo próximo de irritação contida. — Isso está escalando — disse. — Vocês subestimaram a instabilidade humana. — Não — você respondeu. — Você subestimou a capacidade humana de se importar sem garantia. Elián voltou-se para Nicolas. — Sua proposta implícita foi registrada — disse. — Desaparecimento voluntário em troca de contenção. Você sentiu o gelo percorrer a espinha. — Ele não aceitou nada — você disse. — Ainda — Elián respondeu. — Mas o cálculo existe. Nicolas deu um passo à frente. — Se eu escolher desaparecer — disse — você interrompe os apagamentos. Elián inclinou a cabeça. — Temporariamente — respondeu. — Até que o sistema estabilize. — Mentira — você disse, com frieza. — Você não estabiliza. Você reduz. Elián não negou. — Redução é estabilidade — respondeu. — Emoção é ruído. Você avançou um passo, o olhar cortante. — Então observe isso com atenção — disse. Você segurou a mão de Nicolas com força e falou alto, não para Elián — mas para o mundo que escutava sem saber. — Se ele desaparecer, não aceitem. — Não transformem isso em sacrifício nobre. — Lembrem-se dele não como símbolo… mas como escolha roubada. O vínculo reagiu violentamente. Não como colapso. Como amplificação. Elián recuou meio passo. — Isso não é permitido — disse. — Não é controlável — você corrigiu. Nicolas sentiu o impacto atravessar o corpo. Pessoas, muitas pessoas, começaram a repetir frases semelhantes nas ruas, nas redes, em transmissões improvisadas. — “Não aceitamos.” — “Não autorizamos.” — “Não em nosso nome.” O mundo começava a responder. Elián apertou os maxilares. — Vocês estão forçando uma bifurcação — disse. — Se continuar, precisarei intervir diretamente em você. Ele apontou para você. O ar ao seu redor esfriou. Nicolas se colocou à sua frente. — Não — disse. — Se alguém desaparecer… serei eu. Você o encarou, o coração batendo forte demais. — Não faça isso — sussurrou. — Se você for… eu não sei se consigo te puxar de volta. Ele encostou a testa na sua. — Então me lembre — disse. — Mesmo que o mundo esqueça. O vínculo gritou. Não de dor. De recusa. Elián observava, sério agora. — Fascinante — murmurou. — Vocês não estão resistindo ao apagamento. — Estão ensinando o mundo a rejeitá-lo. Ele deu um passo para trás. — Capítulo seguinte — disse, como se falasse com algo maior. — Teste de remoção consciente. E desapareceu. Você segurou Nicolas com força, o corpo inteiro tremendo. — Ele vai tentar te levar — disse. — À força… ou por escolha. Nicolas respirou fundo. — Então o próximo passo não é desaparecer — disse. — É provar que nem mesmo o Véu pode decidir sozinho quem fica. Lá fora, as velas se multiplicavam. E, pela primeira vez desde que o apagamento começou, o mundo não parecia menor. Parecia desperto.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR