Pré-visualização gratuita Entre cristal e silêncio
A cidade pulsava abaixo do seu penthouse como um coração que nunca dorme. Luzes douradas cortavam a escuridão, carros desenhavam linhas vivas nas avenidas, e tudo parecia distante — quase irreal. Ali em cima, o mundo era outro. Silencioso. Controlado. Seu.
Você estava sentada próxima à janela, o corpo envolto apenas por um robe de seda que escorria pela pele como um segredo. A taça de cristal repousava firme em sua mão. O líquido vermelho, espesso, refletia a luz baixa do ambiente com um brilho quase hipnótico. Não era apenas vinho. Você sabia disso. E ainda assim, bebia.
Nicolas Ashford — seu marido — ainda não havia chegado.
Ele sempre chegava tarde. O homem que construiu impérios com palavras medidas e um sorriso discreto vivia enterrado em reuniões, conselhos, decisões que moviam milhões. Você aprendera a não se importar. As noites eram suas. O silêncio era seu aliado. E beber, quando estava sozinha, era um cuidado que você sempre teve.
Ou pelo menos acreditava ter.
O som metálico da porta se destrancando rasgou o ar como uma lâmina.
Seu corpo congelou instantaneamente. A taça permaneceu suspensa, os dedos firmes demais para alguém que deveria estar relaxada. Os passos vieram logo depois — firmes, seguros, conhecidos. Cada um deles ecoava no seu peito.
Ele estava ali.
Nicolas entrou na sala com a gravata frouxa e um buquê de lírios brancos em uma das mãos. Havia calor em sua expressão, um cansaço suave misturado com carinho. Até o momento em que os olhos dele encontraram os seus.
O tempo parou.
O sorriso morreu devagar. O ar pareceu mais pesado. Seus olhos escureceram — não de raiva, mas de algo mais profundo. Algo primitivo. Um rubor vermelho brilhou neles por um segundo, quase imperceptível… mas real.
As flores escorregaram de seus dedos e caíram no chão.
Pela primeira vez desde que o conhecia, você viu Nicolas Ashford perder o controle da própria compostura. Confusão. Descrença. Medo.
— Meu amor… — a voz dele saiu baixa, tensa. — O que é você?
Seu coração bateu forte, lento demais. Você pousou a taça sobre a mesa com cuidado excessivo, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo irreversível.
— Eu sempre fui sua — respondeu, levantando-se. — Você só nunca enxergou.
Ele deu um passo para trás. Depois outro. O olhar dele desceu até seus lábios, onde ainda havia um vestígio vermelho — não do vinho, mas da verdade que você já não conseguia esconder.
— Isso… — ele engoliu em seco — isso não é possível.
Você sorriu. Não um sorriso gentil. Mas antigo. Faminto.
— É por isso que eu bebo sozinha — disse, a voz suave demais para o que significava. — Para não machucar você.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Lá fora, a cidade continuava viva. Dentro daquele penthouse, porém, algo havia morrido… e algo muito mais perigoso acabara de nascer.
E Nicolas Ashford precisava decidir se fugiria da verdade — ou se se entregaria a ela.
O silêncio entre vocês não era vazio. Era denso. Vivo. Carregado de tudo aquilo que nunca havia sido dito.
Nicolas permaneceu imóvel por alguns segundos que pareceram minutos. O olhar fixo em você, como se estivesse tentando encaixar sua imagem em alguma lógica possível — empresário, marido, homem que sempre acreditou controlar todas as variáveis. Mas não havia planilhas, contratos ou reuniões capazes de explicar o que ele via agora.
— Afasta-se da janela — ele pediu, a voz baixa, controlada demais. — Está frio.
Você obedeceu, mas não por submissão. Caminhou lentamente até o centro da sala, a seda do robe acompanhando cada passo como uma sombra líquida. A luz revelou mais do que deveria: a palidez suave da sua pele, o brilho sutil nos seus olhos, a tranquilidade perigosa com que você se movia.
— Você sempre cuidou de mim — disse, com um sorriso quase triste. — Mesmo quando não sabia de tudo.
Ele engoliu em seco.
— Aquilo na taça… — Nicolas apontou para o cristal esquecido sobre a mesa. — Não era vinho, era?
Você não respondeu de imediato. Pegou a taça, girou o líquido lentamente, observando como ele se movia pesado, escuro, vivo.
— Era necessário — respondeu por fim. — Para manter o controle. Para continuar sendo… quem você conheceu.
Nicolas deu um passo à frente, depois parou, como se uma linha invisível tivesse sido traçada entre vocês.
— Há quanto tempo? — perguntou.
Você ergueu o olhar para o teto, pensativa.
— Desde antes de te conhecer. Desde muito antes de tudo isso. — Fez um gesto amplo, indicando o penthouse, a cidade, o império que ele construiu. — Eu achei que poderia deixar essa parte de mim no passado. Que o amor seria suficiente.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Então todo esse tempo… — a voz falhou pela primeira vez — você esteve mentindo para mim?
Você se aproximou até que restasse apenas um passo entre vocês.
— Eu nunca menti sobre te amar.
O coração dele batia rápido demais. Você podia ouvir. Sentir. Cada pulsar era um convite e uma t*****a. Seus instintos despertaram como algo antigo se espreguiçando dentro do peito. Mas você se conteve.
Sempre se conteve.
— Você não tem medo? — perguntou ele, quase num sussurro.
— Tenho — você respondeu com honestidade. — Todos os dias. Medo de te perder. Medo de machucar você. Medo de que, quando soubesse, me olhasse como está olhando agora.
Nicolas fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia algo diferente ali — não apenas medo, mas fascínio. A perigosa curiosidade de um homem que sempre quis entender tudo.
— O que você é? — perguntou novamente, mas dessa vez sem recuar.
Você levou a mão ao peito, sentindo o silêncio do próprio coração.
— Sou a esposa que você escolheu. — Aproximou-se mais um pouco. — E sou a noite que você nunca imaginou amar.
O ar entre vocês se incendiou.
Lá fora, a cidade continuava indiferente. Dentro daquele penthouse, porém, o mundo de Nicolas Ashford acabava de se partir em dois — e a escolha diante dele não era entre ficar ou fugir.
Era entre amar você…
ou sobreviver à verdade.Nicolas respirou fundo, como se o ar tivesse se tornado raro demais para seus pulmões. Ele afrouxou ainda mais a gravata, gesto automático de quem sempre precisou manter o controle — e agora o perdia pouco a pouco.
— Você devia ter me contado — disse, finalmente. Não havia acusação, apenas cansaço. — Eu teria… tentado entender.
Você inclinou a cabeça de leve, os olhos pousando nele com uma ternura perigosa.
— Não — respondeu com suavidade. — Você teria tentado salvar. E isso teria te matado.
O impacto daquelas palavras foi imediato. Ele levantou o rosto, o maxilar tenso.
— Eu não sou frágil.
— Não — você concordou. — Mas é humano.
A palavra ficou suspensa entre vocês, pesada como uma sentença.
Nicolas caminhou lentamente pela sala, passando pela mesa, pelos lírios caídos no chão. Ajoelhou-se e tocou as pétalas brancas com cuidado, como se aquilo ainda pudesse fazer sentido.
— Tudo isso… — murmurou. — Nosso casamento. As noites. O jeito como você evitava espelhos. O fato de nunca adoecer. — Ele ergueu o olhar para você. — O jeito como me observava dormir.
Você fechou os olhos por um segundo.
— Eu precisava saber se você ainda estava ali quando acordasse.
Ele se levantou devagar e, pela primeira vez desde que entrou, aproximou-se sem hesitação. Estava perto demais. Perto o suficiente para que você sentisse o calor do corpo dele. Perto o suficiente para que o cheiro do sangue dele se tornasse um sussurro perigoso na sua mente.
Você deu um passo atrás.
— Não — disse, firme. — Não chegue mais perto hoje.
— Por quê? — ele perguntou, a voz baixa, quase um desafio.
Seus olhos escureceram.
— Porque eu já bebi. E porque você está confuso. — Respirou fundo. — E porque eu te amo demais para atravessar essa linha sem que você escolha isso conscientemente.
O silêncio voltou a se espalhar, mas agora carregava outra coisa: d****o contido, medo misturado à atração, e uma verdade impossível de ignorar.
Nicolas passou a mão pelo cabelo, exausto.
— Então o que acontece agora?
Você caminhou até a janela novamente, observando a cidade como quem observa um passado que já n******e tocar.
— Agora — disse — você dorme em outro quarto.
— Agora — continuou — você decide se consegue viver sabendo quem eu sou.
— E amanhã… — você virou-se para encará-lo — amanhã eu respondo tudo. Sem mentiras. Sem metáforas.
Ele assentiu devagar.
— E se eu decidir ficar?
Seu olhar encontrou o dele, intenso, antigo, verdadeiro.
— Então — você respondeu — nada será seguro novamente. Nem o amor. Nem o mundo que você construiu.
Nicolas sustentou seu olhar por longos segundos. Depois, com uma voz firme demais para alguém que acabara de ver sua realidade ruir, disse:
— Eu nunca fui um homem que foge.
Você sorriu. Não de alívio. Mas de algo muito mais perigoso.
A noite se fechou ao redor de vocês como um pacto silencioso.
E assim, no coração de um império iluminado, começava a história que nem o amor — nem o sangue — seria capaz de conter.