Capítulo 2 — As Regras da Noite

1922 Palavras
A noite avançou silenciosa demais. Nicolas não dormiu. Você sabia disso antes mesmo de ouvir os passos contidos atravessando o corredor às quatro da manhã. O penthouse parecia prender a respiração, como se as paredes também aguardassem a pergunta que ainda não fora feita. Você estava na cozinha, a luz baixa, uma xícara intacta entre as mãos — apenas para manter a aparência de normalidade. Quando ele entrou, vestia a mesma camisa, agora amarrotada, os olhos marcados por pensamentos que não encontraram descanso. Ele parou a poucos metros de você. — Você disse que responderia tudo — falou. — Sem metáforas. Você assentiu devagar. — Disse. Houve um breve silêncio. Então veio a pergunta. Não a mais óbvia. Não a mais segura. A proibida. — Você já pensou em me m***r? A palavra caiu entre vocês como vidro quebrado. Você não se moveu. Não desviou o olhar. Apenas respirou fundo — um hábito antigo, herdado de uma vida que já não batia no peito. — Sim — respondeu com honestidade. — Pensei. Nos primeiros meses. Nos primeiros anos. Sempre que o cheiro ficava forte demais. Sempre que você dormia com o pulso exposto. Sempre que o mundo ficava silencioso demais. Nicolas fechou os olhos por um instante. Quando abriu, não havia horror. Havia compreensão dolorosa. — E por que não fez? Você se aproximou um passo. — Porque pensar não é querer. E querer não é amar. Ele passou a mão pelo rosto, sentando-se à mesa como se o próprio corpo tivesse cedido. — Então é isso? — perguntou. — Eu vivo ao lado de alguém que luta todos os dias contra o instinto de me destruir? — Não — você corrigiu com firmeza. — Você vive ao lado de alguém que escolheu você todos os dias… apesar do instinto. Ele levantou o olhar, atento. — Então me diga como isso funciona. — A voz era baixa, controlada. — Se eu ficar… quais são as regras? Você ficou em silêncio por alguns segundos. Aquilo era sério demais para improvisos. As regras não eram p******o apenas para ele. Eram para você. — Primeira regra — começou. — Você nunca me oferece sangue. Nunca. Nem por curiosidade, nem por amor, nem por medo. — Entendido. — Segunda — continuou. — Se eu disser para se afastar, você se afasta. Sem perguntas. Sem heroísmo. Os lábios dele se apertaram, mas ele assentiu. — Terceira — sua voz ficou mais baixa. — Você nunca entra em um lugar escuro comigo sem luz. Parece simples, mas não é. — Por quê? — Porque a noite não me obedece — respondeu. — Ela apenas me reconhece. O silêncio voltou, mais pesado agora. — E a última? — ele perguntou. Você o encarou longamente antes de responder. — A última regra é a mais difícil. — Aproximou-se, apoiando as mãos na mesa, inclinando-se até ficar no campo de visão dele. — Você pode ir embora quando quiser. Sem perseguição. Sem promessas quebradas. Sem culpa. O olhar dele subiu até o seu, intenso. — E se eu não quiser ir? Seu coração — aquele que não batia — apertou. — Então — disse suavemente — você precisará aceitar que o amor nem sempre salva. Às vezes… ele apenas ensina a sobreviver. Nicolas respirou fundo. Depois, algo inesperado aconteceu. Ele estendeu a mão. Não para tocar você. Parou no meio do caminho. — Posso? Você observou aquela mão por um segundo longo demais. Então assentiu. Ele tocou seus dedos. Apenas isso. Um contato simples. Humano. Quente. Você sentiu. Sentiu mais do que deveria. — Eu fico — ele disse. — Não porque sou corajoso. Mas porque não consigo mais fingir que não vi quem você é. Você fechou os olhos por um instante, como se aquela escolha tivesse selado algo antigo. — Então — murmurou — bem-vindo à noite, Nicolas Ashford. E pela primeira vez desde que se tornara a Esposa da Noite, você sentiu medo. Não de machucá-lo. Mas de perdê-lo para sempre.O toque ainda permanecia entre vocês quando Nicolas recolheu a mão, como se temesse quebrar algo invisível. Você percebeu a mudança imediata no ar — não era apenas tensão, era consciência. Ele agora sabia. E saber tinha um peso próprio. — Você sente alguma coisa quando me toca? — ele perguntou, baixo, cuidadoso. — Ou isso é só… memória? Você demorou a responder. Caminhou até a pia, apoiando as mãos no mármore frio, como se precisasse dele para se manter firme. — Eu sinto — disse por fim. — Mas não como você sente. Não é o corpo que reage primeiro. É outra coisa. Mais antiga. Mais funda. Nicolas se levantou e manteve a distância, respeitando as regras que acabavam de nascer. — E quando você perde o controle? Você fechou os olhos. — Eu não perco — respondeu. — Eu cedo. E é por isso que aprendi a não ceder nunca. Ele assentiu lentamente, absorvendo cada palavra como se fosse parte de um contrato silencioso. — Existe mais alguém como você? — perguntou. — Sim. — Eles sabem sobre mim? Você se virou de imediato, o olhar sério. — Não. E nunca saberão. — Por quê? — Porque humanos são moeda. — Sua voz ficou mais fria. — E você não é negociável. O impacto daquela frase fez Nicolas prender a respiração. Não havia romantização ali. Era uma verdade dura, nua, perigosa. — Então eu estou em risco — ele concluiu. — Sempre esteve — você respondeu. — Só não sabia. O céu começava a clarear levemente pelas janelas altas. O primeiro sinal de que a noite estava cedendo espaço ao dia. Você sentiu isso no corpo — um cansaço que não era físico, mas existencial. — O dia enfraquece você? — ele perguntou, atento demais. — Não — disse. — Ele me lembra de quem eu já fui. Você caminhou até o sofá e sentou-se, finalmente permitindo que o peso da conversa se acomodasse. Nicolas fez o mesmo, mantendo um espaço seguro entre vocês. — Antes de você — começou, a voz mais baixa — eu já amei alguém. Ele ergueu o olhar, surpreso, mas não interrompeu. — Ele descobriu. Reagiu com medo. Tentou me salvar… de mim mesma. — Um sorriso breve, triste. — Foi assim que aprendi que amor sem escolha vira tragédia. O silêncio se alongou, respeitoso. — Eu não quero te salvar — Nicolas disse, com firmeza inesperada. — Nem te mudar. Só… entender até onde posso ir sem te perder. Você o encarou longamente. Aquela resposta não era perfeita. Mas era honesta. — Então você precisa saber de uma última coisa — disse. — O quê? — A noite não aceita espectadores. — Você se inclinou levemente em direção a ele. — Se ficar, em algum momento ela vai te chamar. E nesse dia… eu não poderei escolher por você. A luz do amanhecer entrou de vez pela sala, dissolvendo as sombras mais densas. Nicolas observou o contraste entre a claridade e você — tão intacta, tão fora do tempo. — Quando esse dia chegar — ele disse — eu quero estar consciente. Sem mentiras. Sem ilusões. Você assentiu. — Então este é o último amanhecer em que você é apenas meu marido. Ele respirou fundo, um meio sorriso contido surgindo nos lábios. — E amanhã à noite? Você se levantou, caminhando em direção ao corredor. — Amanhã à noite — respondeu, sem olhar para trás — você começa a descobrir o preço de amar a Esposa da Noite. A porta do quarto se fechou suavemente. E Nicolas Ashford percebeu que não havia mais retorno — apenas profundidade.O dia avançou lento demais. Você permaneceu no quarto, as cortinas fechadas, o mundo reduzido ao silêncio e às próprias lembranças. Mas Nicolas não saiu do penthouse. Você sabia. O ritmo dos passos dele, o som distante de uma xícara pousando na mesa, o respirar contido — tudo chegava até você como ecos familiares. No fim da tarde, quando o sol começou a se despedir da cidade, você sentiu a mudança. A noite retornava como um véu antigo sendo colocado sobre seus ombros. Era sempre assim. Um despertar suave. Um chamado inevitável. Você saiu do quarto quando o céu já estava tingido de azul profundo. Nicolas estava na sala, de pé, olhando a cidade. Virou-se no instante em que ouviu seus passos. Os olhos dele se demoraram em você — não com d****o imediato, mas com atenção. Como alguém que observa algo belo e perigoso ao mesmo tempo. — Eu pensei em ir embora — ele disse, sem rodeios. — Fiz a mala. Abri a porta. Fez uma pausa. — Mas não consegui atravessar. Você se aproximou devagar. — Isso não é coragem — respondeu. — É vínculo. E vínculos cobram caro. — Eu sei — ele disse. — E mesmo assim fiquei. Você respirou fundo. A noite exigia clareza. — Então escute com atenção, Nicolas. — Seu tom mudou, mais firme. — Há coisas que você ainda não sabe. Coisas que não contei porque mudam tudo. Ele assentiu. — Quando alguém descobre o que eu sou… — você continuou — essa pessoa passa a existir em dois mundos. O seu… e o meu. E o meu não perdoa distrações. — Você está dizendo que eles podem vir atrás de mim? — Estou dizendo que eles sempre observam. — Seu olhar se tornou mais escuro. — E que sua decisão de ficar já foi sentida. O ar ficou mais pesado. — Sentida como? — ele perguntou. Você caminhou até a janela e abriu levemente a cortina. Lá fora, entre as luzes da cidade, uma sombra se moveu rápido demais para ser comum. — Como um cheiro novo no território. Nicolas se aproximou um pouco mais, tenso. — Então esta é a parte em que eu deveria ter medo? Você virou-se para ele. — Não — respondeu. — Esta é a parte em que você precisa confiar em mim. Houve um instante de silêncio absoluto. Então ele disse, com uma firmeza que te surpreendeu: — Eu confio. Algo dentro de você se rompeu. Não de forma violenta. Mas definitiva. Você se aproximou até ficar diante dele, erguendo a mão lentamente. — Olhe para mim — pediu. Ele obedeceu. Por um breve segundo, você deixou que ele visse. Não tudo. Apenas o suficiente. O brilho antigo nos seus olhos, a profundidade sem fundo, a noite viva ali dentro. Nicolas não recuou. — Meu Deus… — murmurou. Você fechou os olhos e se afastou de imediato, recuperando o controle. — Isso nunca mais — disse, a voz baixa, tensa. — Nunca sem aviso. Nunca sem escolha. Ele respirava fundo, o coração acelerado. — Você confia em mim o bastante para mostrar isso… — falou. — Mesmo sabendo que eu posso quebrar? — Não — você respondeu com honestidade. — Eu confio em mim o bastante para te proteger… mesmo que você quebre. O silêncio voltou. Diferente agora. Selado. — Então — Nicolas disse, por fim — o que acontece a partir desta noite? Você caminhou até o bar, pegou uma taça limpa e a pousou vazia sobre a mesa. — A partir desta noite — disse — você aprende a conviver com o que n******e controlar. Fez uma pausa. — E eu aprendo se o amor ainda pode existir sem destruição. Você deixou a sala, deixando Nicolas sozinho com a cidade, a taça vazia… e a certeza de que aquela escolha mudara sua vida para sempre. A noite fechou-se por completo. E o pacto estava feito
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