Capítulo 3 — A Dívida da Noite

1463 Palavras
Você sentiu antes de ver. Era um peso antigo, pressionando o ar, como se a noite tivesse ficado mais espessa ao redor do penthouse. O vidro das janelas vibrou levemente, não com som, mas com presença. Aquilo não era humano. Nunca fora. — Nicolas — você disse, em tom baixo, imediato. — Afaste-se da janela. Agora. Ele obedeceu sem questionar. Não por medo — mas porque, naquele instante, entendeu que a confiança que havia prometido seria cobrada mais cedo do que imaginara. A luz da sala oscilou. Então a sombra se moveu. Ela não entrou pela porta. Não precisou. Apenas se formou no centro da sala, como se o escuro tivesse aprendido a tomar forma. Alta. Elegante demais. O rosto pálido, bonito de um jeito c***l. Os olhos… antigos. Famintos. Divertidos. — Ainda escondendo brinquedos humanos, minha querida? — a voz dele era suave, quase gentil. — Sempre achei isso… enternecedor. Nicolas sentiu o estômago revirar. O corpo inteiro reagiu, instintivo, primitivo. Ele deu um passo à frente antes mesmo de perceber. — Afaste-se dela — disse, a voz firme demais para alguém diante do impossível. A criatura sorriu. — Ah… — inclinou a cabeça, analisando-o. — Este fala. Interessante. Você se colocou entre os dois sem pensar. Um gesto automático, antigo. — Não toque nele, Lucien. O nome caiu como um sino quebrado no ar. Lucien riu baixo, satisfeito. — Ainda se lembra de mim. Isso aquece o que restou do meu coração morto. — Você não deveria estar aqui — você disse. — Nosso pacto foi quebrado no instante em que você cruzou meu território. — Nosso pacto foi quebrado no dia em que você fugiu — ele respondeu, os olhos brilhando em vermelho contido. — Levando consigo o que me pertencia. Nicolas sentiu o impacto daquelas palavras. — O que ele quer dizer com isso? — perguntou, sem tirar os olhos de Lucien. Você demorou um segundo a responder. — Ele foi quem me transformou. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lucien abriu os braços, teatral. — Não foi lindo? — disse. — Ela prometeu eternidade. Prometeu reinar ao meu lado. — O sorriso se tornou mais afiado. — E então escolheu… amar. Nicolas sentiu algo apertar no peito. Não ciúme. Não raiva. Medo real. — E o que você quer agora? — ele perguntou. Lucien voltou os olhos para você. — O que sempre quis. — Um passo à frente. — Que ela pague a dívida. Você sentiu a noite reagir. O instinto rugiu dentro de você, exigindo sangue, guerra, destruição. Mas havia Nicolas. E as regras. Sempre as regras. — A dívida não é dele — você disse, firme. — Se veio por mim, então fale comigo. Lucien sorriu novamente. — Não. — Os olhos deslizaram até Nicolas. — Dívidas são pagas com escolhas. E então, rápido demais para um humano acompanhar, ele estava diante de Nicolas. Você reagiu no mesmo instante, segurando o braço de Lucien antes que ele tocasse Nicolas. O impacto fez o chão vibrar. — Não ouse — você rosnou, os olhos brilhando com a noite inteira dentro deles. Lucien inclinou-se, o rosto a centímetros do seu. — Veja como ela luta por você — murmurou para Nicolas. — Bonito, não é? Depois, mais alto: — Aqui está a prova, minha querida. Ele recuou um passo. — Ou você vem comigo quando a lua estiver no auge… — disse — ou eu volto. E da próxima vez, não vou apenas observar. A sombra começou a se desfazer. — Pense bem — completou. — O amor sempre foi seu ponto fraco. E então ele se foi. O silêncio caiu pesado demais. Nicolas respirava com dificuldade. Você se virou para ele imediatamente. — Você está bem? Ele assentiu, ainda em choque. — Ele disse… — a voz falhou. — Que eu sou uma escolha. Uma moeda. Você fechou os olhos por um instante. — Você é a minha escolha — corrigiu. — E foi isso que despertou tudo isso. Ele deu um passo à frente, decidido. — Então agora é a minha vez de provar algo. — Olhou você nos olhos. — Eu não sou sua fraqueza. Sou sua consequência. A noite respondeu com um trovão distante. E você soube, naquele instante, que Lucien não havia vindo apenas cobrar uma dívida. Ele havia declarado guerra.O eco da presença de Lucien ainda vibrava no ar quando você se afastou da janela e fechou as cortinas com um movimento seco. A noite lá fora parecia observar, paciente, como um predador que sabe que a presa não tem para onde correr. Nicolas estava pálido, mas de pé. Isso, por si só, já dizia muito. — Ele não blefava — ele disse, a voz rouca. — Não era ameaça vazia. — Não — você concordou. — Lucien nunca blefa. Ele testa. Mede. Espera o momento exato de ferir. Nicolas respirou fundo, tentando organizar o caos que se instalara dentro dele. — Você disse que ele te transformou. — Ergueu o olhar para você. — O que exatamente você deve a ele? Você permaneceu em silêncio por alguns segundos. Aquela era a parte que sempre evitara. Não por vergonha. Mas porque doía demais lembrar. — Eu devia minha eternidade — disse, por fim. — E um trono que nunca quis. Ele franziu o cenho. — Trono? — Lucien não cria vampiros por acaso. — Seu tom era frio, técnico. — Ele cria herdeiros. Alianças. Armas. Fez uma pausa. — Eu fui escolhida para governar ao lado dele. Para fortalecer uma linhagem antiga. Para ser… obediente. Nicolas sentiu um nó se formar no estômago. — E você fugiu. — Eu escolhi — você corrigiu. — Escolhi não ser o monstro que ele queria moldar. — E agora ele quer te arrastar de volta. — Não só isso — você respondeu. — Ele quer provar que eu estava errada ao acreditar que podia amar sem destruir. Nicolas passou a mão pelo rosto, andando de um lado para o outro. — Então eu sou o experimento. — Você é a prova — disse você, firme. — De que ele não venceu. Ele parou diante de você. — O que acontece se você for com ele? A pergunta doeu mais do que qualquer ameaça. — Eu sobrevivo — respondeu com honestidade. — Mas tudo o que eu sou agora… morre. O silêncio se alongou, pesado. — E se você não for? — Nicolas insistiu. Você o encarou, os olhos escurecendo. — Então ele vai me atacar onde dói. — Sua voz baixou. — Em você. Nicolas não recuou. Não desviou o olhar. — Então me ensine. Você piscou, surpresa. — Ensinar o quê? — A sobreviver à sua noite. — A voz dele era firme, decidida. — Se eu sou a moeda, então eu preciso deixar de ser frágil. Você sentiu algo se partir dentro de você. Um medo antigo, profundo. — Nicolas… — deu um passo em direção a ele. — Isso não é um jogo. Você pode morrer. — Eu sei — ele respondeu. — Mas ficar parado esperando também é uma forma de morrer. A noite reagiu às palavras dele. Você sentiu. Como se algo tivesse reconhecido aquela coragem imprudente. — Existe um limite — você disse, com firmeza. — Uma linha que, se cruzada, não tem volta. — Qual? Você engoliu em seco. — Depois que a noite te toca de verdade… ela nunca esquece. Ele assentiu lentamente. — Então faça direito — disse. — Não me proteja mentindo. Me proteja dizendo a verdade. Você se aproximou, parando a poucos centímetros dele. — Muito bem. — Seu tom mudou. — Primeira prova. Nicolas prendeu a respiração. — Lucien deixou algo aqui — você continuou. — Uma marca. Um rastro que só humanos sentem como medo sem motivo. — Eu senti — ele confessou. — Como se o ar estivesse errado. — Ótimo — você disse. — Isso significa que ele já te reconheceu. Você estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar o peito dele. — Se ele voltar esta noite… — murmurou — você não corre. Não grita. Não implora. — E o que eu faço? Seus olhos encontraram os dele, sérios, intensos. — Você fica de pé — respondeu. — E escolhe não pertencer a ele. O coração de Nicolas batia forte sob sua mão. Vivo. Determinado. — E você? — ele perguntou. — O que faz? Você retirou a mão lentamente. — Eu faço o que sempre fiz por aqueles que amo. — O quê? Seu sorriso foi belo e terrível. — Eu me torno a noite antes que ela te engula. Um trovão distante ecoou, mesmo sem nuvens. E pela primeira vez desde que Lucien aparecera, você sentiu algo além do medo. Sentiu guerra.
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