Capítulo 4 — O Juramento da Escuridão

1919 Palavras
A lua estava alta quando a presença retornou. Não houve aviso desta vez. Nenhuma sombra se formando devagar. O ar simplesmente se partiu, como um espelho quebrado por dentro, e Lucien estava ali — elegante, calmo, inevitável. O sorriso nos lábios denunciava a certeza de quem já acreditava ter vencido. — Eu disse que voltaria — ele murmurou. Nicolas não se moveu. O coração dele batia forte, mas os pés permaneciam firmes no chão. Ele se colocou levemente à sua frente, como se o corpo humano pudesse, de alguma forma, servir de escudo. — Ela não vai com você — disse. — Nem hoje. Nem nunca. Lucien ergueu uma sobrancelha, divertido. — Você fala como se tivesse escolha. — Tenho — Nicolas respondeu. — Sempre tive. Você sentiu a noite reagir. Não a Lucien. A ele. Era raro. Perigoso. E absolutamente errado. — Afaste-se — você ordenou a Nicolas, sem tirar os olhos de Lucien. — Não — ele disse, pela primeira vez desobedecendo uma regra. — Chega de fugir atrás de você. Lucien riu baixo. — Veja só — comentou. — Ele já começou a entender. Você sentiu o instinto gritar. A linha estava sendo cruzada. — Então escute bem, Lucien — você disse, a voz ecoando de um jeito que não era humano. — Você n******e tomá-lo. Ele não pertence a você. E nunca pertencerá. Lucien inclinou a cabeça. — Pertencer… — repetiu. — Essa palavra sempre te assustou. Deu um passo à frente. — Eu não vim buscá-lo. Vim te lembrar de quem você é. O mundo pareceu escurecer ao redor. — Nicolas — você disse, sem olhar para ele. — Se ficar aqui, não haverá volta. — Eu sei — ele respondeu. — É por isso que não vou sair. A decisão estava feita. Você fechou os olhos. E então, pela primeira vez desde que fugira de Lucien, você deixou a noite tomar você por inteiro. O penthouse mergulhou na escuridão absoluta. As luzes se apagaram. O ar vibrou. Quando você abriu os olhos novamente, eles brilhavam como estrelas mortas, profundas e antigas. Sua sombra se movia sozinha, viva demais. Lucien recuou um passo. — Ainda guarda isso dentro de si… — murmurou, genuinamente impressionado. — Isso — você respondeu — é o que eu nunca mostrei a ninguém. Você estendeu a mão. A noite respondeu. O chão tremeu levemente. O tempo pareceu desacelerar. — Eu te dei a eternidade — Lucien disse, tenso agora. — Você me deve tudo. — Você me deu sangue — você corrigiu. — Eu fiz o resto sozinha. Lucien avançou, rápido demais para olhos humanos. Nicolas sentiu o vento do movimento. Mas você foi mais rápida. Em um instante, estava diante dele. No outro, Lucien foi lançado contra a parede, o impacto ecoando como um trovão contido. — Chega — você rosnou. — A dívida termina aqui. Lucien se levantou devagar, o sorriso agora ferido. — E o humano? — provocou. — Está disposto a morrer por você? Você não respondeu. Nicolas deu um passo à frente. — Não — ele disse. — Estou disposto a viver com ela. O silêncio caiu como uma lâmina. Lucien olhou para Nicolas por longos segundos. Depois, para você. — Então escolha — ele disse. — Se ficar com ele… você perde tudo o que a noite te prometeu. Poder. Linhagem. Reinado. Você se virou para Nicolas. Viu o medo. Viu o amor. Viu a escolha. — Olhe para mim — você pediu. Ele obedeceu. — Eu posso te salvar agora — você disse. — Posso apagar isso tudo da sua memória. Você volta a ser apenas humano. Seguro. Distante de mim. — E você? — ele perguntou. — Eu fico sozinha — respondeu. Nicolas segurou seu rosto com as duas mãos. — Então não é uma escolha — disse. — É uma fuga. Aproximou a testa da sua. — Eu escolho você. Com tudo o que você é. Você sentiu algo quebrar. Não por fraqueza. Mas por amor. Você se virou para Lucien. — A escolha está feita. A noite explodiu ao redor de vocês. Lucien recuou, ferido no orgulho, no poder. — Isso não acaba aqui — ele avisou. — Nada que começa na noite acaba facilmente. — Eu sei — você respondeu. — Mas hoje, termina para você. Lucien desapareceu, dissolvido na própria sombra. O silêncio voltou. As luzes se acenderam lentamente. Você caiu de joelhos, exausta. Nicolas correu até você, segurando seu rosto com cuidado. — Ei… — murmurou. — Estou aqui. Você o encarou, vulnerável pela primeira vez em séculos. — Agora você sabe — sussurrou. — Amar é o meu maior risco. Ele sorriu, com lágrimas nos olhos. — Então vamos correr esse risco juntos. A noite observou. E, pela primeira vez, não reclamou.O silêncio depois da partida de Lucien não foi alívio. Foi expectativa. A noite ainda pairava pesada, como se aguardasse algo de você. Algo que sempre cobrava quando era chamada com tanta força. Nicolas percebeu antes mesmo de você dizer qualquer coisa — o jeito como seus ombros tensionaram, como o brilho nos seus olhos começou a vacilar. — O que a noite quer de você? — ele perguntou, baixo. Você fechou os olhos por um instante longo demais. — Equilíbrio — respondeu. — Ela nunca dá sem tomar algo em troca. Você se afastou lentamente, caminhando até o centro da sala. A sombra ao redor do seu corpo ainda se movia de forma independente, relutante em soltá-la. — Nicolas… — sua voz saiu mais grave. — O que você fez agora não foi apenas me escolher. Foi se declarar visível para a noite. Ele engoliu em seco. — Isso significa o quê? Você virou-se para encará-lo. — Significa que ela vai te testar. Como se tivesse sido invocada pela palavra, o ar esfriou. Um peso invisível se instalou no peito de Nicolas, pressionando, exigindo. A respiração dele ficou irregular. — Não lute — você ordenou de imediato, aproximando-se. — Se lutar, ela te quebra. — E se eu ceder? — ele perguntou, a voz falhando. Você parou diante dele, segurando seu rosto com firmeza. — Então confie em mim. A pressão aumentou. Nicolas sentiu lembranças emergirem sem aviso — medo, solidão, decisões que tomara achando que eram racionais, mas que haviam sido puro desespero. A noite escavava. Procurava rachaduras. — Ela está entrando na sua mente — você disse. — Procurando o ponto em que você fugiria. Ele fechou os olhos, o corpo tremendo. — Eu não vou fugir — murmurou. — Não de você. A noite reagiu. O peso se intensificou por um segundo… e então quebrou, como uma onda que encontra resistência inesperada. O ar voltou aos pulmões dele com força. Nicolas caiu de joelhos, ofegante. Você o segurou antes que tocasse o chão por completo. — Acabou — disse, com a voz baixa, quase reverente. Ele ergueu o olhar, ainda atordoado. — Isso foi… a prova? Você assentiu lentamente. — A primeira. — Um sorriso cansado surgiu nos seus lábios. — E você passou. Nicolas soltou uma risada curta, incrédula. — Ótimo. Porque eu nunca estive tão assustado na vida. Você o puxou para perto, envolvendo-o num abraço firme. Pela primeira vez, permitiu-se fechar os olhos contra o peito dele. — Escute bem — você murmurou. — Depois desta noite, Lucien não é mais o maior perigo. — Então quem é? — ele perguntou. Você se afastou o suficiente para encará-lo. — Todos os outros que vão sentir o vazio que ele deixou. — Seu olhar escureceu. — O mundo da noite odeia desequilíbrios. E nós criamos um. Nicolas respirou fundo. — Então o que somos agora? Você pensou por um instante antes de responder. — Somos uma afronta. — Um sorriso leve, perigoso. — Uma exceção viva. Ele tocou sua mão, entrelaçando os dedos. — Então vamos aprender a sobreviver como uma. Você observou aquele gesto simples, humano… e sentiu algo novo se formar dentro de você. Não medo. Não culpa. Esperança. Lá fora, a lua começou a descer lentamente no céu. E a noite, contrariada, aceitou a decisão. Por enquanto.Você percebeu a marca antes mesmo de Nicolas falar. Ela estava ali, discreta demais para olhos humanos desatentos: uma sombra em forma de meia-lua, logo abaixo da clavícula dele, pulsando de forma lenta, quase como uma respiração que não era dele. Seu corpo reagiu de imediato. — Não se mexa — você disse, aproximando-se. — O que foi? — Nicolas perguntou, mas não recuou. Você tocou a marca com a ponta dos dedos. O frio da noite respondeu ao seu contato, subindo pelo seu braço como um aviso. — A noite te reconheceu — você murmurou. — Isso… não deveria acontecer tão cedo. — Reconheceu como o quê? — ele insistiu. Você ergueu o olhar até o dele. — Como meu. A palavra caiu pesada entre vocês. — Isso é r**m? — ele perguntou. Você respirou fundo, escolhendo cada sílaba com cuidado. — É perigoso. — Sua voz suavizou. — Mas não é uma maldição. É um vínculo. Antigo. Raro. Fez uma pausa. — A noite não marca humanos à toa. Nicolas absorveu aquilo em silêncio. — Então agora… — ele começou — eu faço parte do seu mundo? — Não — você respondeu de imediato. — Você ainda é humano. Ainda escolhe. Seu olhar escureceu. — Mas o meu mundo agora sabe que você existe. E isso muda tudo. Você se afastou, caminhando até a janela novamente. A cidade parecia a mesma, mas você sabia: algo havia se deslocado no equilíbrio invisível que sustentava tudo. — Lucien vai voltar — você disse. — Talvez não amanhã. Talvez não por ele mesmo. — Virou-se para Nicolas. — Mas outros virão. Curiosos. Ofendidos. Famintos. — E você? — ele perguntou. — O que acontece com você depois de mostrar… aquilo? Você fechou os olhos por um instante. — Eu me expus. — Um sorriso breve, amargo. — Durante séculos, sobrevivi sendo invisível. Esta noite… eu fui vista. Nicolas aproximou-se devagar e parou atrás de você, sem tocar. — Você se arrepende? Você pensou na resposta. No trono recusado. Na eternidade solitária. No instante em que escolheu amar. — Não — respondeu. — Mas arrependimento e consequência não são opostos. Ele finalmente tocou você, pousando as mãos nos seus ombros. — Então nós lidamos com as consequências juntos. Você se virou para ele, observando aquele homem que escolhera ficar quando fugir teria sido mais fácil. — Nicolas… — sua voz saiu baixa. — A partir desta noite, sua vida não será mais silenciosa. — Nunca foi — ele respondeu, com um meio sorriso. — Só parecia. Você encostou a testa na dele, permitindo-se um instante de vulnerabilidade. — Então escute a última verdade que escondi até agora — você sussurrou. — Se algo me acontecer… a noite não vai te poupar. Ele franziu o cenho. — Por quê? Seus olhos encontraram os dele, profundos, antigos. — Porque vínculos não morrem com quem os cria. — Engoliu em seco. — Eles procuram quem ficou. O silêncio que se seguiu foi solene. Definitivo. — Então não morra — Nicolas disse simplesmente. Você sorriu. Um sorriso pequeno. Verdadeiro. — Vou tentar — respondeu. — Pela primeira vez… por alguém além de mim. Lá fora, a lua desapareceu atrás dos prédios. A noite, contrariada e curiosa, recuou. E assim terminou o primeiro confronto — não com vitória absoluta, mas com algo muito mais perigoso: Um amor que a escuridão agora precisava aprender a respeitar
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