Capítulo 5 — O Preço da marca

1983 Palavras
A marca despertou ao amanhecer. Nicolas sentiu primeiro como um calor estranho sob a pele, um pulsar lento, quase compassado com algo que não era seu coração. Abriu os olhos antes mesmo do sol tocar o quarto e levou a mão ao peito instintivamente. Ardia. Não como dor. Como chamado. — Não toque — sua voz veio da penumbra, baixa, alerta. Você estava sentada na poltrona, as cortinas cerradas, o corpo imóvel demais para alguém que passara a noite inteira desperta. Seus olhos estavam fixos nele, atentos, avaliando. — Ela reagiu — Nicolas disse. — Eu sinto… como se algo estivesse tentando me acordar por dentro. Você se levantou devagar e se aproximou, afastando a mão dele com cuidado. Seus dedos pairaram sobre a marca sem encostar. — A noite está cobrando — murmurou. — Mais cedo do que eu esperava. — Cobrando o quê? — ele perguntou. Você demorou a responder. — Prova de permanência — disse por fim. — A marca não existe para proteger. Ela existe para testar se o vínculo resiste ao medo. O calor aumentou de repente. Nicolas prendeu a respiração, os músculos tensionando. — O que eu faço? — perguntou, tentando manter o controle. — Não lute — você respondeu, firme. — A noite se alimenta de resistência. Abaixou-se diante dele, os olhos no mesmo nível. — Olhe para mim. Fique aqui. Ele obedeceu. A marca queimou mais forte, espalhando uma sensação vertiginosa pelo corpo dele. Imagens começaram a surgir — ruas vazias, sombras se movendo, olhos observando de lugares impossíveis. Não eram memórias. Eram avisos. — Ela está mostrando o que pode te alcançar — você disse. — Está te ensinando a temer. — Funciona — ele respondeu entre dentes. Você pousou a mão sobre a marca. O calor cessou abruptamente. — Chega — você ordenou, não para ele, mas para a própria noite. O ar no quarto ficou pesado, depois cedeu. Nicolas caiu para trás, respirando com dificuldade. — Isso… isso vai continuar acontecendo? Você assentiu lentamente. — Até que a noite decida se você é um erro… ou uma exceção válida. Antes que ele pudesse responder, um som cortou o silêncio: a campainha. Você congelou. — Ninguém sabe deste lugar — Nicolas disse. — Agora sabe — você respondeu, já sentindo o erro se materializar no ar. Você caminhou até a porta com passos silenciosos, controlados. Olhou pelo visor. E sentiu algo gelar dentro de você. Do outro lado estava uma mulher. Elegante. Vestida de claro. Um sorriso educado demais para aquele horário. Humana demais para não ser perigosa. — Quem é? — Nicolas perguntou, se aproximando. Você não respondeu de imediato. — É isso que a noite cobra — disse por fim, a voz baixa. — Quando ela marca alguém, ela chama atenção. Você abriu a porta apenas o suficiente. — Posso ajudar? — perguntou. A mulher sorriu. — Espero que sim. — Os olhos dela deslizaram por você com conhecimento demais. — Meu nome é Helena Moreau. Fez uma pausa delicada. — Eu cuido de assuntos… especiais. Seu corpo inteiro reagiu. — Não temos interesse — você respondeu, fria. Helena inclinou a cabeça levemente. — Oh, mas a marca discorda. — O olhar dela foi direto para Nicolas. — Ela brilhou a noite inteira. Nicolas sentiu o coração disparar. — Você trabalha para Lucien? — você perguntou. Helena riu suavemente. — Lucien? Não. — Aproximou-se um passo. — Eu trabalho para o equilíbrio. Baixou a voz. — E vocês dois o romperam. O silêncio ficou afiado. — O que você quer? — Nicolas perguntou, finalmente. Helena o observou com atenção clínica. — Quero ver até onde vai a sua humanidade — respondeu. — Porque quando a noite cobra… ela nunca aceita pagamento pequeno. Ela deu um passo para trás. — Vou voltar. — Sorriu outra vez. — Preparem-se. O primeiro preço já começou a ser cobrado. A porta se fechou. Você permaneceu imóvel por alguns segundos, sentindo algo antigo se mover dentro de você. — Quem é ela de verdade? — Nicolas perguntou. Você se virou lentamente, o olhar sério. — Ela é pior do que Lucien — respondeu. — Porque não quer poder. Fez uma pausa. — Quer decidir quem merece existir entre a luz e a noite. A marca no peito de Nicolas pulsou outra vez. E você soube: a guerra não seria travada sombras… Mas nas escolhas.A marca não se acalmou depois da partida de Helena. Ela pulsava em intervalos irregulares, como se estivesse aprendendo o ritmo de Nicolas. Cada batida vinha acompanhada de uma sensação estranha — não exatamente dor, mas consciência. Ele sentia demais. O ar, os sons da rua, o peso do silêncio. Tudo parecia próximo demais. — Está piorando — ele disse, pressionando a palma da mão contra o peito. Você já estava em movimento. Abriu um compartimento oculto na parede do escritório — algo que Nicolas nunca tinha visto antes — e retirou um pequeno frasco de vidro escuro. — Isso não é cura — você avisou. — É contenção. — O que é? — Sangue preparado — respondeu sem rodeios. — Antigo. Não humano. Ele hesitou. — Isso vai… me mudar? Você o encarou com seriedade absoluta. — Não. — Depois, com honestidade. — Ainda não. Você passou uma gota do líquido sobre a marca, sem deixá-lo tocar diretamente na pele. O pulsar diminuiu quase de imediato, como um animal contido à força. Nicolas respirou aliviado. — Então Helena estava falando sério — ele murmurou. — Alguém observa o equilíbrio. — Sempre houve observadores — você respondeu. — Mas poucos ousam intervir. Helena Moreau não é vampira. Nem humana comum. — Então o que ela é? Você fechou o frasco com cuidado. — Ela é uma Custódia — disse. — Um tipo raro. Pessoas que nasceram capazes de sentir o desvio entre mundos. Elas não pertencem a nenhum lado. Apenas julgam. Nicolas sentiu um arrepio. — Julgam quem? — Todos nós. O silêncio voltou a se espalhar. — Ela disse que a marca brilhou a noite inteira — ele lembrou. — Eu não vi nada. — Porque você não vê a noite como nós vemos — explicou. — Mas ela te vê agora. Você caminhou até a janela e afastou levemente a cortina. Lá fora, o céu começava a escurecer novamente. — A noite vai exigir algo concreto — você disse. — Ela nunca aceita promessas. — O quê? — Nicolas perguntou. — O que ela quer de mim? Você demorou a responder. — Uma escolha que doa. A marca reagiu no mesmo instante, queimando de forma mais intensa. — Nicolas — você disse, voltando-se para ele — escute com atenção. Se Helena voltar… e ela vai… você n******e mentir. — Sobre o quê? — Sobre o medo — respondeu. — A Custódia se alimenta da negação. Se você tentar parecer mais forte do que é, ela vai te quebrar. Ele assentiu, respirando fundo. — E você? — perguntou. — O que acontece com você se a noite cobrar de verdade? Você segurou o encosto da cadeira com força. — Então eu terei que pagar uma dívida antiga. — A voz saiu baixa. — Uma que deixei para trás quando fugi de Lucien. Nicolas se levantou de imediato. — Não. Já basta. Você sorriu, triste. — Não é algo que eu possa recusar para sempre. Um ruído leve ecoou pelo apartamento — como passos que não deveriam estar ali. Você se virou de imediato, alerta. — Ela não voltou — você disse. — Isso… é outra coisa. A marca no peito de Nicolas pulsou forte. — Eu sinto — ele murmurou. — Tem alguém aqui. Você fechou os olhos por um segundo, reconhecendo a energia. — Não é inimigo — disse. — Ainda não. Abriu-os novamente, séria. — É um mensageiro. O ar do corredor se distorceu, e uma presença discreta se formou, quase invisível. Uma voz sussurrou, múltipla, neutra: — A noite aceita o vínculo. Mas exige compensação. O silêncio ficou absoluto. — Que compensação? — você perguntou, fria. A presença se moveu levemente. — Três luas. Três provas. Uma queda. Nicolas sentiu o estômago revirar. — E se recusarmos? — ele perguntou. A resposta veio imediata. — Então o humano será reclamado. A presença se dissolveu. Você ficou imóvel por alguns segundos, depois se virou para Nicolas. — Agora você entende — disse. — O primeiro preço não foi a marca. Ele engoliu em seco. — Foi o prazo. Lá fora, a noite fechou-se por completo. E o tempo começou a contar.O relógio marcou meia-noite. Você sentiu o instante exato em que o tempo começou a contar de verdade. Não era simbólico. A noite tinha seus próprios marcos, e aquele era um deles. Três luas. O prazo havia sido selado. Nicolas estava sentado à mesa, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo em um ponto invisível. — Três provas… — murmurou. — Uma queda. — A queda nunca é literal — você respondeu. — É o que resta depois que a noite tira tudo o que sustenta alguém. Ele ergueu os olhos para você. — E se eu cair? Você se aproximou, ajoelhando-se diante dele. — Então eu estarei lá para te levantar. — Sua voz suavizou. — Se ainda for possível. A marca reagiu àquelas palavras, pulsando de forma irregular. — Ela responde a você — ele disse. — Não a mim — você corrigiu. — À escolha que você fez. Você se levantou e caminhou até o antigo espelho de moldura escura no corredor. Ele não refletia você. Nunca refletira. Mas agora, algo diferente se movia ali. — Venha — você chamou. Nicolas hesitou, mas obedeceu. Quando se posicionou diante do espelho, o reflexo dele começou a distorcer levemente. Não como um monstro. Como um homem sendo visto por algo que o conhecia profundamente. — O que é isso? — ele perguntou. — O primeiro aviso — você respondeu. — A noite sempre mostra o que pode ser perdido antes de tirar de verdade. No reflexo, Nicolas viu algo que o fez prender a respiração: você, afastando-se dele, o olhar vazio, a marca apagada do peito dele… e um espaço silencioso entre vocês onde o amor já não existia. Ele deu um passo para trás. — Isso não vai acontecer. — Não se ela aceitar você — disse você. — Mas ela precisa saber se você aguenta olhar para a perda sem se destruir. O espelho voltou ao normal. Nicolas respirava com dificuldade. — Helena sabia disso — ele disse. — Ela já viu isso acontecer antes. — Muitas vezes — você confirmou. — Custódias não protegem. Observam quedas. — Então ela volta para ver se eu caio. — Sim. Você voltou para a sala e se apoiou na mesa, subitamente cansada. — Eu falhei uma vez nessas provas — confessou, a voz baixa. — Não as da noite. As do amor. Nicolas se aproximou devagar. — E mesmo assim você sobreviveu. Você sorriu, sem humor. — Sobreviver não é o mesmo que vencer. A marca no peito dele pulsou mais uma vez, depois se acalmou, como se tivesse registrado algo. — Eu não vou fugir — Nicolas disse, firme. — Nem de você. Nem disso. Você o encarou longamente, procurando rachaduras. Não encontrou. — Então escute — disse. — A primeira prova virá antes da próxima lua cheia. Sem aviso. Sem piedade. — E o que eu faço quando ela vier? Você se aproximou até ficar a poucos centímetros dele. — Você escolhe de novo — respondeu. — Mesmo quando doer. Mesmo quando parecer errado. Ele segurou sua mão. — E você? Você entrelaçou os dedos aos dele. — Eu pago o preço que for preciso para te manter humano. O silêncio que se seguiu não foi pacífico. Foi respeitoso. Como se a noite, por um breve instante, estivesse observando em silêncio. Lá fora, nuvens cobriram a lua.
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