Capítulo 12 — O Acordo dos Despertos

1472 Palavras
Mara não se sentou. Permaneceu de pé no centro da sala, as mãos cruzadas à frente do corpo, postura de quem está acostumada a entrar em lugares onde não foi convidada — e a sair com algo em troca. — Antes que recusem — disse ela — preciso que entendam uma coisa: vocês não são mais invisíveis. Você manteve o olhar firme, o corpo atento a cada microgesto dela. — Invisibilidade nunca foi garantia de segurança — respondeu. — Só de solidão. Mara sorriu de leve, como quem reconhece uma verdade incômoda. — Exatamente. — Os olhos dela passaram por Nicolas, demorando um segundo a mais. — Quando o impossível sangra, o mundo aprende a olhar. Nicolas respirou fundo. — Fale logo — disse. — O que você quer? Mara inclinou a cabeça. — Quero evitar uma caça — respondeu com franqueza. — Porque já existem pessoas fazendo perguntas demais. Cientistas, governos, grupos privados. Todos curiosos quando algo quebra o consenso do real. Você sentiu um frio subir pela espinha. — Então você veio nos proteger? — perguntou. — Não — Mara respondeu. — Vim negociar. Ela tirou um pequeno dispositivo do bolso e o colocou sobre a mesa. Não parecia tecnológico demais. Simples. Discreto. — Isso registra variações anômalas — explicou. — Energia, campos… vínculos. — Olhou para Nicolas. — Como o de vocês. Nicolas deu um passo à frente, mas você ergueu a mão, pedindo calma. — E o preço? — você perguntou. Mara respirou fundo, como se aquela fosse a parte que mais exigia honestidade. — Observação consentida. — Pausou. — Informação controlada. Ergueu o olhar. — Vocês nos ajudam a entender os limites… e nós garantimos que ninguém ultrapasse os seus. O silêncio se estendeu. — Você quer nos transformar em estudo de caso — Nicolas disse, com amargura. — Quero evitar que vocês virem alvo — Mara corrigiu. — Porque alguém já decidiu que desequilíbrios precisam ser corrigidos à força. — Quem? — você perguntou. Mara hesitou. — Um consórcio informal. — A palavra saiu pesada. — Pessoas que acreditam que tudo pode — e deve — ser contido. Você fechou os olhos por um instante. A noite tinha recuado… mas o mundo acordado avançava. — E se recusarmos? — Nicolas perguntou. Mara não desviou o olhar. — Então vocês ficam sozinhos. — Uma pausa curta. — E o mundo humano não é gentil com o que não entende. Você caminhou até a janela, observando a cidade que seguia indiferente. Luzes. Pessoas. Vidas comuns. Tudo aquilo agora parecia perigoso de um jeito novo. — A noite nos temeu — você disse, sem se virar. — Os humanos não temem. Eles dissecam. Mara assentiu, reconhecendo. — Por isso estou aqui antes deles. Você voltou-se para Nicolas. Ele sustentou seu olhar, silencioso. A marca no peito dele pulsou de leve, como um lembrete de que nenhuma escolha era neutra. — Se aceitarmos — você perguntou a Mara — isso nos protege… ou nos prende? Mara pensou antes de responder. — Ambos — disse por fim. — Mas prisão com regras é melhor do que liberdade caçada. O peso da decisão caiu sobre vocês. — Este acordo — você disse — não será de submissão. — Nunca — Mara respondeu rápido demais. — Será de limites claros. Você respirou fundo. — Então aqui estão os nossos — disse. — Nenhum experimento invasivo. Nenhuma contenção física. Nenhuma tentativa de replicar o que somos. Mara ouviu em silêncio. — E mais uma coisa — Nicolas acrescentou. — Se alguém tentar nos usar como a**a… vocês ficam do nosso lado. Mara olhou para ele com atenção renovada. — Ficam sabendo que, ao fazer isso, vocês criam precedentes. — Já criamos — você respondeu. — Continuar fingindo que não… é o erro mais antigo. O silêncio se estendeu por alguns segundos. Então Mara assentiu. — Vou levar isso aos outros — disse. — Mas saibam: aceitar o acordo não encerra o conflito. Apenas muda o campo de batalha. Ela recolheu o dispositivo e caminhou até a porta. — Pensem com cuidado — completou. — O mundo desperto cobra diferente da noite. Quando a porta se fechou, Nicolas soltou o ar que parecia estar prendendo desde o início. — Eu achei que, depois da noite, tudo ficaria mais simples — disse. Você se aproximou e segurou a mão dele. — A noite nos ensinou a sobreviver ao escuro — respondeu. — Agora precisamos aprender a sobreviver à luz. A cidade brilhava lá fora, viva, curiosa, faminta. E vocês entenderam, juntos, que a história não estava perto do fim. Ela apenas mudara de linguagem.A porta m*l havia se fechado quando o apartamento pareceu menor. Não fisicamente — mas em possibilidades. Nicolas caminhou até a cozinha, abriu uma garrafa de água e ficou ali, parado, como se o gesto simples precisasse ser reaprendido. — “Observação consentida”… — repetiu, sem humor. — Eles sempre começam assim. Você se apoiou no balcão, sentindo o cansaço que agora não desaparecia com a noite. — O mundo humano tem pavor do que n******e controlar — disse. — A diferença é que ele acredita ter o direito de tentar. O silêncio voltou a se instalar, quebrado apenas pelo som distante da cidade. Então algo mudou. Não foi presença. Foi falta. Você sentiu primeiro. — Nicolas… — sua voz saiu baixa. — O vínculo. Ele levou a mão ao peito de imediato. — Está… estranho — respondeu. — Não dói. Mas está… abafado. Você fechou os olhos, concentrando-se. — Não é a noite — murmurou. — É interferência. O vidro da janela vibrou levemente. Um zumbido quase imperceptível atravessou o ar, como eletricidade contida demais para ser natural. — Eles não esperaram — Nicolas disse. — Não era para isso ser só conversa? Você abriu os olhos, frios agora. — Nunca é. A luz da sala piscou uma vez. Duas. Depois estabilizou. — Não se afaste de mim — você disse. — Seja o que for… não reage à força. Reage à separação. Antes que ele pudesse responder, o telefone de Nicolas tocou. Número desconhecido. Ele atendeu no viva-voz. — Senhor Ashford — disse uma voz masculina, educada demais. — Pedimos desculpas pela inconveniência. Precisávamos confirmar algo. Você sentiu o ar endurecer. — Confirmar o quê? — Nicolas perguntou. — Se o vínculo responde melhor ao estresse psicológico… ou à distância física. O coração de Nicolas disparou. — Onde vocês estão? — ele exigiu. A voz ignorou a pergunta. — O acordo ainda não foi firmado — continuou. — Então consideramos isso… coleta preliminar. Você deu um passo à frente, o corpo reagindo por instinto. — Toquem nele — você disse, em voz baixa — e eu garanto que nenhum acordo existirá para salvar vocês. Houve uma breve pausa do outro lado da linha. — Anotado — respondeu a voz. — Última confirmação, então. A chamada caiu. No mesmo instante, a marca no peito de Nicolas reagiu com força, não queimando — repuxando. — Não! — você segurou o braço dele. — Não resista! O ar entre vocês ficou denso, quase elástico. Era como se algo estivesse tentando medir a distância emocional, não física. Nicolas respirava com dificuldade. — Eles estão… tentando separar o que sente — disse. — Não o que somos. Você fechou os olhos, concentrando tudo o que ainda restava da antiga autoridade. — Então escutem bem — você sussurrou, para algo que não estava visível. — O vínculo não é energia. É escolha. E escolha não se mede. Você puxou Nicolas para perto, abraçando-o com força, não como p******o — mas como afirmação. A pressão aumentou por um segundo insuportável. Depois… cedeu. O ar voltou a circular. O zumbido cessou. Nicolas caiu contra você, ofegante. — Funcionou — ele murmurou. Você abriu os olhos, séria. — Não — respondeu. — Eles só confirmaram o que queriam. — O quê? Você olhou para a janela, para a cidade acordada demais. — Que não podem nos separar sem nos destruir. — Engoliu em seco. — E isso nos torna perigosos. Nicolas segurou seu rosto. — Então agora temos dois inimigos. Você assentiu. — A noite que recuou… — disse — e os humanos que avançam. O telefone tocou novamente. Desta vez, era uma mensagem. “O acordo foi aceito. Mas os testes continuarão. — M” Você fechou os olhos por um instante longo demais. — Eles chamam isso de acordo — murmurou. — Eu chamo de início de guerra fria. Nicolas respirou fundo. — Então vamos aprender a jogar. Você o encarou. — Não. — Um sorriso perigoso surgiu. — Vamos aprender a mudar as regras. Lá fora, a cidade brilhava como sempre. Mas, em algum lugar entre dados, decisões e medo, alguém acabara de entender que vocês não eram apenas um fenômeno. Eram um problema
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR