Capítulo 9 — Quando a Noite Aprende a Temer

1225 Palavras
O sangue era real. Quente. Humano. Manchava as mãos de Nicolas enquanto ele pressionava o ferimento no seu lado, desesperado por estancar algo que nunca deveria existir em você. O mundo parecia errado — como se uma lei fundamental tivesse sido quebrada e tudo estivesse prestes a desmoronar por causa disso. — Olhe para mim — ele pediu, a voz trêmula. — Por favor… fique comigo. Você tentou sorrir. O gesto saiu fraco, imperfeito. — Eu disse… — respirou com dificuldade — que pagaríamos juntos. Aurelian recuou alguns passos, o rosto tomado por uma mistura de horror e culpa. Ele olhava para você como quem encara um milagre ao contrário. — Eu não sabia… — murmurou. — Ela nunca sangrou antes. — Agora sabe — Nicolas respondeu, sem tirar os olhos de você. — E vai embora. Agora. Aurelian hesitou. A noite ao redor deles começou a se mover de forma estranha, inquieta. Não obedecia mais como antes. Não se fechava. Não protegia. Pela primeira vez, parecia… indecisa. — Se eu ficar — Aurelian disse — eles virão. Não só a noite. Os que vigiam o limite. — Então vá — você sussurrou. — Viva. Isso… já basta. Aurelian engoliu em seco, os olhos marejados. Inclinou a cabeça em respeito — não como vampiro, mas como homem — e desapareceu na escuridão da porta aberta, levando consigo um passado que finalmente terminara. O silêncio que ficou não foi paz. Foi espera. Helena surgiu sem som, como se sempre tivesse estado ali. Elegante, impecável, os olhos avaliando cada detalhe: o sangue, o desespero de Nicolas, sua fragilidade exposta. — Então é isso — disse ela, calmamente. — Você sangra. Nicolas se virou para ela num impulso de fúria contida. — Afaste-se dela. Helena ergueu uma sobrancelha. — Ainda acha que pode me ordenar algo? — Olhou para você. — Você sabia o preço. Mesmo assim escolheu. Você respirava com dificuldade, cada fôlego uma negociação. — Eu corrigi um erro — disse. — A noite não é dona da justiça. Helena se aproximou mais um passo. — Não. — A voz dela endureceu. — Mas nós somos os guardiões do limite. Olhou para Nicolas. — E agora existe algo inaceitável aqui. — Amor — você disse, fraca, mas firme. Helena não sorriu. — Amor quebra sistemas — respondeu. — Cria exceções perigosas. Nicolas sentiu a marca no peito reagir, queimando de forma diferente — não como dor, mas como âncora. Ele segurou sua mão com força. — Se ela for punida — disse — então me puna também. Helena o observou longamente. — A segunda prova terminou — disse por fim. — Não como a noite queria… mas como ela precisará aceitar. — E a terceira? — Nicolas perguntou. Helena desviou o olhar por um breve instante. Um erro mínimo. Revelador. — A terceira não testará escolhas — respondeu. — Testará consequências. Ela se virou para você novamente. — Você abriu mão de parte do que era. Agora, precisará descobrir o que sobra quando a noite não responde mais. Helena deu um passo atrás. — Vou observar — disse. — Não interferir… por enquanto. E desapareceu. Nicolas puxou você com cuidado para si, envolvendo seu corpo, sentindo o sangue diminuir aos poucos sob a pressão. — Não me deixe — ele sussurrou, a voz quebrando. — Não agora. Você ergueu a mão com esforço e tocou o rosto dele. — Ainda estou aqui — disse. — Pela primeira vez… por escolha mútua. Lá fora, a lua permanecia alta. Mas a noite já não mandava sozinha. E, em algum lugar invisível, algo antigo percebeu — tarde demais — que o amor havia se tornado um risco maior do que qualquer rebelião.A madrugada avançou em silêncio vigiado. Nicolas manteve você deitada no sofá, as luzes apagadas, apenas o brilho distante da cidade atravessando a janela. O sangramento diminuíra, mas a fraqueza permanecia — uma ausência estranha, como se algo que sempre estivera ali tivesse sido retirado sem cerimônia. — Seu pulso… — ele murmurou, tocando de leve o seu punho. — Está… normal. Você abriu os olhos lentamente. — Isso é o que mais me assusta — respondeu. — Normalidade nunca foi meu território. Ele tentou sorrir, mas o medo ainda estava ali, preso atrás dos olhos. — Helena disse que a noite não responde mais a você — ele lembrou. — O que isso muda? Você respirou fundo antes de responder. — Muda tudo. — Virou o rosto para a janela. — Antes, a noite obedecia. Agora… ela observa. Como todos os outros. Um ruído quase imperceptível percorreu o apartamento — não passos, mas deslocamento. Nicolas sentiu a marca aquecer de novo, não em alerta, mas em reconhecimento. — Tem alguém aqui — ele disse. — Eu sei — você respondeu, sem se mover. — E não veio por mim. A sombra se destacou do corredor. Não tinha a densidade de Lucien, nem a presença cirúrgica de Helena. Era algo mais prático. Mais oportunista. — Ela está fraca — disse a voz, masculina, sem emoção. — Isso muda acordos antigos. Nicolas se levantou imediatamente, colocando-se à frente de você. — Afaste-se. A sombra riu. — Você não manda aqui, humano. — Ele manda — você disse, erguendo-se com esforço. — Enquanto eu estiver de pé. A figura avançou um passo. O ar esfriou. — A noite sente o vazio — continuou a voz. — E vazios atraem predadores. Nicolas sentiu a marca pulsar, diferente. Não como dor. Como… resposta. — Não — você disse, percebendo. — Ainda não. Mas já era tarde. A sombra tentou atravessar o limite invisível que você sempre manteve sem perceber. E falhou. Foi arremessada para trás por uma força que não partiu de você. Nicolas caiu de joelhos, ofegante, o peito queimando como se algo tivesse sido aceso por dentro. — Nicolas! — você gritou, segurando-o. A sombra recuou, desconfiada agora. — Interessante… — murmurou. — A marca não morreu. Migrou. O silêncio ficou pesado. — O que você fez com ele? — a sombra perguntou, olhando para você. Você apertou os dedos no ombro de Nicolas, sentindo o calor que não deveria estar ali. — Nada — respondeu. — Ele escolheu. A sombra deu mais um passo atrás. — Então a terceira prova já começou — disse. — E você não é mais o centro dela. E desapareceu. Nicolas respirava com dificuldade, mas estava consciente. — Eu senti… — disse. — Como se algo tivesse tentado passar por mim. Você fechou os olhos por um instante, compreendendo o alcance daquilo. — A noite não me protege mais sozinha — disse. — Ela se ancorou em você. Ele levantou o olhar, assustado. — Isso é r**m? Você pensou na resposta. Em séculos de regras. Em limites quebrados. — É inédito — respondeu. — E tudo que é inédito… assusta quem governa o escuro. Você segurou o rosto dele com as duas mãos. — A terceira prova não vai perguntar se você fica — continuou. — Vai perguntar até onde você aguenta ser o limite. Nicolas engoliu em seco. — Então eu fico — disse. — Até o fim. Você encostou a testa na dele, sentindo o mundo rearranjar-se ao redor daquela promessa. Lá fora, a lua começou a descer. E, pela primeira vez, a noite recuou — não por obediência… mas por cautela.
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