Por Khalid Shall
O espetáculo em torno da minha prisão havia acabado, eu estava em uma cela isolada na delegacia, e seria transferido no dia seguinte para um presídio de segurança máxima.
O sistema prisional brasileiro é tão fraco, que eu teria fugido assim que coloquei os pés aqui. Eles sequer sabiam o que fazer comigo, estavam atônitos e amedrontados.
"Khalid Shall é real", podia ouvi-los cochichar. Não pude deixar escapar um sorriso, a futilidade humana ainda me surpreende.
Pelo silenciar das vozes, eu soube que estava anoitecendo. Deitei no chão duro da cela, os olhos fixos no teto, e a lembrança de um sorriso grande e olhos azuis brilhantes dançaram em minha mente.
Anne.
Tão inocente quando a conheci, e eu virei o seu mundo de ponta cabeça. E pela primeira vez, desde que me tornei um soldado da Alcateia, eu fracassei. A missão e até mesmo a minha própria sobrevivência, eu negligenciei. Sendo assim, Anne também mudou a minha vida.
Eu aceitei a proposta do Delegado por dois motivos: Anne ficaria segura com o pai, e eu ficaria longe daquela agradável distração. O meu único foco agora, é a destruição definitiva da Alcateia.
As luzes se acenderam e pude ouvir os guardas brigando com alguém, aquelas vozes eu conhecia muito bem.
— Tire essas mãos sujas de mim, seu i*****l!
— Quietinho. Que vocês não estão no país de vocês não, pra desaparecer com uns almofadinhas que nem vocês é facinho. Hoje a delegacia está cheia dos internacionais — O homem ri e abre a minha cela.
Só podem estar de brincadeira. Espero os guardas se afastarem e apagarem a luz novamente.
— Que diabos vocês estão fazendo aqui?
— Não pragueje, mestre. Viemos te salvar! — Os gêmeos estavam na minha frente, com uma roupa ridícula.
— Eu não preciso ser salvo, seus dois idiotas. Eu me entreguei! O trabalho acabou!
— Eu disse que o Sr. Shall ia ficar animado com a nossa visita, Rich.
— Ele parece mesmo feliz, Clark — eles davam pulinhos na cela, imitando uma dança ridícula.
— Isso já é tortura. Eu vou chamar os guardas — balancei a cabeça irritado — Eu mandei vocês voltarem para Alcateia.
— E nós fomos, mas descobrimos coisas terríveis — Rich me olhou sério, o que era raro.
— Por isso viemos, nós fingimos uma briga — Clark começou a rir sem parar.
Não dava pra conversar de um jeito normal com esses dois.
Peguei o que estava mais perto de mim, que era o Rich, e o encurralei na parede. Fiz um gesto para que Clark, não se aproximasse.
— Me conta, porque diabos vocês estão aqui?
— Não pragueja, mes...
— Responda apenas o que eu te perguntei, ou eu mato vocês dois antes que o sol nasça novamente. Prefiro dividir a cela com dois corpos, do que com dois idiotas.
— Se nos matar, ninguém vai poder te ajudar quando a Alcateia chegar.
— Do que você está falando? — levantei ele até que os pés já não encostassem no chão.
— Fala logo Rich, que o Delegado entregou o Khalid pra Alcateia.
Soltei o gêmeo de uma só vez e me virei para o Clark.
— Foi isso que ouvimos dos outros soldados, o Delegado entregou sua cabeça para Alcateia — Clark declarou convicto.
— Traidor maldito! — O Delegado não faz ideia do que ele fez, não se faz pacto com o d***o sem lhe entregar a alma — Vai ser na hora que forem me levar para o presídio, seria arriscado uma abordagem aqui dentro. Eles vão vir com tudo, armamento pesado, ou talvez alguns atiradores bem posicionados. Eu faria dessa forma.
— É o que eles planejaram — Rick intervém, seu semblante carregava uma seriedade atípica — Mas o senhor certamente faria diferente. Você não é previsível, e o que te diferencia é que por muito tempo, você foi apenas um fantasma implacável. O melhor caçador, o melhor predador e o melhor assassino de toda a Alcateia.
O momento de seriedade não durou muito, os dois idiotas se ajoelharam em uma reverência ridícula.
— Levantem-se! — ordenei, irritado — Se o Delegado fez um acordo com a Alcateia, Anne está correndo perigo. Precisamos sair daqui agora.
— Mas estamos presos — Rich apontou o óbvio.
— É a nossa primeira vez, deveríamos ficar um pouco mais. Afinal somos criminosos ou não?
— Vocês dois deveriam estar em um hospital psiquiátrico, isso sim... — dei um sorriso torto, mas logo fechei a cara novamente. Eu precisava da ajuda dos gêmeos e se quisesse que eles realmente fossem úteis, deveria ativar o modo animalesco deles.
Dei um soco certeiro em Clark, ele cambaleou. Eu conhecia esse truque, o jeito peculiar de lutar dos gêmeos, era como uma dança. Os dois tinham uma sincronia singular, o que os tornavam ainda mais letais.
— É um treino, mestre. Para saber se estamos em boa forma? — Clark já estava fechando o cerco ao meu redor.
— Não, é a nossa saída daqui! Apenas gritem como se não soubessem se defender, para que os guardas venham tirar vocês daqui. É assim que escapamos.
A lealdade dos gêmeos era incontestável. Eu não precisava explicar os motivos, eu dava a ordem e eles acatavam, típico de um verdadeiro soldado da Alcateia. Forjado para servir sem questionar, eu havia deixado de pertencer a Alcateia, mas os ensinamentos que aprendi estavam intrínsecos no meu ser. Eles fizeram um bom trabalho.
No momento, eu tinha dois planos fixos em minha mente. Matar o traidor e proteger Anne, a qual eu não deveria ter deixado para trás, porque sinceramente não existe redenção pra mim.
Os guardas vieram salvar os gêmeos, e como foram displicentes, nós fugimos, deixando os corpos para trás.
— Nós sabíamos que iria querer fugir, Sr. Shall. Nós... ai... preparamos tudo. Não precisava ter batido tão forte... — Rich caminhou em direção a um carro estacionado não tão distante da delegacia.
— Pensamos em tudo, veja. Roupa, barbeador elétrico, escova de dente, fio dental... — Clark disparou.
— Já entendi, agora vamos embora daqui — falei, impaciente.
— Para onde, Sr. Shall?
— Grand Hotel Bourbon. Tenho um assunto inacabado com o Delegado.