Por Antônio Rocha
— No estado em que sua filha chegou aqui, é impossível que esteja viva. A cirurgia era a única chance que ela tinha, delegado. Não havia como ela ser transferida sem agravar a sua situação.
As palavras ecoaram em minha mente. Impossível que esteja viva. Eu balancei a cabeça, recusando-me a aceitar.
— Vocês estão mentindo para mim. — Me levantei abruptamente, sentindo a raiva borbulhar em meu peito. — Onde está minha filha?
— Sr. Rocha, entenda que...
— NÃO! — gritei, cortando suas palavras. — Vocês estão escondendo algo de mim.
Sem mais palavras, virei as costas e saí do hospital. Não sabia exatamente para onde ir, mas algo dentro de mim dizia que a minha filha estava viva.
Eu fui informado que ela foi atacada no hotel, então é para lá que eu precisava ir.
Cheguei ao hotel e fui direto para a sala de segurança. Os seguranças, reconhecendo a fúria em meus olhos, hesitaram antes de me impedir.
— Eu quero as imagens de tudo o que aconteceu no quarto em que minha filha estava hospedada. Agora. — Ordenei, minha voz firme.
O homem responsável pelas câmeras se mexeu desconfortável em sua cadeira.
— Senhor, com todo respeito, acho que o senhor não deveria...
— Mostre as imagens. — Meu tom não deixou espaço para negociação.
Ele olhou para mim, visivelmente relutante.
— Delegado, eu realmente acho melhor que...
Puxei minha arma, engatilhando-a e apontando para ele.
— Não vou repetir. Mostre. As. Imagens.
O homem engoliu em seco, tremendo ao começar a digitar no teclado. A tela à nossa frente piscou e, em poucos segundos, uma gravação começou a ser reproduzida.
As primeiras imagens mostravam Helena Bittencourt atacando os policiais que protegiam o quarto. p***a, isso é pior do que eu imaginava. Não tem nada a ver com a Alcateia.
— É só isso? — questionei, com o sangue fervendo.
— Não, senhor. Há outra câmera no corredor, mas... as cenas são muito fortes.
Eu o encarei com os olhos apertados.
— Coloque. Agora.
Ele hesitou por um momento, mas cedeu, mudando a gravação para a câmera do corredor. O que vi fez o chão parecer desaparecer sob meus pés.
Helena Bittencourt arrastava minha filha pelo quarto. Anne estava frágil, tentando resistir, mas não havia forças nela. As imagens mostravam Helena a espancando sem piedade, desferindo golpes de facas e chutes.
Quando ela finalmente parou, Anne estava imóvel em uma poça de sangue.
Meu estômago revirou, e por um momento, achei que fosse vomitar.
— Isso é impossível... — murmurei, minhas mãos trêmulas.
— Eu avisei, delegado... — o segurança tentou falar, mas não ouvi mais nada.
Helena a deixou praticamente morta. Eu mesmo compreendi o que a médica tentou me dizer. Era impossível que Anne tivesse sobrevivido àquilo.
Caí de joelhos, o peso do momento esmagando cada parte do meu ser. A arma que segurava caiu no chão com um estrondo surdo.
E então eu chorei.
Chorei como nunca havia chorado antes. Por minha filha. Pela injustiça. Pela culpa que me corroía.
Anne estava morta. E eu era o único responsável.
Por Khalid Shall
A luz fraca do bar era o suficiente para manter minha presença discreta, mas eu sabia que não podia me demorar ali. Meu rosto havia estampado cada canal de televisão nas últimas horas, e mesmo com o capuz cobrindo a maior parte, o risco era constante. Ainda assim, quando o vi no canto do bar, afundado em uma cadeira com um copo de uísque vazio à frente, a raiva cresceu dentro de mim.
Me aproximei devagar, puxei uma cadeira, sentando-me diante dele.
— Comemorando a sua promoção, Delegado?
— Se você veio me matar, Khalid, pode ir em frente. — Ele soltou uma risada amarga, erguendo o copo como se brindasse a própria morte. — Eu não vou resistir, e aliás, tudo que eu quero neste momento é morrer.
O delegado estava irreconhecível. Os olhos vermelhos me diziam que não eram por causa da bebida, tinha algo errado.
— Onde está Anne?
A menção do nome dela o quebrou ainda mais. Ele levou a mão ao rosto, sem conter as lágrimas que o dominavam.
— Anne está morta.
Me levantei e o arrastei pela gola da camisa. Ele não resistiu, o corpo mole enquanto o conduzia para os elevadores.
— Em qual andar vocês estão hospedados? — perguntei, tentando controlar a raiva que ameaçava explodir.
— Acabou, Khalid... Tudo acabou... — Ele murmurava, sem força na voz.
— Qual a p***a do andar?
— Primeiro andar. Quarto 108.
Quando chegamos, o corredor estava deserto, exceto pela faixa de isolamento amarela que marcava a entrada da suíte. Soltei o Delegado no chão, deixando-o afundar contra a parede, e empurrei a porta para entrar.
O cheiro de ferro tomou minhas narinas antes mesmo de eu perceber o estado do quarto. Sangue. Estava por toda parte — no chão, nas paredes, até no espelho. Meu estômago revirou, mas me forcei a continuar olhando.
Voltei para o delegado, a raiva borbulhando em minha voz.
— O que aconteceu aqui?
Ele levantou os olhos, a expressão vazia.
— Anne foi atacada... chegaram a levar minha filha para o hospital. Mataram a equipe... que estava operando ela. E o corpo... desapareceu...
— Então ela ainda pode estar viva. — Minha voz foi quase um sussurro, como se eu não quisesse quebrar a frágil esperança que surgia.
— Não... — O Delegado balançou a cabeça, lágrimas caindo novamente. — Eu vi as imagens do ataque. É impossível que Anne tenha sobrevivido. Mesmo se tivesse sido operada. A minha filha está morta.
Ele puxou o celular do bolso, destravou a tela e me entregou.
— Veja você mesmo.
Com relutância, aceitei o aparelho e apertei o play. As imagens eram terríveis. Foi Helena quem atacou Anne, as imagens que se seguiu era algo que nenhum pai deveria assistir. Os golpes, o sangue, a brutalidade. Helena não a deixou apenas ferida. Ela a massacrou.
Minha mão apertava o celular com tanta força que quase o quebrei.
A culpa é minha. Eu devia ter matado Helena quando tive a chance. Deixei que ela vivesse, achando que a dor pela morte do filho seria punição suficiente e esse foi o pior erro da minha vida.