Capítulo 2 – Marrenta Demais

1391 Palavras
Valentina Nasci e cresci no Luar. Sei de cor onde a viela afunda depois da chuva, qual bar vende coxinha mais recheada e qual vizinho fala alto demais quando tá mentindo. O morro é mapa no meu pé, bússola no meu ouvido. Tenho vinte e cinco e zero paciência pra macho que acha que pode montar em cima da vida dos outros só porque carrega arma no cós. Acordo antes do sol, olho pro telhado furado e rio de canto, mais um dia que a gente vai empurrando a vida com o peito. Ponho água no fogo, jogo café no coador, cheiro que acorda até defunto. Meu pai tá na janela, fita o horizonte como quem procura um milagre. — Bom dia, coroa. — encosto o ombro nele — O senhor tá melhor hoje? — Melhor é quando a pressão não inventa moda. — ele devolve, rindo sem dentes — Cadê o Yuri? — Dormiu tarde, ficou inventando entrega. Disse que ia “fazer dinheiro”, tu acredita? — Esse menino tem formiga no pé. — o velho suspira — Mas é bom de coração. Eu amo o Yuri com força. Só que amar não salva ninguém de burrada. Quando ele aperta, quem segura sou eu. E eu seguro mesmo, com unha, com dente, com palavra atravessada. Não aguento ver injustiça, não aceito humilhação. Se a rua late, eu mordo de volta. Saio com a marmita, deixo no portão da Dona Áurea, que cuida das crianças dos outros como se fosse tudo neto dela. Sigo o beco do Foguinho, cumprimento geral. O Luar tem humor próprio, bica que vaza, funk saindo por janela, tia varrendo a calçada como se varresse o mundo. Eu tiro onda, dou risada, faço minha reza torta, que hoje o morro não precise de vela. A língua é minha arma. Aprendi cedo, quem fala com firmeza, atravessa. Quem gagueja, vira alvo. Mas não confunde, não, coragem não mata o medo, só bota ele pra segurar a mochila enquanto a gente passa. Aquele dia começou normal e terminou invertendo tudo. Eu tava no bar do Seu Anselmo pegando troco quando vi os dois capanga do Freitas prensando meu irmão no canto. O grandão erguendo o punho, o outro fazendo graça. — Abaixa essa porr4 dessa mão, grandão. — falei sem pensar — Senão eu arranco teus dedos um por um e vendo no ferro-velho. O bar calou. Eu caminhei até o Yuri, botei ele atrás de mim. O coração deu aquele pulo, mas o que veio pra fora foi deboche. Eu ia rebater quando senti o ar mudar. É tipo quando o céu vira chumbo antes do temporal. Os caras abriram passagem e ele ficou no meio. Dante Ravel. O tal Rei do Luar. Olhar de gelo, boca que não sorri, jeito de quem manda respirar e o morro obedece. Eu já tinha ouvido história, quem não ouviu? Mas história não prega sombra como ele pregou naquele bar. Dá pra jurar que o bar todo prendeu o ar. Eu também prendi, mas por dentro. Por fora, fiquei firme, que é assim que eu faço desde que a vida me empurrou escada abaixo e eu resolvi subir de volta de salto. Ele chegou perto. A presença dele tem peso. Não é só por causa da arma, é o jeito que ele ocupa o espaço, como se tivesse certeza que o chão foi feito pra segurar o passo dele. — Teu irmão deve, a rua cobra. — ele disse — Sem chororô. — Sou sincera, tá ligado? Tu anda com aura de deus, mas é homem. E homem erra. Quer receber? Me dá três dias. — Por quê três? — Porque amanhã eu saio às cinco pra trabalhar, depois tenho que levar meu pai no postinho, e só no terceiro eu consigo catar tudo que ele deve e mais um troco. — inclinei — Se tu quer bater, bate em mim. Mas se errar uma sílaba, eu te esculacho na frente dos teus. O olhar dele brilhou de um jeito que eu não decifrei. Não era raiva. Não era só estranheza. Era interesse. E isso me irritou mais do que se ele tivesse me xingado. — Três dias. — ele falou, por fim — O relógio começou agora. — Fechado. A gente apertou a mão. Mão quente, firme. Eu segurei forte pra provar pra mim mesma que não tremia. Ele fez sinal, os capanga que brotaram atrás de mim soltaram o Yuri. Meu irmão disparou beco abaixo. Eu fiquei. — Se tu sumir… — Dante sussurrou — eu busco teu mundo inteiro. — Se tu encostar no Yuri, eu arranco teus dentes com alicate. Ele deu um meio riso. Meio. Como quem prova a comida com a ponta da língua. — Tu tá me ameaçando? — Tô te prometendo, Dante. Virei as costas antes que meu corpo entregasse que o coração tava batendo feito escola de samba. Saí do bar com queixo alto, mas dentro eu tava um furacão. O olhar dele mexe com a gente. É um negócio frio que esquenta, entende? E isso me dá raiva, porque eu não pedi pra sentir nada. No caminho de casa, a favela segredou. As línguas são rápidas, dizem que ele executou um traíra no campinho mais cedo, tiro seco, sem pensar duas vezes. Dizem que paga a feira de quem tá sem, mas derruba o telhado de quem desrespeita. Dizem que compra polícia com uma mão e manda com a outra. Dizem. Eu escuto tudo e guardo o que presta, homem como esse não joga, dita regra. E eu cresci prometendo que regra de homem nenhum ia governar meu passo. Em casa, sentei o Yuri na cadeira, botei sal grosso na mesa, que eu sou do tipo que mistura reza com bronca. — Fala, agora. — bati com o dedo — Tu deve quanto e pra quem? — Foi pouco, Tina. Só pra adiantar as entrega... — Pouco é a paciência que eu tenho. — cortei — Três dias. Eu já fechei com ele. Tu vai trabalhar comigo, vai vender as quentinhas da Dona Áurea, vai catar moedinha em sofá. Se faltar, a gente arruma. Mas não vai ter humilhação. — E se ele não aceitar? — Ele já aceitou. — engoli seco — E eu não vou deixar ele pensar que pode dobrar a gente. Quando o Yuri dormiu, fiquei na janela vendo as luzes lá embaixo piscarem igual cigarra. Pensei na mão do Dante apertando a minha, no jeito que ele fala baixo e manda alto. Senti um negócio ruïm e bom ao mesmo tempo, uma vontade de cuspir no chão e de rir da minha própria cara. Quem ele pensa que é pra me deixar assim? Rei? Rei porr4 nenhuma. Se o morro chama ele de demôniø, eu sou a língua do anjo que não tem medo de queimar. — Não, Valentina. — falei comigo, olhando meu reflexo no vidro — Tu não vai dar palco pra homem nenhum. Nem pra esse. Amanheci com o sol batendo torto na parede e a decisão no peito. Desci a ladeira com o cabelo preso e aquela marra que me veste melhor que vestido caro. Fui catar o dinheiro, bater de porta em porta, cobrar com jeitinho e com cara feia quando precisava. Três dias é curto, mas eu sou melhor que prazo. Sou faca no dente quando o tempo late. No terceiro dia, contei as notas em cima da cama do Yuri e sorri simples, igual meu pai: consegui. Botei tudo num elástico, enfiei no bolso, subi o morro com o vento me batendo no rosto como quem aplaude e avisa: vai dar ruïm, mas vai ser bonito. Trombei com dois dos homens do Dante na esquina do Mirante. Eles me mediram, eu medi de volta. — Vim pagar. — falei — E vim lembrar que aqui ninguém baixa a cabeça. — O patrão tá te esperando. — um deles disse. — Ótimo. — ergui o queixo — Porque eu também tô. Enquanto subia, senti a raiva velha reacender. Raiva de homem que acha que manda. Raiva de olhar que congela e esquenta. Raiva de mim por sentir qualquer coisa. Mas por cima de tudo veio a minha promessa, escorrendo certeira: — Tu não vai me dobrar, Dante Ravel. — sussurrei, só pra mim — Nem hoje, nem nunca.
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