Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – O Rei Do Luar
Dante
Eu sou Dante Ravel, tenho trinta e oito anos e nesse morro meu nome pesa mais que caveirão em viela. A Favela do Luar é minha coroa e meu império. Quem bate de frente aprende, respeito eu não peço, eu arranco. O vento traz cheiro de pastel, cerveja e fumaça dos menor no beco.
Desço a ladeira com os meus, fuzil no ombro, rádio pipocando. Hoje é dia de recado. Naldo vendeu informação pro morro da Coroa, rota e hora, quase levaram dois dos meus. Traição aqui tem preço contado.
Puxo o sujeito pro campinho de terra, pra favela inteira ver. A lua amarela, olho de santo vigiando pecado.
— Última chance pra falar quem te comprou. — digo.
Ele gagueja.
— Foi pressão, chefão...
— Pressão é de dentro pra fora. — Engatilho — Ajoelha.
Silêncio se faz. Um cachorro late, uma mãe abraça o filho. Miro na testa, porque desrespeito se corta pela raiz.
— No Luar, quem fala demais perde a voz. — Tiro seco. Poeira sobe, corpo tomba — Sem vela e sem reza. — ordeno.
Sigo pro bar do Seu Anselmo acertar um comerciante que quis vender fiado pra bandido de fora.
— Aqui é um corpo só. Entrou, pagou. Saiu da linha, voa dente.
Luz fluorescente, dominó batendo, o homem suando pinga.
— Dante, parceiro, foi sem maldade...
— Sem maldade é o car4lho. Tu sabe quem manda. — Bato no balcão — Amanhã a taxa dobra. Sem chiado.
Tô saindo quando vejo, dois dos meus cercam um moleque magrelo, olho faminto e malandragem nova.
— Deve pro Freitas. Dois meses. — diz um.
— Dois e meio. — corrige o outro, erguendo o punho.
A noite corta e a voz vem:
— Abaixa essa porr4 dessa mão, grandão, senão eu arranco teus dedos um por um e vendo no ferro-velho.
Viro devagar. Ela vem do beco com marra que até eu respeito. Short surrado, tênis estourado, coque bagunçado e um olhar que não baixa nem pra trovão. O moleque tenta se esconder atrás dela.
— Quem é você? — pergunto, medindo a coragem.
— Valentina. Esse aí é meu irmão. Se alguém vai meter a mão nele sou eu, e vai ser porque mereceu, não porque tu mandou. — Cruza os braços e me encara — Qual é a desse circo, rei?
Tem risadinha presa entre os meus. Ergo a mão e o bar fica mudo. Chego perto até sentir cheiro de sabonete com suor de quem rala.
— Tu sabe com quem tá falando, projeto de gente?
— Sei, ué. Com o reizinho da favela. — ela deu um sorriso torto — E aí, majestade, cê governa com cabeça ou só com fuzil?
Os becos ficam sem ar. Meu sangue ferve, mas não é raiva. É faísca. Gosto de gente que não tem amor a vida. Gente que corre me cansa.
— Teu irmão deve, a rua cobra. — aviso — Sem chororô.
— Dívida a gente paga. Mas não com humilhação. Não na mão de frouxo que junta cinco contra um. — Ela aponta pro meu soldado — Solta esse punho, vacilão, que tu não quer perder a mão hoje.
— Valentina... — o moleque puxa a barra — vamo embora.
— Cala a boca, Yuri. Quem arrumou foi você, mas eu resolvo.
Rio baixo.
— Tu é ousada, Valentina. Quer virar saudade?
— Sou sincera, tá ligado? Tu anda com aura de deus, mas é homem. E homem erra. Quer receber? Me dá três dias.
— Três dias por quê?
— Porque amanhã eu saio às cinco pra trabalhar, depois tenho que levar meu pai no postinho, e só no terceiro eu consigo catar tudo que ele deve e mais um troco. — ela chega mais perto — Agora, se tu quer bater, bate em mim. Mas se errar uma sílaba, eu te esculacho na frente dos teus.
Os meus prendem o ar. Coragem demais, medo de menos. Ela finge que não teme, mas o pescoço dedura, pulso acelerado. Conheço esse compasso. Podia esmagar. Rei que só mata perde faro. Eu prefiro domar.
— Três dias. — fecho — O relógio começou agora.
— Fechado. — Ela estica a mão. Eu aperto. Mão quente, firme. Não treme.
— Se tu sumir, eu busco teu mundo inteiro. — aviso.
— Se tu encostar no Yuri, eu arranco teus dentes com alicate.
Rio.
— Tu tá me ameaçando?
— Tô te prometendo, Dante.
Faço sinal. Soltam o moleque. Ele some. Ela fica.
— Mais alguma coisa, rei? Tenho roupa pra lavar.
Chego tão perto que minha sombra engole a dela.
— Tu me olhou sem baixar o olho.
— Eu uso olho pra mirar, não pra fugir.
— Tu tem medo de mim?
— Tenho medo de barata. De homem, só paciência curta.
— Vai precisar de muita comigo.
— Então compra um banco e senta, que eu não corro.
Ela vira as costas confiante. Fico olhando a silhueta sumir. Um dos meus cochicha:
— Chefão, deixou barato?
— Barato é troco de pão. Aqui é outra moeda.
Acendo cigarro. No peito, não é raiva nem paz. É curiosidade com pólvora.
O rádio chia:
— Coroa sondando pela Rua do Mirante.
— Dobra vigia. E fala pro Freitas parar de gracinha. — Solto fumaça — Outra, quem encostar no Yuri sem minha ordem vai tomar sonda no hospital. Fui claro?”
— Clareou.
Caminho pelo Luar revisando meu reino. Portas fecham, janelas viram fendas. Respeito que corta mantém cabeça no lugar. Mas hoje a favela me mostra novidade, um par de olhos castanhos que não piscou pro meu inferno. Valentina. Nome de santa com língua de pecado.
Lembro da marra:
— “Cê governa com cabeça ou só com fuzil?”
Sorrio.
— Tu acha que vai bater de frente comigo, é? Tá de sacan4gem, porr4.
Lá em cima, a cidade pisca feito colar barato no pescoço da noite. Sou dono dessa vista e desse abismo. Agora tem uma mulher que não sabe qual dos dois eu vou jogar em cima dela. Talvez nem eu saiba.
Só sei de uma coisa, o relógio dela corre. Três dias. Eu nunca esperei por ninguém. Mas por essa marrenta eu vou marcar cada segundo. Se voltar com o dinheiro, cobro juros no olhar. Se não, o Luar aprende que promessa comigo é sagrada.
Apago o cigarro, ajeito o coldre e sigo. O beco segue comigo, as lajes cochicham meu nome. Sou o Rei do Luar. Frio e calculista. Quem me ama treme. Quem me odeia corre. E quem me desafia vive perigosamente, às vezes, vive comigo.
Valentina escolheu o perigoso. E eu escolhi ficar curioso.