Valentina Eu precisava respirar sem sentir o teto do casarão pesando na nuca. Passei o dia engolindo o falatório de “rainha do Luar” como quem bebe remédio amargo: segura, engole, não faz careta. Quando a noite caiu e o som do baile começou a tremelicar o ar, batida estourando lá da praça principal, eu decidi que não ia morrer seca. Queria ver gente, luz, suor, vida normal por cinco minutos que fosse. Abri o armário como quem abre trincheira. Escolhi uma calça jeans escura que abraça o quadril do jeito certo, top preto com recorte bonito, jaqueta leve pra fazer charme. Prendi o cabelo num rabø alto, deixei duas mechas caindo de propósito, batom vermelho sem dó. Quando terminei o delineado, parei. Respirei. A cara que me olhava do espelho tinha marra e olheira: a mistura que me mantém

