Aquele olhar que Matthaus me deu perdurou em minha mente pelo resto do dia e isso me incomodou, eu sinto como se conhecesse aqueles olhos de algum lugar e isso por algum motivo tem tirado a minha paz. Depois de me deixar no quarto e mostrar qual era a minha cama, Candy se foi alegando que tinha aula ainda e não poderia faltar o que me deixou sozinha com meus pensamentos insuportáveis pelo resto da tarde. Usei esse tempo para organizar as minhas coisas e aproveitei para voltar as minhas origens.
Como meus olhos já eram estranhos por si só, eu comecei a pintar os cabelos para parecer um pouco mais normal. Vamos ser sinceros, olhos verdes muito claros combinados a um cabelo branco é uma combinação um tanto assustadora para uma adolescente que está tentando se encaixar. Olhando meu reflexo no espelho depois de remover todo o pigmento castanho do meu cabelo e ver a minha aparência natural me esclarece uma coisa: eu jamais me encaixaria. Quem eu sou, a minha essência não combina com o mundo humano e por isso nunca me encaixei bem entre eles.
Apenas espero que eu me encaixe aqui, perto das pessoas que conheço.
Saio dos meus pensamentos quando ouço o barulho da porta sendo aberta e vejo Candy entrando no quarto.
– Ué, ainda está assim? Onde está seu uniforme? Uau, o que você fez com o seu cabelo? – Ela pergunta com as mãos na cintura me olhando de baixo para cima e para quando chega em meus cabelos. Olho para as minhas roupas procurando algum defeito e não encontro, parece normal para mim.
– Gostou? Essa é a cor natural dele, na verdade. – Digo voltando a me olhar no espelho.
– Está belíssimo, mas por que você não está de uniforme? – Pergunta novamente e eu franzo a testa.
– Há um? É obrigatório? O que há de errado com as minhas roupas?
– Claro. Não há nada de errado, apenas precisa usar o uniforme dado pela escola.
– Mas eu nem estou em horário de aulas.
– Está na hora do jantar então você precisa usá-lo. Fora do horário de aulas é claro que pode usar suas roupas, mas fora isso, precisa estar de uniforme igual a todo mundo. – Ela vai até o guarda-roupa e tira de lá um conjunto de roupas e um par de sapatos que eu não havia notado. – Aqui, use.
O uniforme consiste em um salopete xadrez preto, camiseta branca até os punhos e meias 7/8 pretas, além de uma gravata preta.
Pego as roupas a contragosto e me dirijo ao banheiro para trocar de roupa. Me olho no espelho depois de calçar o par de tênis branco e dou de ombros. Não está r**m, é até bonito comparado a outros que já fui obrigada a usar.
– Podemos ir? – Pergunto saindo do quarto e Candy olha para mim com aprovação.
– Agora sim, bem melhor. Vamos lá.
No caminho até o refeitório, eu faço o meu melhor para prestar atenção no caminho para quando eu precisar vir sozinha. Só porque Candy é minha colega de quarto não significa que ela será minha amiga e de toda forma eu já estou bem-acostumada a ser sozinha.
Assim que entramos no refeitório, todos já estão sentados e observam as duas recém-chegadas assim que colocamos nossos pés no ambiente. m***a, já estou chamando atenção para mim novamente. Meus olhos se encontram imediatamente com os de Matthaus em meio a multidão e eu imediatamente os baixo olhando para os meus pés.
O refeitório está lotado e há seis mesas grandes com os mais diversos pratos prontos para serem servidos.
– Estamos chamando atenção, por favor, ande logo. – Digo baixinho ao lado de Candy e ela anda até uma das mesas e senta-se na ponta, eu me sento ao seu lado e olho para o meu prato.
– Qual o problema? Você não gosta de chamar atenção?
– Sim, eu não gosto. Tenho um pouco de trauma, na verdade.
– Bom, seu cabelo chama bastante atenção então acostume-se. – Ela diz dando um risinho e eu olho para ela.
– Tenho a impressão de que todos estão olhando para mim.
– Bom, deve ser por que todos estão olhando para você. – Levanto a cabeça e arregalo um pouco os olhos ao perceber que as pessoas me olham e algumas ousam até apontar para mim. m***a. Vendo o meu desespero eminente, Candy faz o seu melhor para me acalmar. – Não se preocupe, eles estão olhando para você por que você é nova e está no meio do ano então relaxe, é um novo semestre e daqui a uma semana eles esquecem de você.
Suas palavras surtem efeito e eu assinto. Saber que serei esquecida me deixa um pouco mais calma para enfrentar a escola. Saber que qualquer estranheza que eu fizer aqui será normal me conforta também.
Subitamente, todos os alunos ficam de pé e eu faço o mesmo. Vejo a diretora entrando acompanhada de algumas pessoas e sentam-se numa mesa aparte, assim que eles estão sentados, todos os alunos voltam a se sentar e começam a se servir e eu faço o mesmo.
Me sirvo de algumas coisas que gosto e quando chega a parte da carne eu paro olhando para a carne por um instante.
– Há algo errado? – Candy pergunta e eu volto a realidade.
– Não, está tudo bem. Tudo bem mesmo. – Digo deixando a carne de lado.
– Você estava olhando de forma estranha para a carne, me diga logo o que está acontecendo.
– Você é bem observadora. Apenas estava me lembrando que é por causa de uma carne que estou aqui.
– O que quer dizer com uma carne? Como?
– Na minha última escola tinha uma garota que sempre me humilhava e me tratava m*l por ser nova, um dia ela jogou carne em mim e eu tive muita raiva dela então eu fiz os cabelos dela pegarem fogo. Não me pergunte como foi por que eu mesma não faço ideia de como foi, eu apenas… fiz. Não achei que voltaria a falar sobre isso já que nem eu mesma acreditava que eu fiz isso. É bem legal falar sobre isso com alguém. – Digo dando de ombros e ela faz uma expressão pensativa.
– Foi a sua primeira vez fazendo algo assim? – Pergunta entre uma garfada de comida e outra.
– Bom, não. Eu vinha fazendo coisas estranhas a muito tempo, apenas não sabia que era magia. Eu nem mesmo acreditava nisso.
– Bom, não precisa se preocupar com isso porque cada um aqui manifestou seus poderes de uma forma. Alguns já sabiam o que eram, outros só descobriram depois, outros herdaram dos pais e os mesmos tinham escondido deles. Eu já sabia que era um werecoyote, mas eu não sabia controlar minhas transformações e por isso estou aqui, meus pais acharam que seria melhor.
– No meu caso, eu detestei a ideia assim que soube mas em minha defesa eu achava que era um internato de delinquentes então…
– O que quer dizer com delinquentes? É algum tipo de poder? Não conheço. – Franzo a testa e dou uma pequena risada.
– Como não sabe o que é um delinquente? Em que mundo você vive? – Pergunto de brincadeira.
– Bom, na parte mágica de Midgard. Apesar de morrer de curiosidade sobre o mundo humano, eu nunca fui.
– Como assim a parte mágica de Midgard?
– Há o nosso mundo e há o mundo dos humanos, claro que há diversas criaturas mágicas vivendo no seu mundo, mas a grande maioria prefere morar com os seus. – Estou um tanto surpresa com essa revelação.
– Achava que só existia um mundo. – Comento.
– Há vários. Você tem muito o que aprender.
Pelo visto tenho mesmo.