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Antes do sol nascer [M]

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Sinopse

Miguel tinha tudo pra ser um homem de 19 anos normal, tirando as partes em que ele esconde ser um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro e atual dono do Complexo da Maré em sigilo.

Ana Alice aprendeu a sobreviver e manter a mãe viva após a morte de seu pai e em um dia como qualquer outra ela acaba fazendo uma amizade improvável, alguém que curte tudo o que ela menos gosta.

Dizem que o amor é capaz de curar todas as feridas, mas e se for o amor quem te ferir? Quem vai te curar?

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Capítulo 1
Complexo da Maré | 07:28 AM Ana Alice Desci o morro novamente, eu morava em uma rua que ficava no meio, eu estava exausta. Escola, trabalho, minha mãe, tudo isso estava acabando comigo. Ela é a minha única família e mesmo morando na mesma casa consegue ser ausente. Viemos morar aqui a dois meses atrás, o dono do morro ninguém sabe quem é. Dizem que ele usa uma máscara para falar com os vapores. Patético! Acordar as seis horas da manhã para ir a escola deveria ser um pecado, eu odeio a maioria das pessoas que estudam aqui por eu morar na rua 7 que é praticamente um esgoto ninguém daqui fala comigo e quando falam é pra fazer bullying Coloquei o fone por dentro da blusa e o celular na cintura, Tz da coronel no volume máximo. Assim que chego na escola passo direto para a sala, me sentei na primeira cadeira da fila perto da porta. Tinham alguns alunos, mas não todos. O sinal toca e o professor entra. Um garoto entrou com ele. Professor de química: Hoje nós temos um novo aluno, recebam bem o Miguel — Olhei para o garoto moreno que parecia mais ter uns 20 anos — Miguel sente na cadeira ao lado da Ana Alice por favor — Diz apontando pra cadeira ao meu lado. Ele se sentou em silêncio, eu não conseguia parar de pensar em por que uma pessoa muda de escola no último mês de aula? Miguel: Qual foi mina, muda? — Olhei pra ele sem acreditar que ele realmente falava comigo. Ana Alice: Se você falar comigo, vão te zoar — Giro o dedo em círculos. Miguel: Tô pouco me fodendo pra eles, sou gostoso demais pra ser visto com qualquer um — Ri um pouco nervosa. Eu aprecio muito a frase "Uma p**a num corpo de uma virgem", mas eu só sou assim na minha cabeça. Eu não sou cega e ele é um gostoso. Ana Alice: A maconha tá subindo pro cérebro — Disse debochada — De onde você veio? Miguel: Nasci e vou morrer aqui — Fiz uma careta pra ele — E você? Ana Alice: Pernambuco, vim morar aqui depois que o meu pai morreu — Ele concordou. O professor corrigia a atividade da aula passada tendo uma atenção mínima dos alunos. Miguel: Final do mês o mano muralha vai fazer o baile pra mostrar a cara, você vai? Ana Alice: Nunca fui em um — Ele me olhou como se eu fosse um Alien — Não quero correr o risco. Miguel: Eu levo você, topa? No máximo o que poderia dar r**m era eu acabar morta e ainda assim não seria tão r**m. Sei lá, ultimamente só tô querendo minha paz. Ana Alice: Eu vou pensar, não sei se é uma boa ideia — Ele concordou. Miguel: Mas leva em consideração que se tá comigo, tá com Deus. As aulas passaram voando até o intervalo, uma hora ou outra a gente sempre conversava. Me sentia como se conhecesse ele a um bom tempo, coisa de outras vidas. Miguel: Tu não vai sair da sala não? — Neguei — Qual foi pretinha? Ana Alice: Minha cabeça tá doendo — Menti. Ele saiu da sala voltando 10 minutos depois jogando uma sacola na minha mesa. Miguel: Remédio, salgadinho, água e coca. Eu não seria orgulhosa ao ponto de negar, minha barriga roncava. Ana Alice: Valeu. Comemos ali na sala mesmo. Mais uma aula chata, faríamos um trabalho de biologia em dupla. Na casa dele é claro, eu tinha um pouco de vergonha da minha mãe no estado que ela está. Saimos de lá juntos arrastando a atenção de quase todos para nós. Odiava isso. Miguel: Vamos almoçar? — Fiz uma careta, nós havíamos acabado de lanchar. Ana Alice: Tô cheia — Ele riu sem mostrar os dentes negando. Caminhamos até a entrada da escola onde ele foi em direção a uma Kawasaki preta, ele subiu e estendeu um capacete na minha direção. Miguel: Vou te levar pra comer e depois te levar pra casa. Ana Alice: Teimoso — Subi na moto sem protestar. Tava sol e o que eu menos queria era chegar em casa com uma dor de cabeça de verdade. Abracei forte sua cintura quando ele saiu em alta velocidade. Paramos em frente a o barzinho que eu trabalhava, eu me sentia um peixe fora d'água. Ele segurou minha mão e caminhou me puxando lá pra dentro. Miguel: Vai fazendo o pedido que eu vou falar com o menor ali. Pedi a comida e me sentei observando ele falar com dois homens, só me liguei que eram traficantes quando vi a arma na cintura de um branquinho. Miguel sentou na minha frente, me encarando com um sorriso. Ana Alice: Que foi? Miguel: Não é todo dia que eu almoço com uma preta linda — Gargalhei, ele é péssimo nisso. Ana Alice: Você é envolvido? — Ele negou, mas não tinha sinceridade alguma no olhar dele. Miguel: Minha família era e eu não quero isso agora... — Concordei, não ia encher o saco. A moça trouxe e almoço e nós comemos conversando sobre a nossa infância e bobagens aleatórias. Ele falava dos amigos e eu escutava tudo com atenção. Miguel: Teve uma vez que o Coringa caiu na privada da escola — Ele gargalhou alto — Moleque era pequeno e tinha dificuldade em tudo, hoje ele é dono do complexo do Dendê. Depois de almoçar a gente andou a pé pela comunidade com ele me apresentando cada canto de lá. Todo lugar tinha uma história engraçada. Ana Alice: Eu preciso ir pra casa agora — Ele concordou. Pegou o celular do bolso e estendeu pra mim, estava nos contatos. Salvei meu número lá e devolvi. Miguel: Vou te levar lá. Voltamos pra frente da lanchonete onde a moto estava e eu fui explicando pra ele o caminho. Miguel: Tá entregue — Desci da moto e dei um sorriso sem graça pra ele. Ana Alice: Você quer entrar? — Apontei pra minha casa. Pedi a Deus mentalmente pra ele negar, sabia que a minha mãe tava aí dentro e não queria que eles se encontrassem. Miguel: Preciso ir pro corre, não tenho papai pra bancar — Riu. Ana Alice: Como eu lhe agradeço príncipe? — Disse em tom de zombaria. Miguel: Então princesa, pra você eu faço por um beijo. Ele apontou pra bochecha, me aproximei e quando fui beijar a sua bochecha ele virou o rosto no que acabou em um selinho. Dei um soquinho fraco no seu braço. Miguel: Fé Fiona. Ele meteu marcha em alta velocidade. Entrei em casa vendo as latinhas de cerveja espalhadas pela sala com poucos móveis. Minha mãe tava dormindo no chão, com dificuldade eu coloquei ela deitada no sofá. Peguei minha toalha no varal e entrei no banheiro, infelizmente eu não recebia dinheiro do céu então me virava como podia. Vesti a blusa com o nome do barzinho e fui ver o que tinha pra comer no armário, somente arroz e ovo. Cozinhei o arroz e fritei o ovo e deixei tampado lá pra que ela podesse comer quando acordasse, fui até o meu quarto e passei a chave porque se eu deixasse aberto ela venderia tudo de valor pra comprar drogas. Fechei a porta de casa deixando ela trancada lá dentro. Subi o morro devagar, eu trabalho das três horas até as 10. Era cansativo, mas era o que mantinha com um teto e um prato de comida. Entrei no barzinho e fui direto pra trás do balcão pegando o bloco de nota, a praça fica bem de frente e a essa hora sempre tinha uma rodinha de traficantes conversando por lá. Lívia: Mona você pode atender aquela mesa ali? — Confirmei, na mesa eu reconheci o menino branquinho que tava conversando com o Miguel e mais dois caras. Fui até eles. Ana Alice: O que vocês vão querer? — Forcei um sorriso. — Você tá no cardápio? — O branquinho falou alguma coisa no ouvido dele fazendo o mesmo se espantar — Foi m*l, sabia que era mina do mano não. — Matarindo, orelha e Peixe e tu? — O branquinho falou. Ana Alice: Ana Alice — Ele abaixou a cabeça e negou rindo — Que foi? Matarindo: Nome feio do c*****o. Ana Alice: Vão pedir ou não? — Já me estressei. Peixe: Trás cinco cervejas e um prato de camarão aí na moral. Passei o pedido pra Sandra e fiquei esperando. _________________________ ••• Vocês podem ver os personagens no destaque do insta. @aut.izzamarques

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