A chuva cai sem pressa, como se tivesse esquecido de parar.
Está frio. Um frio que não vem só do tempo — vem de dentro, como se tivesse nascido em mim.
As ruas continuam cheias, apesar da hora. Pessoas passam apressadas, os rostos escondidos por capuzes e guarda-chuvas. Ninguém se olha. Ninguém fala.
E eu caminho, sozinha, tentando não sentir o peso da mala que balanço na mão. Dentro dela estão minhas roupas, minhas lembranças e o resto do que ainda me pertence.
Paro diante de um bar.
As luzes lá dentro são amareladas, mornas, quase convidativas. Há risadas, copos batendo, o som abafado de uma música antiga.
Por um instante, penso em seguir andando.
Mas não tenho mais para onde ir.
Empurro a porta e entro.
O ar quente me envolve, e por alguns segundos, sinto o contraste do corpo molhado com o calor do ambiente.
O cheiro é uma mistura de álcool, madeira e perfume barato.
— O que é que eu estou fazendo? — murmuro para mim mesma.
Algumas pessoas me olham, outras fingem não ver. Caminho até o balcão e me sento num dos bancos altos. O atendente — um rapaz de avental preto — serve bebidas e conversa com um pequeno grupo ao fundo.
— Aqui está a sua bebida, Kat — ele diz, colocando um copo à frente de uma mulher sentada ao meu lado.
Ela tem o cabelo vermelho-escuro, quase vinho. Sob a luz fraca do bar, ele parece brilhar de um jeito que prende o olhar.
Não sei por quê, mas não consigo parar de observá-la. Talvez seja o modo como ela mexe o copo, distraída, ou o jeito confiante de estar ali, como se nada pudesse atingi-la.
— E você, moça? — o atendente me pergunta. — O que vai querer?
Demoro alguns segundos pra responder.
— Nada. Obrigada. — Tento parecer firme.
Ele apenas concorda e se afasta.
Volto a olhar para a mulher. Ela percebe. Vira-se devagar e me encara.
— Oi — ela diz, com a voz tranquila, quase brincalhona.
— Oi — respondo, um pouco sem jeito.
Ela me observa por um instante, depois sorri.
Um sorriso leve, preguiçoso, que me deixa um pouco mais à vontade.
Sem saber por quê, acabo sorrindo também.
— Eu sou Katy. E você? — pergunta, levando o copo à boca.
— Mara.
— Mara… — ela repete, pensativa. — É um nome simples.
Não sei se foi um elogio ou uma provocação. Fico calada.
— Nunca te vi aqui antes.
— É a primeira vez que venho.
— Quer provar minha bebida? — ela estende o copo, divertida.
— Não, eu não bebo. — Tento sorrir. — Obrigada.
— Ah, claro — ela responde, compreensiva.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Então, ela olha para minha bolsa encostada no chão.
— E essa mala?
Demoro um pouco pra responder.
— Eu... não tenho pra onde ir. — Falo baixo, quase sussurrando.
Ela não parece surpresa. Apenas assente, como quem já ouviu isso antes. Termina o resto da bebida e se vira pra mim.
— Quantos anos você tem, Mara?
— Dezoito.
— Você quer ficar na minha casa?
A pergunta sai simples, como se fosse algo natural.
Eu a encaro, confusa.
— O quê?
— Pode ficar comigo na minha casa se quiser, já que você não tem para onde ir.— fala de forma calma.
— Mas... você nem me conhece.
Ela sorri.
— Conheço. Você é a Mara, não é?
— Sim, mas... a gente acabou de se conhecer.
— E daí? — Ela dá de ombros. — Se quiser, pode vir.
Fico em silêncio. Ela ainda é uma estranha, mas... não tenho outra escolha.
A rua está fria demais pra recomeços lentos.
— Eu aceito — digo, quase sem voz. — Aceito ficar na sua casa.
— Ótimo. Mas tem uma condição.
— Qual?
— Você quer trabalhar?
— Quero.
— Qualquer tipo de trabalho?
— Eu não terminei os meus estud...
— Esse não exige isso. É um trabalho fácil.
— Sério?
— Sério — ela diz, sorrindo de um jeito que eu não entendo. — Então?
— Eu aceito. Mas você tem que me dizer qual é o trabalho.
— Claro. — Ela se levanta e deixa algumas notas sobre o balcão. — Vem comigo. Te explico no caminho.
Levanto também. A chuva lá fora agora é só uma garoa.
Corro um pouco pra alcançá-la.
Ela passa o braço pela minha cintura, me puxando pra perto.
— Vou te contar sobre o trabalho amanhã. Agora você precisa dormir. Está cansada. — A voz dela soa quase doce.
— E você vai me contar de onde veio... e por que anda por aí com essa mala — ela acrescenta.
— Está bem — respondo.
O toque dela é quente.
E só então percebo o quanto estou molhada.
O cabelo, as roupas, a pele — tudo.
Ela sente.
— Você está encharcada — diz, sorrindo de leve. — Vamos te secar antes que pegue um resfriado.
Sigo com ela pelas ruas. A cada passo, o vento parece mais leve.
Depois de alguns minutos, paramos diante de um prédio simples, de fachada cinza e janelas pequenas.
Katy tira uma chave do bolso e abre a porta.
— É aqui. — A voz dela soa diferente agora. Menos segura. Mais real.
Entramos. O corredor é estreito, as paredes descascadas. Subimos um lance de escadas. Os degraus rangem.
No segundo andar, ela abre uma porta pintada de verde.
O interior é pequeno — tão pequeno que quase consigo ver tudo de uma vez.
Há um sofá gasto, uma mesa com duas cadeiras, uma cortina fina que se move com o vento e um tapete velho, mas limpo.
Tudo é simples. Mas é organizado, como se cada coisa tivesse um lugar certo pra estar.
— É o que eu posso chamar de casa — ela diz, tirando os sapatos. — Não é muito, mas é meu.
Entro devagar.
O ar tem cheiro de sabão e perfume barato. É acolhedor.
— Senta. — Ela vai até a cozinha e fala por cima do ombro. — Vou pegar uma toalha pra você.
Obedeço. Sento no sofá, sentindo o tecido úmido das minhas roupas grudar na pele.
Katy volta com uma toalha nas mãos.
— Aqui. Se seca um pouco. — Entrega-me com delicadeza.
— Obrigada. — Seguro a toalha, meio sem jeito.
— Pode usar o banheiro. É aquela porta ali.
Entro.
A luz é amarelada, fraca. No espelho, vejo meu rosto pálido e o cabelo colado na testa.
Parece que o frio mora em mim.
Me seco devagar.
A toalha é áspera, mas quente.
Quando termino, penduro-a e saio.
Katy está sentada à mesa, com uma caneca nas mãos.
— Fiz chá — diz, levantando o olhar. — Quer um pouco?
— Quero.
Ela me entrega a caneca.
O calor atravessa meus dedos e chega até o peito.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
— Amanhã eu te explico tudo sobre o trabalho — ela diz, com a voz baixa. — Hoje, só precisa descansar.
Assinto.
— Obrigada, Katy.
Ela sorri.
— Você vai ter uma vida diferente, Mara.
Bebo um gole. O chá está doce demais, mas é bom sentir algo quente.
Olho em volta: o chão limpo, as cortinas finas, os móveis gastos.
Tudo ali parece calmo — calmo demais.
Katy se levanta e abre a porta de um pequeno quarto.
— Pode dormir aqui. É simples, mas é limpo.
Entro.
A cama é pequena, coberta por lençóis que cheiram a sabão. Há uma janela semiaberta, por onde entra o som da chuva voltando.
Deito devagar.
O corpo dói, mas o cansaço é maior.
A última coisa que vejo é Katy parada à porta, observando-me em silêncio.
Depois disso, tudo escurece.