" Tem buracos que nem o tempo preenche."
Estou parada diante de um prédio que parece brilhar com uma vida própria. Luzes violetas e vermelhas se misturam no ar, piscando devagar, como se zombassem de mim. As letras de néon tremem: Elite Parlor.
O nome é bonito. Bonito demais para um lugar que parece respirar pecado.
O vento é frio. Sinto o cheiro de perfume doce vindo lá de dentro, misturado a fumaça e risadas. É um cheiro pesado, que gruda na pele, como um toque que eu não pedi.
— Katy... você tem certeza que é aqui? — pergunto, sem conseguir tirar os olhos do letreiro.
— É aqui — ela responde. — Eu também trabalho aqui.
A voz dela é baixa, cansada. Como se cada palavra fosse uma lembrança que ela não quer reviver.
— Eu não quero esse tipo de trabalho — digo, firme, mesmo que o coração pareça desabar por dentro. — Por que você não me contou antes?
Dou um passo para trás, mas ela agarra meu braço.
— Eu devia ter contado, eu sei — sussurra. — Mas achei que, se soubesse, você não viria.
— E você achou que não me contando, mudaria a minha maneira de pensar? — minha voz sai mais fria do que eu gostaria.
— Eu vi que você estava precisando de ajuda e eu só quis ajudar, Mara. — Eu vi você com fome, tremendo de frio. Eu só queria te ajudar.
— Ajudar? Me jogando aqui dentro? — pergunto, sem grita.
— Quando a gente está na pior, aceita o que aparece. — ela diz, olhando para o chão. — Eu também lutei contra isso no começo. Mas a fome vence a dignidade.
Fico quieta.
Ela está certa, e é isso que dói mais.
Eu já fiquei duas vezes vagando pelas ruas, sentindo frio. A solidão era a minha única companhia. As pessoas desviavam o olhar quando eu passava.
E talvez... talvez esse lugar seja o último refúgio de quem o mundo esqueceu.
Olho outra vez para o letreiro. As luzes piscam devagar, como se o tempo estivesse zombando de mim.
— Eu tenho medo, Katy — confesso.
— Medo de quê? — ela pergunta, a voz suave, quase materna.
— Dos homens. Eles vão me tocar. E eu não vou poder reclamar. — Sinto a garganta fechar, o coração acelerar. — Eu não sei se consigo suportar isso.
Ela dá um passo à frente e segura minha mão. — Eu vou cuidar de você, como se fosse minha irmã.
Irmã.
A palavra pesa. É a primeira vez que alguém me chama assim.
— Eu aceito — digo, num sussurro.
Ela sorri, e o sorriso dela é triste, quase um pedido de desculpa.
— Então vamos. Vou te apresentar à dona do Elite.
Entramos.
O salão é escuro, iluminado por tons de roxo e vermelho. O som é abafado, o riso é falso, os cheiros são fortes. O ar parece vivo, cheio de histórias que ninguém quer contar.
Homens e mulheres se misturam em gestos lentos, em toques silenciosos.
Subimos as escadas. O chão é coberto por um tapete que não faz barulho, quase como se absorvesse cada passo. As paredes são cobertas por papel dourado, antigo, mas brilhante o suficiente para refletir as luzes do salão em pequenos lampejos. Não é um lugar sujo ou descuidado, mas há algo nele que parece congelado no tempo, como se cada objeto, cada detalhe, tivesse sido cuidadosamente posicionado para esconder o que está por baixo — o cansaço, o segredo, o peso que ninguém quer ver.
Katy bate na porta.
— Entrem — diz uma voz feminina, firme, vinda lá de dentro.
A mulher atrás da mesa levanta o olhar dos papéis. Tem olhos frios, experientes, e um perfume forte que preenche o ar.
— Boa noite, senhora Odette — diz Katy, com um respeito quase infantil. — Essa é a Mara. Ela quer trabalhar aqui.
Odette me observa como se estivesse escolhendo um objeto.
— Quer trabalhar aqui? — pergunta, sem expressão.
— Quero — respondo, mesmo que a voz me denuncie.
— O que sabe fazer?
Hesito. Olho para Katy.
— Ela ainda não tem experiência — Katy responde rápido. — Mas aprende rápido.
Odette se inclina um pouco para frente.
— Eu não gosto de clientes insatisfeitos, Katy. Você sabe.
— Pode confiar em mim — diz ela.
Odette pensa por alguns segundos antes de dizer: — Ela começa hoje. Depois eu falo com vocês, agora podem ir.
Sinto o coração afundar.
Descemos. O salão está mais cheio agora, mais barulhento. Luzes piscam, copos se chocam, corpos se tocam...
— Toma — diz Katy, entregando-me um vestido preto. — Usa esse.
O tecido brilha. É leve, frio, indecente.
— É curto demais.
— Todos são — ela responde. — É assim que funciona aqui.
Visto o vestido. Ele gruda na pele, moldando o corpo como se quisesse me apagar por dentro.
O espelho diante de mim reflete uma estranha.
Uma menina com olhos perdidos e alma cansada.
— Aja naturalmente — diz Katy. — Pode ficar sentada, só não demonstre medo. Se parecer assustada, Odette vai se irritar.
Eu apenas aceno.
O salão parece menor agora que estou no meio dele.
Cada passo ecoa como uma confissão. Katy se afasta para atender um homem, e eu fico sozinha.
Tento parecer invisível.
O vestido arranha a pele. O ar cheira a perfume e arrependimento.
Penso em sair. Penso em correr. Penso em todas as vezes que prometi a mim mesma que não seria como elas.
E então vejo um homem de terno escuro, parado do outro lado do salão.
Ele parece deslocado, como se também não pertencesse a esse lugar. O paletó está amassado, a gravata frouxa.
Ele me observa por alguns segundos.
O olhar dele é calmo, quase piedoso.
Eu desvio, mas sinto quando ele começa a se aproximar.
— Posso me sentar? — a voz dele é grave, tranquila.
Apenas aceno.
Ele se senta ao meu lado, mantendo distância.
— É sua primeira noite aqui?
— É.
Ele pede duas taças de vinho, mas não toca na dele.
— Não parece o tipo de lugar pra você — diz, observando o copo.
— Talvez eu tenha deixado de ser o tipo de pessoa que tem um lugar — respondo.
Ele me olha por alguns segundos, e por algum motivo, esse olhar me desmonta. E os olhos... os olhos dele carregam uma tristeza antiga, daquelas que não se curam com o tempo.
— Qual o seu nome? — pergunta.
— Mara.
— Bonito.
— E o seu?
Ele demora antes de responder. — Pode me chamar de senhor, se quiser.
Há um silêncio.
E é estranho, porque não é um silêncio que incomoda. É um silêncio de quem entende a dor do outro sem precisar perguntar.
— Não precisa fazer nada que não queira — ele diz, calmo, sem me olhar diretamente. — Eu só... queria conversar um pouco.
O jeito como ele fala soa verdadeiro. Como se o mundo também tivesse arrancado algo dele.
— Conversar — repito, quase sem voz.
Ele sorri de leve, e pela primeira vez penso que há bondade escondida ali.
Ficamos algum tempo assim. Ele fala pouco, pergunta pouco.
“De onde você é?”
“Por que veio parar aqui?”
Respondo o que posso. Invento o resto.
O olhar dele muda. Não há luxúria, há compaixão.
— Quer subir? — ele pergunta, depois de um silêncio longo demais.
Meu peito se aperta.
Olho para Katy. Ela me observa de longe, e apenas acena, como quem diz vai.
— Tudo bem — respondo.
Ele se levanta, deixa uma nota sobre a mesa e me oferece a mão.
Eu hesito. A mão dele é quente, firme, mas não me prende.
Subimos as escadas em silêncio.
O corredor é estreito, as luzes são fracas. Cada passo soa como um segredo.
Ele abre uma das portas. O quarto é simples: cama grande, espelho na parede, perfume demais no ar.
Fico parada, sem saber onde colocar as mãos.
Ele tira o paletó e o dobra com cuidado sobre a cadeira.
— Não precisa ter medo — diz, a voz quase um sussurro.
Eu acredito.
Não sei por quê, mas acredito.
Ele dá um passo em minha direção, devagar, como se o tempo estivesse prestes a parar.
E, por um instante, penso que talvez ele tenha buracos que o tempo não conseguiu preencher.
Fecho os olhos.
E o silêncio do quarto parece me engolir por dentro.