"— Mamãe… olha o que eu fiz pra você.
Eu puxo o papel de trás das costas, torcendo para que ela sorria dessa vez.
— Você gostou mamãe? — é só um desenho infantil, desajeitado, mas sincero.
— Essa sou eu… e essa é você, mamãe.
Ela suspira, impaciente.
— Mara, por favor. Não me aborreça com esses desenhos idiotas.
O papel amassa na minha mão antes que eu perceba."
---
— Me desculpe, senhor… mas eu não vou conseguir. — minha voz falha, as lágrimas queimam antes mesmo de caírem.
Ele me observa por um segundo, sem raiva.
— Tudo bem. Eu não vou te obrigar a nada.
Eu queria conseguir. Mas não consigo.
Não consigo me entregar a alguém que m*l sei o nome.
Queria viver um romance igual aos que eu lia escondida, queria que meu corpo fosse tocado só por alguém que eu amasse.
Mas eu aceitei esse trabalho. Eu sabia o que ele exigia.
Ele deixa algumas notas em cima da cama.
— Mas… eu nem fiz o que deveria — murmuro, confusa.
— Mesmo assim, eu roubei seu tempo. — ele diz, antes de se virar para ir embora.
— Obrigada — sussurro. Ele só acena e fecha a porta.
---
Desço as escadas sentindo o peso do lugar nos meus ombros. As luzes coloridas, as risadas artificiais, o cheiro doce e pesado da noite.
“Katy não está aqui. Deve ter ido para algum quarto.”
E eu fico pensando no que fiz.
No que deixei de fazer.
Eu deveria ter dormido com ele.
É isso que esperam de mim.
— E aí? Como foi? — Katy pergunta quando saímos para o lado de fora do Elite Parlor.
— Eu não dormi com ele.
Ela só balança a cabeça, como se não fosse grande coisa.
Mas quando eu explico, ela para de andar.
— Por quê? Ele não queria?
— Eu disse pra ele que não conseguiria.
— Mara, pelo amor de Deus…
Eu abaixo os olhos.
— Ele era um estranho. Eu não quero fazer isso com estranhos. Quero fazer só com alguém que eu amar.
Ela respira fundo, irritada.
— Isso aqui não é conto de fadas. Você não pode rejeitar cliente. A Odette já avisou.
Ela está certa. Eu sabia que seria assim.
Eu quis acreditar que seria diferente, mas não foi.
— Não vai acontecer de novo.
Ela toca meu braço, de forma gentil.
— Eu vou cuidar de você. Só faz o que eu digo.
— Está bem, Katy.
Ela me abraça sem avisar, firme, aconchegante.
Eu abraço de volta, porque às vezes é a única coisa que me impede de desabar.
— Vamos pra casa. Eu tô cansada. — ela diz, puxando minha mão.
---
Dois dias se passaram.
Nenhum cliente me escolheu.
E o homem daquele dia não voltou.
— Mara, você ainda não me contou nada sobre a sua vida— Katy comenta, mexendo no cabelo como se fosse algo simples.
— É verdade… — dou um meio sorriso.
— Por onde quer que eu comece?
Ela pensa por um momento.
— Por que você estava andando na rua com aquela mala quando nos conhecemos?
O ar pesa.
Eu não queria falar disso.
Mas ela me ajudou quando ninguém mais ajudaria.
— Minha ex-patroa me demitiu. Eu dormia na casa dela, então… não tinha pra onde ir.
Katy faz um som de compreensão.
— E os seus pais?
Só de ouvir a palavra, meu peito aperta.
— Minha mãe ainda está em vida, e quanto ao meu pai, não o conheci porque...
— Desculpa, Mara.
Eu balanço a cabeça.
— A minha mãe nunca gostou de mim. Demorei a entender, mas agora eu entendi. Mas sempre amou a minha irmã.
As lembranças vêm de repente.
As perguntas que eu treinava no quarto para não deixá-la irritada.
E nada funcionava.
Eu sempre estava errada.
Sempre fora de lugar.
— Teve um dia em que eles saíram para um passeio em família — eu continuo, tentando manter a voz firme. — E eu fiquei sozinha em casa. Achei que ia junto. Mas… eu estava enganada.
Sorrio sem humor.
— Eu achava que fazia parte daquela família. Hoje eu vejo como eu era idiota...
O Elite Parlor…
Por pior que seja, estou me acostumando a ele.
Talvez porque não tenho outro lugar para caber.
Eu observo o salão, pessoas entrando e saindo como se nada tivesse peso.
Então meus olhos param nele.
Um homem que nunca vi ali.
Bonito… mas existe algo mais. Algo contido, diferente.
Eu não consigo desviar o olhar.
— Ele é bonito, né? — Katy sussurra no meu ouvido, me assustando.
Me viro para ela.
— Onde você estava?
— Com o meu querido, claro — ela sorri, apaixonada.
— Você gosta mesmo dele?
— Eu amo ele. — ela diz, sem hesitar.
Quando olho de volta, o homem desapareceu.
Procuro pelos cantos, mas ele sumiu tão rápido quanto apareceu.
" Onde será que ele foi?"
Katy volta ao trabalho, e eu fico ali, sentada, tentando entender por que aquele olhar ficou na minha memória.
— Mara! — a voz firme de Odette corta o ar.
Me levanto depressa.
— Sim, senhora.
Ela me encara por um instante.
— Tem um cliente interessado em você. Ele já acertou tudo comigo. Está te esperando lá fora. Não faça ele esperar.
— Tudo bem.
Pego meu casaco e minha bolsa.
O vento frio da noite me envolve assim que saio.
Atravesso o estacionamento… e então vejo ele.
O mesmo homem.
Ele caminha até o lado do motorista.
— Entra no carro.
E eu entro.
Sem saber por quê.
Sem saber no que isso vai dar.
Só com aquele vazio estranho no peito — o mesmo que me acompanha desde sempre.