Capítulo 11

965 Palavras
"— Mamãe… olha o que eu fiz pra você. Eu puxo o papel de trás das costas, torcendo para que ela sorria dessa vez. — Você gostou mamãe? — é só um desenho infantil, desajeitado, mas sincero. — Essa sou eu… e essa é você, mamãe. Ela suspira, impaciente. — Mara, por favor. Não me aborreça com esses desenhos idiotas. O papel amassa na minha mão antes que eu perceba." --- — Me desculpe, senhor… mas eu não vou conseguir. — minha voz falha, as lágrimas queimam antes mesmo de caírem. Ele me observa por um segundo, sem raiva. — Tudo bem. Eu não vou te obrigar a nada. Eu queria conseguir. Mas não consigo. Não consigo me entregar a alguém que m*l sei o nome. Queria viver um romance igual aos que eu lia escondida, queria que meu corpo fosse tocado só por alguém que eu amasse. Mas eu aceitei esse trabalho. Eu sabia o que ele exigia. Ele deixa algumas notas em cima da cama. — Mas… eu nem fiz o que deveria — murmuro, confusa. — Mesmo assim, eu roubei seu tempo. — ele diz, antes de se virar para ir embora. — Obrigada — sussurro. Ele só acena e fecha a porta. --- Desço as escadas sentindo o peso do lugar nos meus ombros. As luzes coloridas, as risadas artificiais, o cheiro doce e pesado da noite. “Katy não está aqui. Deve ter ido para algum quarto.” E eu fico pensando no que fiz. No que deixei de fazer. Eu deveria ter dormido com ele. É isso que esperam de mim. — E aí? Como foi? — Katy pergunta quando saímos para o lado de fora do Elite Parlor. — Eu não dormi com ele. Ela só balança a cabeça, como se não fosse grande coisa. Mas quando eu explico, ela para de andar. — Por quê? Ele não queria? — Eu disse pra ele que não conseguiria. — Mara, pelo amor de Deus… Eu abaixo os olhos. — Ele era um estranho. Eu não quero fazer isso com estranhos. Quero fazer só com alguém que eu amar. Ela respira fundo, irritada. — Isso aqui não é conto de fadas. Você não pode rejeitar cliente. A Odette já avisou. Ela está certa. Eu sabia que seria assim. Eu quis acreditar que seria diferente, mas não foi. — Não vai acontecer de novo. Ela toca meu braço, de forma gentil. — Eu vou cuidar de você. Só faz o que eu digo. — Está bem, Katy. Ela me abraça sem avisar, firme, aconchegante. Eu abraço de volta, porque às vezes é a única coisa que me impede de desabar. — Vamos pra casa. Eu tô cansada. — ela diz, puxando minha mão. --- Dois dias se passaram. Nenhum cliente me escolheu. E o homem daquele dia não voltou. — Mara, você ainda não me contou nada sobre a sua vida— Katy comenta, mexendo no cabelo como se fosse algo simples. — É verdade… — dou um meio sorriso. — Por onde quer que eu comece? Ela pensa por um momento. — Por que você estava andando na rua com aquela mala quando nos conhecemos? O ar pesa. Eu não queria falar disso. Mas ela me ajudou quando ninguém mais ajudaria. — Minha ex-patroa me demitiu. Eu dormia na casa dela, então… não tinha pra onde ir. Katy faz um som de compreensão. — E os seus pais? Só de ouvir a palavra, meu peito aperta. — Minha mãe ainda está em vida, e quanto ao meu pai, não o conheci porque... — Desculpa, Mara. Eu balanço a cabeça. — A minha mãe nunca gostou de mim. Demorei a entender, mas agora eu entendi. Mas sempre amou a minha irmã. As lembranças vêm de repente. As perguntas que eu treinava no quarto para não deixá-la irritada. E nada funcionava. Eu sempre estava errada. Sempre fora de lugar. — Teve um dia em que eles saíram para um passeio em família — eu continuo, tentando manter a voz firme. — E eu fiquei sozinha em casa. Achei que ia junto. Mas… eu estava enganada. Sorrio sem humor. — Eu achava que fazia parte daquela família. Hoje eu vejo como eu era idiota... O Elite Parlor… Por pior que seja, estou me acostumando a ele. Talvez porque não tenho outro lugar para caber. Eu observo o salão, pessoas entrando e saindo como se nada tivesse peso. Então meus olhos param nele. Um homem que nunca vi ali. Bonito… mas existe algo mais. Algo contido, diferente. Eu não consigo desviar o olhar. — Ele é bonito, né? — Katy sussurra no meu ouvido, me assustando. Me viro para ela. — Onde você estava? — Com o meu querido, claro — ela sorri, apaixonada. — Você gosta mesmo dele? — Eu amo ele. — ela diz, sem hesitar. Quando olho de volta, o homem desapareceu. Procuro pelos cantos, mas ele sumiu tão rápido quanto apareceu. " Onde será que ele foi?" Katy volta ao trabalho, e eu fico ali, sentada, tentando entender por que aquele olhar ficou na minha memória. — Mara! — a voz firme de Odette corta o ar. Me levanto depressa. — Sim, senhora. Ela me encara por um instante. — Tem um cliente interessado em você. Ele já acertou tudo comigo. Está te esperando lá fora. Não faça ele esperar. — Tudo bem. Pego meu casaco e minha bolsa. O vento frio da noite me envolve assim que saio. Atravesso o estacionamento… e então vejo ele. O mesmo homem. Ele caminha até o lado do motorista. — Entra no carro. E eu entro. Sem saber por quê. Sem saber no que isso vai dar. Só com aquele vazio estranho no peito — o mesmo que me acompanha desde sempre.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR