Meus olhos estão fixos em Valerie enquanto tomo milk shake.
Ela me ignora, tomando seu café simples.
– Não deveria tomar essas coisas – diz após algum tempo.
– Posso saber por que? – Termino a bebida, deixando o copo de lado.
Tinha a impressão que havia tirado mais sangue do que o necessário e feitos exames que não tinha dúvida que poderiam até descobrir se iria para o céu ou inferno.
– Faz m*l à saúde e consequentemente fará m*l ao bebê.
– Não estou grávida ainda – dizer aquelas palavras me causava um certo arrepio. Era estranho me imaginar grávida de uma criança que não era minha.
– Mas em breve irá ficar e não quero que ingira certas coisas.
Reviro os olhos, voltando a olhá- la com mais atenção.
Valerie era aquele tipo de mulher que vivia uma vida de perfeição.
Vestia um vestido justo creme, com um suéter azul- claro amarrado nos ombros, o cabelo preto ondulado estava perfeitamente arrumado e a maquiagem era quase translúcida.
Era a mulher que todos os homens desejariam.
Com certeza recebia o marido após o expediente com um sorriso no rosto e um delicioso jantar, além é claro de ser perfeccionista em tudo.
Isso por alguma razão me fez fazer uma reflexão novamente á minha vida e, pude concluir em poucos segundos que nunca seria como ela.
– Por que quer tanto um bebê? – pergunto fugindo dos meus pensamentos.
Valerie respira fundo, pousando delicadamente a xícara no pires.
– Não parece ser óbvio? – Inclina a cabeça para o lado – Não posso ter filhos.
Franzo o cenho.
Ela parecia ter a vida perfeita e não podia ter filhos, penso.
– Por que então não adota? Li em uma revista que é bom para ambas as partes.
– Não seria a mesma coisa. Não seria meu e de Bruce – Valerie retoca o batom.
– Parece que vou ser a cegonha do casal – bato as mãos na mesa, forçando um sorriso.
– Está sendo muito bem recompensada por isso – Ela pega a bolsa, tirando de lá o dinheiro para pagar a conta – Agora vamos. Ainda tenho que trabalhar.
Obedeço me sentindo uma marionete.
Valerie me leva para casa de Dylan, não fazendo muita cerimônia ao abrir a porta. Respiro fundo quando a porta se fecha atrás de mim e encaro o silêncio ao meu redor.
Me jogo no sofá, ligando á TV em frente.
Não demorando para pegar no sono.
Pego uma folha de papel em branco, colocando– a cuidadosamente sobre a mesa de centro. Meus dedos deslizam sobre os lápis de cor ao lado, pegando uma cor não muito atraente.
Começo a desenhar o que logo vem á minha mente: uma família feliz.
Lize se mexe no bebê conforto, anunciando aos poucos que estava com fome. Olho para o relógio da parede impaciente, já fazia algum tempo que Ronan havia saído e logo Lize acordaria.
A porta bate na parede de repente ao ser aberta.
Desvio o olhar rapidamente para o papel quando vejo Ele entrar.
Ele caminha em passos largos até o quarto de mamãe.
– Levanta, vagabunda – Ele grita – Vá para a cozinha fazer alguma coisa pra mim.
Minha mão treme enquanto finjo indiferença.
A vejo sair do quarto abraçada no próprio corpo. Seus olhos vagam por alguns segundos por mim e Lize, ignorando talvez a ausência de Ronan. Caminhando em direção á cozinha, após colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Abro os olhos ao ouvir o toque insistente do celular de Dylan.
Dylan levanta da poltrona, ainda fardado, atendendo- o com um suspiro, após dar um gole na cerveja que segurava.
Havia dormido no sofá e não havia notado quando chegou.
– Alô? Oi, Valerie – Me arrumo no sofá, com os olhos dele em mim – Certo. Até mais – desliga, voltando a me fitar – É melhor ir tomar um banho.
– Posso saber por quê? – pergunto de mau humor.
– Valerie está vindo com Bruce.
Ele volta a atenção para a TV, terminando de virar o restante do líquido na boca.
Respiro fundo levantando á contra gosto.
No quarto encaro minhas opções de roupas.
Não havia nada a não ser às roupas de Dylan para vestir.
O que realmente era humilhante.
Depois de um banho e de escolher mais uma camiseta larga e uma calça quase o dobro do meu tamanho, me sinto pronta para aquela visita.
Ouço a campainha tocar no instante em que me vestia, os passos de Dylan são altos e claros até a porta.
– Sejam bem vindos a minha humilde residência – diz ele sarcasticamente.
Ouço os saltos abafados de Valerie no carpete.
– Trouxemos comida – diz Valerie, um breve silêncio se instala – Onde ela está? – pergunta apreensiva.
Saio do banheiro, caminhando até o fim do corredor.
– Estou aqui – digo fitando– a, desviando a atenção para o homem ao seu lado.
Arregalo os olhos dando um passo para trás. Acreditando veemente que o destino queria me ferrar.
Era o Chefe de Polícia Evans, Bruce, o marido de Valerie.
– Está tudo bem. Este é o Bruce, meu marido – Ela se apressa em dizer – Ele sabe do nosso acordo.
Meus olhos voltam para Bruce.
Ele me olha atentamente, o mesmo olhar de quando entrei em sua sala.
Bruce desvia o olhar.
– Vamos comer ou não? Estou morrendo de fome – diz Dylan, indo para a cozinha.
Valerie coloca uma travessa sob a mesa, pegando em seguida outra com Bruce.
Os olhos dele me acompanha, enquanto sento diante de um prato que Valerie coloca em minha frente.
Bruce senta à minha frente, os dedos tamborilam sob a mesa.
Valerie o serve, ele sorri levemente quando o prato é posto em sua frente.
– Então, como isso vai funcionar? – Dylan pergunta, dando algumas garfadas na comida.
Valerie olha para Bruce, esboçando em seguida um sorriso.
– A partir do resultado dos exames, saberemos se Clare poderá gerar o bebê.
– E teremos uma criminosa gerando nosso filho – diz Bruce com deboche, dando uma garfada na comida.
– Bruce – Ela o repreende.
Ele apoia os cotovelos na mesa, se apoiando para frente.
– Por quê simplesmente não aproveita esse “acordo" e me diz quem é o mandante por trás dos crimes?
Respiro pela boca, erguendo o queixo, apertando a faça em uma das mãos.
– Não é por isto que estou aqui e não sou obrigada á falar sobre isto – digo levantando.
Entro no quarto de hóspedes, ouvindo murmúrios nervosos vindo da cozinha.
Sento nos pés da cama, permanecendo lá por alguns minutos, até que Valerie entra no quarto com uma bandeja.
– Trouxe seu jantar – diz colocando a bandeja ao meu lado – É melhor comer – Depois disso deixa o quarto.
Deito na cama, encarando o teto branco.
Não demora muito, para que Dylan entre no quarto balançando às algemas.
– Preciso pôr as algemas – anuncia.
Não tinha um minuto de paz.
Suspiro, sentando com às costas apoiada na cabeceira.
– Está bem...– Estendo meu braço direito.
– Não vai comer? – Ele pergunta olhando para a bandeja intocada.
– Estou sem fome.
Dylan pega a bandeja, deixando o quarto.
Encaro a fresta da porta entre aberta, vencida pelo sono aos poucos.
– Faz essa menina parar de gritar!! – diz Ele gritando com mamãe.
Mamãe sai da cozinha, pegando ás pressas Lize que chorava faminta.
Ela a balança de um lado para o outro, cantarolando baixo algo, enquanto oferece um de seus s***s.
Lize se acalma e mamãe sorri pra ela, afagando seu cabelo.
Mas o sorriso de mamãe logo some, quando ele deixa a cozinha e desfivela o cinto.
– Vamos pro quarto – ordena.
Mamãe me olha, se aproximando para deixar Lize em meus braços.
Ela força um sorriso trêmula.
– Cuide de sua irmã – sussurra.
Aperto Lize contra meu peito, vendo– a dormir. Olhando para mamãe a tempo de vê– la entrar em seu quarto e Ele fechar a porta num baque.
– Ei.
Abro meus olhos, inspirando profundamente.
Dylan está diante da cama, vestido em seu pijama.
– O que foi? – pergunto confusa.
– Me diz você. Estava falando sozinha.
Sento passando minha mão livre no rosto e notando o suor acumulado.
– Tive um pesadelo – digo encerrando o assunto.
– Só tenta da próxima vez não assustar toda a vizinhança.
Apoio a cabeça na cabeceira, ignorando o sono convidativo.
Odiava aqueles pesadelos.
Odiava aqueles lembranças.
Odiava meu passado.
Se eu pudesse ter um acordo com o d***o para ele me livrar de todas essas coisas, sem dúvidas faria sem pensar duas vezes.
Éram cicatrizes e feridas difíceis de carregar e conviver.
Ronan sabia como lidar com elas e parecia estar se saindo muito bem.
Lizie não lembrava dos fatos e isto era mais do que bom.
Agora eu, sentia minha mente fudida e não só ela, mas minha vida também, por causa da droga de bagagem que tinha que carregar, apesar de querer a todo instante largar no meio da estrada.
Muitas vezes me dizia que precisava de um terapeuta. Entretanto, temia de enlouquecê-lo.
Toda aquela merda enlouqueceria qualquer pessoa.
Respiro fundo, me esforçando a ter novamente o controle sobre minha mente e minha respiração.
Colocando novamente tudo aquilo de volta em uma caixa no fundo da minha mente com correntes ao redor.
Era dessa forma que monstros deviam ficar.