encontraram p******o singular naquele colo duro da terra, escalavrado pelas tormentas, endurado pela
ossamenta rígida das pedras, ressequido pelas soalheiras, esvurmando espinheiras e caatingas. Ali se amorteciam,
caindo no vácuo das chapadas, onde ademais nenhuns indícios se mostravam dos minérios apetecidos, os arremessos
das bandeiras. A tapui-retama3
misteriosa ataviara-se para o estoicismo do missionário. As suas veredas multívias e
longas retratavam a marcha lenta, torturante e dolorosa dos apóstolos. As bandeiras que a alcançavam, decampavam
logo, seguindo, rápidas, fugindo, buscando outras paragens.
Assombrava-as a terra, que se modelara para as grandes batalhas silenciosas da Fé. Deixavam-na, sem que nada
lhes determinasse a volta; e deixavam em paz o gentio.
Daí a circunstância revelada por uma observação feliz, de predominarem ainda hoje, nas denominações
geográficas daqueles lugares, termos de origem tapuia resistentes às absorções do português e do tupi, que se
exercitaram noutros pontos. Sem nos delongarmos demais, resumamos às terras circunjacentes a Canudos a
exemplificação deste fato de linguagem, que tão bem traduz uma vicissitude histórica.
“Transpondo o S. Francisco em direção ao sul, penetra-se de novo numa região ingrata pela inclemência do céu,
e vai-se atravessando a bacia elevada do Vaza-Barris, antes de ganhar os trechos esparsos e mais deprimidos das
chapadas baianas que, depois do salto de Paulo Afonso, depois de Canudos e de Monte Santo, levam a Itiúba, ao
Tombador e ao Açuruá. Aí, nesse trecho do pátrio território, aliás dos mais ingratos, onde outrora se refugiaram os
perseguidos destroços dos Orizes, Procás e Cariris, de novo aparecem, designando os lugares, os nomes bárbaros de
procedência tapuia, que nem o português nem o tupi logrou suplantar.
Lêem-se então no mapa da região com a mesma freqüência dos acidentes topográficos os nomes como Pambu,
Patamoté, Uauá, Bendegó, Cumbe, Maçacará, Cocorobó, Jeremoabo, Tragagó, Canché, Xorroxó, Quincuncá,
Conchó, Centocé, Açuruá, Xiquexique, Jequié, Sincorá, Caculé ou Catolé, Orobó, Mocujé e outros, igualmente
bárbaros e estranhos.”1
É natural que grandes populações sertanejas, de par com as que se constituíram no médio S. Francisco, se
formassem ali com a dosagem preponderante do sangue tapuia. E lá ficassem ablegadas, evolvendo em círculo
apertado durante três séculos, até à nossa idade, num abandono completo, de todo alheias aos nossos destinos,
guardando, intactas, as tradições do passado. De sorte que, hoje, quem atravessa aqueles lugares observa uma
uniformidade notável entre os que os povoam: feições e estaturas variando ligeiramente em torno de um modelo
único, dando a impressão de um tipo antropológico invariável, logo ao primeiro lance de vistas distinto do mestiço
proteiforme do litoral. Porque enquanto este patenteia todos os cambiantes da cor e se erige ainda indefinidos,
segundo o predomínio variável dos seus agentes formadores, o homem do sertão parece feito por um molde único,
revelando quase os mesmos caracteres físicos, a mesma tez, variando brevemente do mamaluco bronzeado ao cafuz
trigueiro; cabelo corredio e duro ou levemente ondeado; a mesma envergadura atlética, e os mesmos caracteres
morais traduzindo-se nas mesmas superstições, nos mesmos vícios, e nas mesmas virtudes.
A uniformidade, sob estes vários aspectos, é impressionadora. O sertanejo do Norte é, inegavelmente, o tipo de
uma subcategoria étnica já constituída.
Um parêntese irritante
Abramos um parêntese...
A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo,
ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A
mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o n***o e o brasílio- guarani ou o tapuia exprimem estádios
evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um
estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço — traço de união entre as
raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares — é, quase sempre, um desequilibrado.
Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso, em tal caso, é incurável: não há
terapêutica para este embater de tendências antagonistas, de raças repentinamente aproximadas, fundidas num 46
organismo isolado. Não se compreende que após divergirem extremamente, através de largos períodos entre os quais
a história é um momento, possam dous ou três povos convergir de súbito, combinando constituições mentais
diversas, anulando em pouco tempo distinções resultantes de um lento trabalho seletivo. Como nas somas algébricas,
as qualidades dos elementos que se justapõem, não se acrescentam, subtraem-se ou destroem-se segundo os
caracteres positivos e negativos em presença. E o mestiço — mulato, mameluco ou cafuz — menos que um
intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais
superiores. Contrastando com a fecundidade que acaso possua, ele revela casos de hibridez moral extraordinários:
espíritos fulgurantes, às vezes, mas frágeis, irrequietos, inconstantes, deslumbrando um momento e extinguindo-se
prestes, feridos pela fatalidade das leis biológicas, chumbados ao plano inferior da raça menos favorecida. Impotente
para formar qualquer solidariedade entre as gerações opostas, de que resulta, reflete-lhes os vários aspectos
predominantes num jogo permanente de antíteses. E quando avulta — não são raros os casos — capaz das grandes
generalizações ou de associar as mais complexas relações abstratas, todo esse vigor mental repousa (salvante os
casos excepcionais cujo destaque justifica o conceito) sobre uma moralidade rudimentar, em que se pressente o
automatismo impulsivo das raças inferiores.
É que nessa concorrência admirável dos povos, evolvendo todos em luta sem tréguas, na qual a seleção
capitaliza atributos que a hereditariedade conserva, o mestiço é um intruso. Não lutou; não é uma integração de
esforços; é alguma cousa de dispersivo e dissolvente; surge, de repente, sem caracteres próprios, oscilando entre
influxos opostos de legados discordes. A tendência à regressão às raças matrizes caracteriza a sua instabilidade. É a
tendência instintiva a uma situação de equilíbrio. As leis naturais pelo próprio jogo parecem extinguir, a pouco e
pouco, o produto anômalo que as viola, afogando-o nas próprias fontes geradoras. O mulato despreza então,
irresistivelmente, o n***o e procura com uma tenacidade ansiosíssima cruzamentos que apaguem na sua prole o
estigma da fronte escurecida; o mamaluco faz-se o bandeirante inexorável, precipitando-se, ferozmente, sobre as
cabildas aterradas...
Esta tendência é expressiva. Reata, de algum modo, a série contínua da evolução, que a mestiçagem partira. A
raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos e estes, procurando-a, obedecem
ao próprio instinto da conservação e da defesa. É que são invioláveis as leis do desenvolvimento das espécies; e se
toda a sutileza dos missionários tem sido impotente para afeiçoar o espírito do selvagem às mais simples concepções
de um estado mental superior; se não há esforços que consigam do africano, entregue à solicitude dos melhores
mestres, o aproximar-se sequer do nível intelectual médio do indo-europeu — porque todo o homem é antes de tudo
uma integração de esforços da raça a que pertence e o seu cérebro uma herança, — como compreender-se a
normalidade do tipo antropológico que aparece, de improviso, enfeixando tendências tão opostas?
Uma raça forte
Entretanto a observação cuidadosa do sertanejo do Norte mostra atenuado esse antagonismo de tendências e uma
quase fixidez nos caracteres fisiológicos do tipo emergente.
Este fato, que contrabate, ao parecer, as linhas anteriores, é a sua contraprova frisante.
Com efeito, é inegável que para a feição anormal dos mestiços de raças mui diversas contribui bastante o fato de
acarretar o elemento étnico mais elevado mais elevadas condições de vida, de onde decorre a acomodação penosa e
difícil para aqueles. E desde que desça sobre eles a sobrecarga intelectual e moral de uma civilização, o desequilíbrio
é inevitável.
A índole incoerente, desigual e revolta do mestiço, como que denota um íntimo e intenso esforço de eliminação
dos atributos que lhe impedem a vida num meio mais adiantado e complexo. Reflete — em círculo diminuto — esse
combate s***o e formidável, que é a própria luta pela vida das raças, luta comovedora e eterna caracterizada pelo
belo axioma de Gumplowicz como a força motriz da história. O grande professor de Gratz não a considerou sob este
aspecto. A verdade, porém, é que se todo o elemento étnico forte “tende subordinar ao seu destino o elemento mais
fraco ante o qual se acha”, encontra na mestiçagem um caso perturbador. A expansão irresistível do seu círculo 47
singenético, porém, por tal forma iludida, retarda-se apenas. Não se extingue. A luta transmuda-se, tornando-se mais
grave. Volve do caso vulgar, do extermínio franco da raça inferior pela guerra, à sua eliminação lenta, à sua absorção
vagarosa, à sua diluição no cruzamento. E durante o curso deste processo redutor, os mestiços emergentes, variáveis,
com todas as mudanças da cor, da forma e do caráter, sem feições definidas, sem vigor, e as mais das vezes
inviáveis, nada mais são, em última análise, do que os mutilados inevitáveis do conflito que perdura, imperceptível,
pelo correr das idades.
É que neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização.
Ora os nossos rudes patrícios dos sertões do Norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve
função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social superior, e, simultaneamente, evitou que
descambassem para as aberrações e vícios os meios adiantados.
A fusão entre eles operou-se em circunstâncias mais compatíveis com os elementos inferiores. O fator étnico
preeminente transmitindo-lhes as tendências civilizadoras não lhes impôs a civilização.
Este fato destaca fundamentalmente a mestiçagem dos sertões da do litoral. São formações distintas, senão pelos
elementos, pelas condições do meio. O contraste entre ambas ressalta ao paralelo mais simples. O sertanejo tomando
em larga escala, do selvagem, a i********e com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo
potente, reflete, na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas aqueles atributos mais ajustáveis à sua
fase social incipiente.
É um retrógrado; não é um degenerado. Por isto mesmo que as vicissitudes históricas o libertaram, na fase
delicadíssima da sua formação, das exigências desproporcionadas de uma cultura de empréstimo, prepararam-no para
a conquistar um dia.
A sua evolução psíquica, por mais demorada que esteja destinada a ser, tem, agora, a garantia de um tipo
fisicamente constituído e forte. Aquela raça cruzada surge autônoma e, de algum modo, original, transfigurando, pela
própria combinação, todos os atributos herdados; de sorte que, despeada afinal da existência selvagem, pode alcançar
a vida civilizada por isto mesmo que não a atingiu de repente.
Aparece logicamente.
Ao invés da inversão extravagante que se observa nas cidades do litoral, onde funções altamente complexas se
impõem a órgãos m*l constituídos, comprimindo-os e atrofiando-os antes do pleno desenvolvimento — nos sertões a
integridade orgânica do mestiço desponta inteiriça e robusta, imune de estranhas mesclas, capaz de evolver,
diferenciando-se, acomodando-se a novos e mais altos destinos, porque é a sólida base física do desenvolvimento
moral ulterior.
Deixemos, porém, este divagar pouco atraente.
Prossigamos considerando diretamente a figura original dos nossos patrícios retardatários. Isto sem método,
despretensiosamente, evitando os garbosos neologismos etnológicos.
Faltaram-nos, do mesmo passo, tempo e competência para nos enredarmos em fantasias psíquico-geométricas,
que hoje se exageram num quase materialismo filosófico, medindo o ângulo facial, ou traçando a norma verticalis
dos jagunços.
Se nos embaraçássemos nas imaginosas linhas dessa espécie de topografia psíquica, de que tanto se tem
abusado, talvez não os compreendêssemos melhor. Sejamos simples copistas.
Reproduzamos, intactas, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente,
acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles
desconhecidos singulares, que ali estão — abandonados — há três séculos.
III
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. 48
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o
desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O
andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agravao a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A
pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o
animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da
sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear
característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo
motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeiramente conversa com um amigo, cai
logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o
seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um
tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no
andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-lo desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se,
em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das
energias ador- mecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e
no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e
corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e
da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e
potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.
Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida
sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.
É impossível idear-se cavaleiro mais chucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria,
tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e
maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas
chapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o campeão que cavalga na rede
amolecedora em que atravessa dous terços da existência.
Mas se uma rês alevantada envereda, esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao
longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas da
montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.
Vimo-lo neste steeple chase bárbaro.
Não há contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moitas de
espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque por onde passa o boi
passa o vaqueiro com o seu cavalo...
Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças à pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de
um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando valos e
ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida,
no largo dos tabuleiros...
A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que
empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustendo-o nas rédeas improvisadas de caroá, suspendendo-o nas
esporas, arrojando-o na carreira — estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado
no arção, — escanchado no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça
quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao 49
embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando
sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos
cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoado em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios
obstáculos à travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado,
outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta, com a aparência triste de um inválido
esmorecido.
Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho
O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado.
O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equiparálo. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa
que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da
dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o
entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo
calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranqüilas da felicidade, a
preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando
a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão,
despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas
pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente
desdobrada.
As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede
talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam
em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das
árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando
as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda, encarnado, ao pescoço;
coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca
— é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo.
Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado, está
decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.
O vaqueiro
O vaqueiro, porém, criou-se em condições opostas, em uma intermitência, raro, perturbada, de horas felizes e
horas cruéis, de abastança e misérias — tendo sobre a cabeça, como ameaça perene, o Sol, arrastando de envolta no
volver das estações períodos sucessivos de desvastações e desgraças.
Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes. Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o,
logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão. Cedo encarou a
existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas,
exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias.
Fez-se forte, esperto, resignado e prático.
Aprestou-se, cedo, para a luta.
O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma
armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando
as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em 50
joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado — é como a forma
grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo.
Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não
rebrilha ferida pelo Sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias...
A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os
apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro resistente, cobrindo as ancas do
animal, peitorais que lhe resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas às juntas.
Este equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam,
incólumes, as caatingas e os pedregais cortantes.
Nada mais monótono e f**o, entretanto, do que esta vestimenta original, de uma só cor — o pardo avermelhado
do couro curtido — sem uma variante, sem uma lista sequer diversamente colorida. Apenas, de longe em longe, nas
raras encamisadas, em que aos descantes da viola o matuto deslembra as horas fatigadas, surge uma novidade — um
colete vistoso de pele de gato do mato ou de suçuarana com o pêlo mosqueado virado para fora, ou uma bromélia
rubra e álacre fincada no chapéu de couro.
Isto, porém, é incidente passageiro e raro.
Extintas as horas do folguedo, o sertanejo perde o desgarre folgazão — largamente expandido nos sapateados,
em que o estalo seco das alpercatas sobre o chão se parte nos tinidos das esporas e soalhas dos pandeiros,
acompanhando a cadência das violas vibrando nos rasgados — e cai na postura habitual, tosco, deselegante e
anguloso, num estranho manifestar de desnervamento e cansaço extraordinários.
Ora, nada mais explicável do que este permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e
longos intervalos de apatia.
Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra, o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de
reveses. Afez-se, cedo, a encontrá-los, de chofre, e a reagir, de pronto.
Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de
tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre
para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer; passando da máxima quietude à máxima agitação; da
rede preguiçosa e cômoda para o lombilho duro, que o arrebata, como um raio, pelos arrastadores estreitos, em
busca das malhadas. Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia — passiva ante o
jogo dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos
desertos incendidos, sob o reverberar dos estios abrasantes.
É inconstante como ela. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. Ela o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso,
abrupto...
O gaúcho
O gaúcho, o pealador valente, é certo, inimitável numa carga guerreira; precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos
clarins vibrantes, pelos pampas, como o conto da lança enristada, firme no estribo; atufando-se loucamente nos
entreveros; desaparecendo, com um grito triunfal, na voragem do combate, onde espadanam cintilações de espadas;
transmudando o cavalo em projétil e varando quadrados e levando de rojo o adversário no rompão das ferraduras, ou
tombando, preste, na luta, em que entra com despreocupação soberana pela vida.
O jagunço
O jagunço é menos teatralmente heróico; é mais tenaz; é mais resistente; é mais perigoso; é mais forte; é mais
duro.
Raro assume esta feição romanesca e gloriosa. Procura o adversário com o propósito firme de o destruir, seja
como for. 51
Está afeiçoado aos prélios obscuros e longos, sem expansões entusiásticas. A sua vida é uma conquista
arduamente feita, em faina diuturna. Guarda-a como capital precioso. Não esperdiça a mais ligeira contração
muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do resultado. Calcula friamente o pugilato. Ao riscar da faca
não dá um golpe em falso. Ao apontar a lazarina longa ou o trabuco pesado, dorme na pontaria...
Se ineficaz o arremesso fulminante, o contrário enterreirado não baqueia, o gaúcho, vencido ou pulseado, é
fragílimo nas aperturas de uma situação inferior ou indecisa.
O jagunço, não. Recua. Mas no recuar é mais temeroso ainda. É um negacear demoníaco. O adversário tem,
daquela hora em diante, visando-o pelo cano da espingarda, um ódio inextinguível, oculto no sombreado das
tocaias...
Os vaqueiros
Esta oposição de caracteres acentua-se nas quadras normais.
Assim todo sertanejo é vaqueiro. À parte a agricultura rudimentar das plantações da vazante pela beira dos rios,
para a aquisição de cereais de primeira necessidade, a criação de gado é, ali, a sorte de trabalho menos impropriada
ao homem e à terra.
Entretanto não há vislumbrar nas fazendas do sertão a azáfama festiva das estâncias do Sul.
Parar o rodeio é para o gaúcho uma festa diária, de que as cavalhadas espetaculosas são ampliação apenas. No
âmbito estreito das mangueiras ou em pleno campo, ajuntando o gado costeado ou encalçando os bois esquivos, pelas
sangas e banhados, os pealadores, capatazes e peões, preando à ilhapa dos laços o potro bravio, ou fazendo tombar,
fulminando pelas bolas silvantes, o touro alçado, nas evoluções rápidas das carreiras, como se tirassem argolinhas,
seguem no alarido e na alacridade de uma diversão tumultuosa. Nos trabalhos mais calmos, quando nos rodeios
marcam o gado, curam-lhe as feridas, apartam os que se destinam às charqueadas, separam os novilhos tambeiros ou
escolhem os baguais condenados às chilenas do domador, — o mesmo fogo que encandesce as marcas dá as brasas
para os ágapes rudes de assados com couro ou ferve a água para o chimarrão amargo.
Decorre-lhes a vida variada e farta.
Servidão inconsciente
O mesmo não acontece ao Norte. Ao contrário do estancieiro, o fazendeiro dos sertões vive no litoral, longe dos
dilatados domínios que nunca viu, às vezes. Herdaram velho vício histórico. Como os opulentos sesmeiros da
colônia, usufruem, parasitariamente, as rendas das suas terras, sem divisas fixas. Os vaqueiros são-lhes servos
submissos.
Graças a um contrato pelo qual percebem certa percentagem dos produtos, ali ficam, anônimos — nascendo,
vivendo e morrendo na mesma quadra de terra — perdidos nos arrastadores e mocambos; e cuidando, a vida inteira,
fielmente, dos rebanhos que lhes não pertencem.
O verdadeiro dono, ausente, conhece-lhes a fidelidade sem par. Não os fiscaliza. Sabe-lhes, quando muito, os
nomes.
Envoltos, então, no traje característico, os sertanejos encourados erguem a choupana de p*u-a-pique à borda das
cacimbas, rapidamente, como se armassem tendas; e entregam-se, abnegados, à s******o que não avaliam.
A primeira cousa que fazem, é aprender o a b c e, afinal, toda a exigência da arte em que são eméritos: conhecer
os ferros das suas fazendas e os das circunvizinhas. Chamam-se assim os sinais de todos os feitios, ou letras, ou
desenhos caprichosos como siglas, impressas, por tatuagem a fogo nas ancas do animal, completados pelos cortes,
em pequenos ângulos, nas orelhas. Ferrado o boi, está garantido. Pode romper tranqueiras e tresmalhar-se. Leva,
indelével, a indicação que o reporá na solta1
primitiva. Porque o vaqueiro, não se contentando com ter de cor os
ferros de sua fazenda, aprende os das demais. Chega, às vezes, por extraordinário esforço de memória a conhecer,
uma por uma, não só as reses de que cuida, como as dos vizinhos, incluindo-lhes a genealogia e hábitos