Capítulo 03: Depois do Luar.

1165 Palavras
Narrador: Asterfall, manhã. A primeira sensação que Klara tem ao despertar é o peso. Não o peso do corpo que está esgotado, dolorido e latejante, mas o peso invisível da culpa, que sempre desaba sobre ela quando a lua finalmente se põe. A escuridão da torre ainda permanece, tingida por um leve cinza azul de amanhecer, e o ar tem cheiro de pedra fria… e sangue. Ela fecha os olhos com força, tentando não recordar, mas as memórias vêm; sempre vêm. O rugido, o impacto contra as paredes, a fome, o descontrole e, por fim, o vazio. Klara inspira devagar, sentindo o gosto metálico na boca, e tenta mover o braço. Um gemido quase inaudível escapa quando a dor percorre todo o lado direito do corpo. Costelas quebradas, talvez. Sempre quebradas, sempre se quebrando para se refazer. A maldição nunca tinha piedade. — Alteza? — a voz de Elora soa hesitante, contida. — Posso entrar? Klara tenta responder, mas a garganta arde. Só consegue emitir um som rouco, baixo. Deve ter sido o suficiente, porque a tranca runica brilha, desfazendo-se, e a porta abre com um estalo leve. Elora entra devagar, como se receasse encontrar monstros ainda ali dentro e talvez, de certa forma, encontrasse. A serva deixa escapar um ar sufocado ao ver a princesa caída ao lado da cama, enrolada num cobertor rasgado, a pele marcada por hematomas azul-arroxeados, escoriações e marcas profundas das próprias garras. — Deuses… Klara… — Elora deixa a bacia com água no chão, ajoelhando-se rapidamente ao lado dela. — Eu já disse ao rei que essa noite seria mais forte. A lua ficou mais alta… mais brilhante… Não devia ter ficado sozinha. Klara abre os olhos aos poucos, vendo apenas a forma borrada da amiga. Sua voz sai falha: — Eu sempre fico sozinha. Elora engole a dor que sente ao ouvir aquilo e, cuidadosamente, passa o braço por baixo dos ombros da princesa, ajudando-a a se sentar. Klara solta um suspiro dolorido, o corpo trêmulo, suado e frio. — Vou trazer mais cobertores — Elora diz, a voz trêmula. — Você está gelada. — Estou sempre gelada depois — Klara murmura. — É como se… a lua levasse tudo de mim. Calor, energia, alma… tudo. Elora não responde. Não há nada para dizer. Já tentou centenas de vezes oferecer palavras de conforto, mas Klara conhece a verdade melhor do que qualquer um: não havia cura. Não havia perdão. Não havia futuro. A serva molha um pano na água morna e começa a limpar o sangue seco no rosto da princesa. Klara fecha os olhos, deixando-se cuidar como uma criança quebrada. A água escorre pelo queixo, e por um breve instante ela sente algo parecido com paz. — Alguma lembrança da noite? — Elora pergunta com cautela. Klara hesita. Sempre hesita., porque as lembranças da fera não são memórias lineares; são sensações misturadas com instintos, flashes de luz, cheiro de caça. — Poucas — sussurra, a voz arranhada. — Só ruído… paredes… e… alguém lá fora. Acho que ouvi vozes. Elora para por um segundo. — Não houve incidentes no pátio interno — ela diz rapidamente. Rápido demais. Klara abre os olhos, encarando-a. — Elora… o que estão escondendo de mim agora? A serva respira fundo, desviando o olhar. — Nada que você precise carregar junto ao que já carrega — responde. Era a mesma resposta de sempre. Klara fecha os olhos, exausta demais para contestar. E quando tenta mudar de posição, o corpo inteiro protesta. — O rei… já esteve aqui? — pergunta, sabendo a resposta. Elora hesita. — Veio antes do amanhecer. Mas… não quis acordá-la. Deixou isto. A serva pega uma caixa pequena deixada sobre a mesa de madeira. Dentro, um par de pulseiras douradas com runas de contenção, fracas, mas belas. Um presente cheio de significado, mas também cheio de medo. Klara sente o velho aperto no peito. — Mais correntes disfarçadas de presente — murmura, amargo. Elora abaixa a cabeça, sem saber como responder. O silêncio entre elas é quebrado por um novo som. Dedos batendo na porta, uma batida firme, autoritária, mas não agressiva. Elora empalidece. — É o rei — anuncia, levantando-se depressa. Klara se encolhe instintivamente. O que seu pai viria dizer hoje? Que ela deve ficar ainda mais escondida? Que outra ala do castelo será interditada? Que mais aldeões estão com medo demais para saírem à noite? A porta se abre. O Rei Aldebran entra, com olheiras profundas, expressão tensa e o manto pesado arrastando pelo chão. Ele parece ter envelhecido vinte anos em uma noite. O olhar dele percorre a filha… e se estilhaça um pouco mais. — Klara… Ela tenta se levantar, mas o rei ergue uma mão, impedindo. — Não. Não faça esforço. Se aproxima devagar, como quem se aproxima de algo sagrado e quebrado ao mesmo tempo. Ajoelha-se ao lado dela, ignorando completamente o peso da coroa. — A lua foi c***l esta noite — diz, tocando o rosto dela com a ponta dos dedos. — Como todos os meses… Klara fecha os olhos, cansada demais até para chorar. — Quantas pessoas eu feri? — pergunta, sem rodeios. O rei endurece o maxilar. — Nenhuma. Como sempre, está segura. Eu te juro isso. Ela sabe que ele mente. Não sobre ter ferido alguém, mas sobre o que “segura” realmente significa. Sobre quantas camadas de soldados e magia são necessárias para que ela exista sem destruir o mundo ao redor. Aldebran inspira fundo. — Hoje haverá reunião no grande salão. — Sua voz ganha uma gravidade diferente. — Os guerreiros do norte chegaram esta madrugada. Entre eles… o novo líder. Klara ergue o rosto, não entendendo. — E por que isso importa para mim? O rei hesita e esse hesitar diz muito. — Porque ele é um alfa poderoso, perspicaz… e já está fazendo perguntas demais. Klara sente um arrepio subir pela espinha. Não de medo da fera dentro dela, mas de alguém de fora. — O que ele quer saber? O rei pressiona a mão sobre a dela. — Tudo o que não pode saber. Silêncio. Pesado. Ansioso. E então Aldebran diz algo que faz o sangue gelado de Klara ficar ainda mais frio: — Adam olhou para a ala da torre esta manhã… como se sentisse algo. Como se… farejasse o que está escondido aqui. Elora estremece. O rei fecha os olhos e Klara fica em choque. Porque, por um instante, a fera dentro dela, mesmo enfraquecida, rosna, como se reconhecesse aquele nome, como se chamasse por ele. Klara sente seu coração acelerar, mesmo exausto. E sussurra, assustada: — Pai… eu acho que ele não deveria se aproximar de mim. O rei aperta sua mão. — Eu também acho. Mas alfas curiosos… nunca ficam longe por muito tempo. Klara engole seco, sentindo a verdade pesar na alma. E pela primeira vez em anos… tem medo não da fera dentro dela. Mas do que acontecerá quando Adam descobrir que ela existe.
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