Capítulo 05: Reconhecendo

1209 Palavras
Klara Narrando: Torre do Castelo Eu achava que conhecia todos os sons do meu mundo, o ranger da madeira da torre quando o vento mudava, o estalar distante das runas se ajustando ou o silêncio pesado depois da lua. Mas o som que ouvi depois que a porta se fechou… Esse eu não conhecia. Passos. Não se afastando ou apressados, nem ao menos nervosos. Eram firme, plantados no chão do outro lado da porta e ali ficou. Meu coração disparou tão forte que doeu mais do que as costelas quebradas. Eu me arrastei para trás, até minhas costas baterem na parede fria, os dedos cravados no chão como se isso pudesse me ancorar à realidade. Respira, Klara. Respira. Mas algo em mim não queria respirar, algo que queria avançar. A fera, aquela presença que nunca ia embora por completo, se mexeu dentro do meu peito, despertando de um torpor irritado. Não era como nas noites de lua. Não havia dor lancinante, nem ruptura de ossos e nem aquele vazio enlouquecedor. Era diferente. Era… alerta. Ela não rugia de fúria. Ela não gritava por sangue. Ela apenas escutava. E então encostei a testa nos joelhos, tentando me fazer pequena, invisível, inexistente. Mas o cheiro dele, mesmo através da madeira, da magia, das rumas, já tinha me alcançado. Metal, terra, fumaça distante e algo quente, profundo, estável. Alfa. Nunca estive tão perto de um, nunca tão consciente do que isso significava. — Vá embora… — murmurei, sem saber se falava com ele ou comigo mesma. Do outro lado da porta, o silêncio se esticou. Longo demais. Denso demais. Como se o próprio castelo estivesse escutando. Então a voz veio de forma grave, baixa e controlada. — Não vou forçar a porta. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Um arrepio percorreu minha espinha, e senti o lobo dentro de mim erguer a cabeça, atento. Ele ouviu, ele respondeu e eu fechei os olhos com força. — Você não devia estar aqui — eu disse, a voz saindo mais fraca do que eu queria. Outro silêncio. Depois, o som de tecido se movendo. Um peso mudando de posição, mostrando que ele se sentou do outro lado da porta. — Também disseram isso quando eu cheguei ao reino — respondeu. — Mas continuo aqui. Engoli seco. Não reconhecia aquela voz, nunca a ouvira antes. Mas algo nela… algo no ritmo, na calma forçada, na contenção… fazia meu peito apertar de um jeito estranho. — Quem é você? — perguntei, antes que pudesse me impedir. Ele demorou a responder. Como se escolhesse as palavras. — Adam. Só isso. O nome atravessou minha mente como um estalo. Adam. O mesmo nome que meu pai mencionara com tensão, que fez Elora ficar rígida e que fez a fera… reagir. Meus dedos se fecharam no tecido do vestido rasgado. — Você não deveria saber meu nome — ele acrescentou, mais baixo. — Mas eu sei que você está aí. Meu estômago afundou. — Eu… — minha voz falhou. — Você está enganado. — Não estou. Simples. — Convicto. Como se ele raramente errasse. — O cheiro... — ele continuou, e senti meu rosto queimar. — Não é de fera solta no reino, vem daqui e sempre veio. Meu corpo inteiro ficou tenso. A fera dentro de mim se agitou, inquieta, mas… não agressiva. Curiosa. — Se sabe disso — sussurrei — então sabe que deve ir embora. — Sei que você está ferida — ele disse. Congelei. — O cheiro de sangue ainda está forte. — A voz dele ficou mais baixa, quase cuidadosa. — E você está tentando parecer menor do que é. Minhas unhas cravaram na pele do braço. — Não finja que se importa. — Não estou fingindo. A resposta veio rápido demais. Instintiva demais. O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era pesado e nem ameaçador, mas era carregado de algo. A fera se mexeu dentro de mim de novo. Não como um monstro enjaulado. Mas como algo que… reconhecia território. Reconhecia força e isso me apavorou. — Você precisa ir — eu disse, sentindo o peito apertar. — Antes que eu… antes que isso piore. — Vai piorar se eu ficar? A pergunta foi genuína. Não havia provocação nela. — Tudo piora quando alguém chega perto de mim — respondi. — É assim que funciona. Ele não falou nada por alguns segundos. Ouvi apenas a respiração dele, era profunda e regular. — Não parece verdade. Fechei os olhos, sentindo lágrimas ameaçarem cair. — Você não sabe do que está falando. — Então me diga. Eu ri. Um som curto, sem humor. — Não posso. — Por quê? Porque se eu disser, você vai me olhar como todos os outros. Porque se souber, vai querer me destruir ou me usar. Porque se souber, não vai mais me ouvir assim, mas não disse nada disso. — Porque não sobrevivo à curiosidade das pessoas — respondi. Do outro lado da porta, Adam soltou um suspiro lento. — Eu também não. A frase me pegou desprevenida, mas antes que eu pudesse responder, algo aconteceu. Não do lado de fora. Dentro de mim. A fera se aproximou da superfície, não de forma violenta, não descontrolada. Apenas… presente. Como se estivesse sentada, escutando a conversa junto comigo. Senti meu pulso aquecer. Meu coração bater mais firme. Minha respiração se alinhar com algo que não era só meu. — Isso… — murmurei, assustada. — Isso não deveria estar acontecendo. — O quê? — ele perguntou imediatamente. — Ela — engoli seco. — Ela está acordada. O silêncio do outro lado da porta se tornou absoluto. — A fera? Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver. — Normalmente, quando acordo assim, dói. Muito. — Passei a mão pelo peito. — Agora… não dói. Meu coração disparou. — Isso nunca aconteceu. Adam não respondeu de imediato. Quando falou, a voz estava diferente. Mais baixa. Mais firme. — Talvez porque você não esteja sozinha agora. As palavras bateram em mim como um golpe. — Não diga isso — sussurrei. — Não me dê ideias que não posso sustentar. — Não estou prometendo nada — ele respondeu. — Só estou aqui. A fera dentro de mim se acomodou. Não dormiu. Mas também não atacou. E isso… isso era novo, assustadoramente novo. Passos ecoaram no corredor ao longe. Vozes. Guardas. Adam se levantou. — Vão me chamar — disse. — Seu pai não gosta que eu fique perto desta porta. Meu peito apertou de forma irracional. — Você… — hesitei. — Vai contar a ele? Ele ficou em silêncio por um instante. — Vou dizer que há algo vivo aqui — respondeu. — E que não é um monstro. Lágrimas finalmente escorreram. — Obrigada — sussurrei, sem saber por quê. Antes de ir, ele disse: — Eu volto. O som dos passos dele se afastando deveria ter trazido alívio. Mas só deixou vazio. A fera dentro de mim soltou um som baixo. Não um rosnado, mas um lamento e eu percebi, co. m um medo profundo se espalhando pelo meu peito, que algo havia mudado. Não no reino, não na torre. Mas em mim. Porque, pela primeira vez, a fera não queria escapar. Ela queria ficar... Com ele.
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