Vernon, Texas
Junho de 2018
Mais um dia amanhecia quente, escaldante e beirando o clima infernal, segundo todo e qualquer morador com o mínimo de consciência daquela que era a muitíssimo pequena e pacata cidade de Vernon. Dominic aproveitava a folga de suas aulas na Universidade para passar uns dias com o irmão enquanto tocavam melhor os negócios que tinham juntos:
- Quando foi que você dormiu direito, homem? – Dom encara o irmão atirado de qualquer jeito no sofá do pequeno apartamento sobre a oficina – Fala sério, cara, você está um lixo.
- Mãe – ele grita, acusando o mais velho – está me julgando?
- Acho que precisa se cuidar um pouco mais – o outro diz – dormir direito, comer direito... Quem sabe sair lá fora, pegar um sol.
- Eu odeio sol – responde Austin em um rosnado.
- E o que você quer? – pergunta o irmão.
- Acho que eu quero o que eu sempre quis, a minha vida inteira – o outro responde.
- Ainda está falando sobre encontrar a garota? – Dom parece não acreditar no que escuta – Sabe que estamos há meses procurando, não sabe?
- Eu sei – Austin esfrega o rosto com as mãos e levanta do sofá, caminhando lentamente em direção ao banheiro – mas eu sei que uma hora ou outra, nós vamos conseguir.
- Tudo bem – Don concorda – conseguimos fechar mais um contrato de publicidade dentro do aplicativo – ele diz – aquela marca das balinhas que você gosta...
- Acho que criamos um monstro – brinca Austin.
- Logo as pessoas vão usar o Shooting Stars para pedir sabores novos de balinhas – diz Dom.
- Vou trabalhar em uma solução para empresas – Austin diz saindo do banheiro, ainda com a escova de dentes na mão – imagina o impacto que os desejos dos clientes não podem gerar sobre produtos e serviços...
- Eu já falei que você é um gênio, não falei? – Dom diz.
Ambos ficam em silêncio ao ouvir passos apressados nas escadarias. Alguém bate na porta, uma voz feminina um tanto estridente grita “Austin” por duas vezes, até que este enfia uma bermuda e abre a porta:
- Maddie – ele diz surpreso.
- Bom dia – ela diz entrando, sem nem mesmo ser convidada – e esse deve ser o seu irmão, não é mesmo? Dominic?
- Isso mesmo – ele responde, estendendo a mão para a garota – eu sou o Dom.
- Maddie Cooper – ela responde e lhe sorri, para logo voltar-se para Austin, ignorando a presença do outro homem na sala – eu vim até aqui dizer que sua mãe está beirando a insanidade – ela diz – pelo amor de Deus, Austin, o que disse para ela?
- Eu? – ele pergunta – Eu não disse nada...
- Ela acha que o filho é seu – Maddie diz quase histérica – e nós dois sabemos bem que não é eu só não sei porque é que ela acha que é.
- Não dê ouvidos à ela – Austin diz em tom de súplica – eu lamento muito por isso, Maddie.
- Lamentamos – ela diz – com toda essa conversa, pode ser que a cidade veja você como um irresponsável pai que não quer assumir um bebê e blá blá blá – ela ri – reatei o meu noivado estamos pulando fora desse fim de mundo.
- Está falando sério? – Austin pergunta.
- Nunca falei tão sério em toda a minha vida, Austin – ela responde – e fica suave, se a sua mãe quiser ela pode pedir um exame de DNA depois que o bebê nascer e tudo fica esclarecido, só vim contar para você caso pensasse que eu estava fugindo...
- Não deixa de estar – Austin ri – eu fico feliz por estarem se acertando e mais feliz ainda porque vai sair desse fim de mundo.
- Você deveria ir também, agora que as coisas ficaram esclarecidas – ela diz.
- Do que está falando? – pergunta Austin.
- O julgamento final... – ela encara o homem incrédula – pelo amor de Deus, homem, não lê o jornal?
- Eu não ... – ele suspira e sacode a cabeça, em negação – não, eu não costumo ler.
Ela nem mesmo responde, só resmunga algo sobre como ele estava sendo totalmente negligente com a sua própria imagem e mais umas baboseiras, para logo pendurar-se no pescoço dele, beijar sua bochecha e sair tão rapidamente quando havia entrado.
- Acabei de ver – Dom entrega o tablet ao irmão, onde a notícia sobre o julgamento estar encerrado e a decisão sobre a sua inocência ser unânime – acho que você está oficialmente de volta ao jogo, bonitão.
- Acho que eu vou esperar a repercursão disso antes de anunciar o meu retorno - Austin discorda - mas de toda forma, é bom saber que a justiça prevaleceu na América, mais uma vez - ele anuncia solene - acho que há tempos que eu não tenho assim, tantas boas novas para comemorar.
Era um dia bem memorável: um novo contrato, mais uma possibilidade de lucrar com o aplicativo. A exclusão da possibilidade de ser o pai do filho da Maddie – não que isso fosse tão r**m, mas o momento era terrível – e ainda, para fechar com chave de ouro aquela quarta feira, sua inocência provada e acatada por decisão unanime e judicial, sem mais prejuízos à sua brilhante carreira que, muito em breve, voltaria a estar em ascensão... E isso tudo, antes mesmo do meio dia. Claro que o dia – e a semana - só ficaria perfeito, de toda a forma, quando ele finalmente encontrasse Ellie, uma parte dele ainda se sentia um tanto incompleta.
Austin tentou não ser rude com a mãe, Nancy, quando o assunto era o bebê de Maddie Cooper, mas acabou exaltando-se um pouco – na verdade bastante – a ponto de que a mãe fechou a porta da cozinha em seu rosto e disse que, se ele tivesse sorte, teria bolo de carne para o jantar. Ele nem mesmo quis saber o que aconteceria caso tivesse azar...
- Ingrato – ela reclama enquanto caminha por dentro da cozinha preparando o jantar – eu só estava preocupada, pensando no que era melhor para a moça e o bebê...
- Ignore a sua mãe – Thom diz enquanto leva cervejas para a sala – ela esta um pouco decepcionada porque não é dessa vez que ela vai ser avó.
- Eu ouvi isso, Thomas - ela grita da cozinha.
E mesmo que ela estivesse um pouco sentida, acabou relevando em honra ao que tinham para comemorar, apesar é claro, de ela não concordar em comemorar o fato do bebê não ser de Austin, ela acreditava que o resultado do julgamento era motivo suficiente para abrir um champagne e não continuar com nenhuma discussão boba.