O seu velho Pai

1671 Palavras
No intervalo do almoço – por mais que tivesse tentado, com todas as suas forças, evitar – Ellie combinara de encontrar-se com o pai para almoçar no mesmo restaurante do dia anterior. Ela retocou a maquiagem e assinou o último relatório perto das onze e meia e então, recebeu um chamado no telefone: - Ellie – ela diz assim que atende. - Oi – ela reconhece a voz instantaneamente, é Thom – tudo bem ai? - Thom – ela diz animada – eu estou bem e você? - Bem – ele responde – na verdade, como você bem sabe, eu já tive lá os meus melhores dias... Me conta uma coisa, tem planos para o almoço? - Sim – ela responde – infelizmente, eu tenho. Vou encontrar com o meu pai. - Está tudo bem? – ele questiona, sabe que a relação de Ellie com o pai não é das melhores. - Sim, está sim... – ela confirma. - Então, eu posso te convidar para jantar? – ele insiste – Acho que o que eu mais queria quando chegasse em Savannah era ver você – ele confessa – mas preciso retornar ainda amanhã para New York. - Claro – ela responde – podemos jantar, sim. - Te pego aonde? – ele pergunta. - Em casa – ela responde. - Então, na sua casa, às sete horas – ele conclui. - Combinado. Ela sai a passos firmes em direção à rua. Nos outdoors luminosos da região central, propagandas dos mais diversos tipos e algumas manchetes de notícias: mercado econômico, aumento no preço dos combustíveis – ela suspira e atravessa a rua sem ver a última manchete “encerrado o julgamento do caso da ação coletiva, através da promotoria pública do estado da Califórnia contra empresa de tecnologia acusada de roubar dados dos usuários de aplicativos. John Collins, CEO da Arctic Tech, é condenado à cinco anos de prisão e multa milionária, enquanto o programador responsável pelo projeto, Austin Bryans é declarado inocente, por decisão unânime do juri”. - Bom dia – Patrick levanta-se da cadeira onde está para cumprimentar a filha. - Bom dia, Pai – ela diz tentado parecer mais animada do que realmente está. - Como está sendo o seu dia? – ele pergunta. - Ainda está tranquilo – ela responde – tenho algumas consultas no começo da tarde. - Entendo – ele responde – não parece ter dormido direito. - Acho que não dormi mesmo – ela suspira e analisa rapidamente o cardápio, sinalizando ao garçom que já havia escolhido – tem algumas coisas que eu precisei pensar. - Sua avó falou com você? – ele pergunta. - Sim – Ellie responde – e quer saber? Eu posso estar sendo c***l e até mesmo injusta... Mas eu passei a vida toda tentando entender o que eu havia feito de errado para que você não gostasse de mim e ficasse tanto tempo fora... – ela suspira – nunca foi culpa minha, não é? Mas você não sabia como lidar com as coisas e bem, eu tive que lidar com a sua ausência também. - Eu sinto muito por isso – ele diz. - Também sente por todas as vezes que roubou de mim o pouco de bom que eu tinha? – ela pergunta, ainda séria. - Está falando de todas as vezes que eu fiz pouco de todos os seus esforços? Mesmo quando você era pequena? – ele questiona. - Sim – ela responde – e por sempre julgar muito... - Eu fui criado dessa forma – ele responde – acho que é o meu jeito de demonstrar preocupação, carinho, sei lá como é que deseje chamar. - Eu não vou para New York com você – ela diz de forma definitiva. - Eu não esperava que fosse – ele suspira – preciso resolver algumas coisas por lá, mas bem, eu vou tentar ser mais presente, eu prometo. - Não acha um pouco tarde? – ela pergunta. - Acho que nunca é tarde para se passar um tempo com o seu velho pai – ele responde. Não poderia ser assim tão r**m: na pior das hipóteses ela dobrava ou triplicava turnos durante as visitas dele à Savannah, que aparentemente, ficariam mais frequentes e no mais, acabaria aprendendo a conviver com isso. O restante da refeição foi tranquilo e ela acabou correndo até em casa, com a motocicleta, para pegar o carro e deixar o seu pai no aeroporto antes de voltar para o hospital: essa era a parte boa de viver no interior e de ter um banco de horas sempre positivo no hospital. - Detalhes – Samantha invade a sala de Ellie assim que ela consegue acomodar-se em sua cadeira – eu quero detalhes. - Acho que eu não tenho detalhes – suspira Ellie – fui almoçar com o meu pai... - Pensei que estivesse indo almoçar com o Thom – ela diz confusa. - Eu vou jantar com o Thom – ela suspira – inclusive, eu não vou poder fazer extras hoje. - Certo – ela diz – vou rezar para que o Phil não se atrase. - Ele nunca se atrasa – Ellie responde. - Isso é verdade – Sam sorri – sorte a sua. Está preparada? - Para o que? – pergunta Ellie. - Não sei – Sam a encara – o que será que o Thom quer? Te convidar para ir para New York? - Acabei de dispensar New York – Ellie comunica – o meu pai estava tentando me levar. - Ah, claro – Sam dá de ombros – planos para o fim de semana? - Ainda não consegui fazer nenhum – confessa Ellie – para ser bem sincera, eu vou procurar um diário da minha mãe, no sótão. - É por isso que você não transa – Matthew está na porta da sala dela, rindo alto – quem é que programa revirar lixo em um sótão quando podia estar virando copos em um bar? - Quem está procurando informações e não problemas e encrencas – ela responde – que horas é o primeiro? – ela pergunta para Matt. - Agora mesmo – ele responde e vira-se para Samantha – fora, Sam... Ela sinaliza alguma coisa sobre bebedeira enquanto sai, de fininho da sala, para que Ellie receba a sua primeira paciente oncológica da tarde: Martha Barnet, quarenta anos. - Boa tarde – Ellie diz, tentando parecer animada – como está? - Boa tarde – responde Martha séria – confesso que eu já tive dias melhores... - Com toda a certeza – responde Ellie – mas, certamente, ainda tem muitos dias pela frente. O silêncio toma conta do consultório enquanto Ellie analisa os resultados dos exames: paciente assintomática, diagnóstico tardio. Mais de quatro centímetros de um tumor maligno no intestino, em um ponto complicado de se operar. - Doutora? – a mulher a chama. - Sim, senhora Barnet? – Ellie larga os papeis para encarar a mulher. - Sei que a situação não é muito boa – ela responde – e bem, eu não sou mais nenhuma criança... pode ser sincera quanto às minhas chances? - Você tem boas chances, Martha – responde Ellie – mas eu vou ser sincera sobre tudo, certo? - Claro – a mulher concorda. - Vai ser complicado – Ellie diz e pega uma das imagens sobre a mesa – vai ser uma cirurgia complicada, e podem restar “raízes”... Vai precisar de várias sessões de quimioterapia e radioterapia – Ellie sente a voz falhar – vai precisar ser forte, Martha. - Acho que eu posso ser forte – a mulher diz e logo suspira profundamente – se eu não for forte, quem vai cuidar dos meus filhos, quando eu me for? Aquela frase quebrou Ellie, em mil pedacinhos: ela sabia o quanto os tratamentos debilitavam até mesmo os pacientes mais fortes, ela sabia o quanto a falta de progressos e as eventuais más notícias desanimavam até os pacientes mais otimistas, ela sabia que as perdas dentro do circulo da oncologia doíam em todos e doíam por que a cada colega de quarto ou de leito, cada um dos demais pacientes se colocava no lugar daquele que se fora. Ellie sabia que às vezes, o tratamento trazia mais sofrimento do que uma morte por acidente qualquer. Ela sabia que a família toda se debilitava, que todos se esgotavam, de todas as maneiras possíveis e bem, quando não se tem outra opção a não ser melhorar, as respostas costumavam ser aquelas, mas e se a mulher em frente à ela, fosse Suzan, a sua mãe, anos atrás? E se Suzan dissesse à doutora que tinha uma filha pequena, e somente uma. E se ela contasse que queria dar a sua filha a possibilidade de guardar boas lembranças e uma vida “normal” ao invés de incontáveis horas em centros oncológicos convivendo com a perda de pessoas e com a falta de perspectiva de vida, por todos os lados? O que ela, como médica, diria? - Sinto muito – Ellie diz quando percebe que está chorando – eu realmente sinto muito por isso, Martha... - Tudo bem – a mulher lhe sorri com bondade – eu perdi o meu pai para o câncer – a mulher conta – no fundo eu sabia que hora ou outra, acabaria por ser a minha própria vez. - Perdi a minha mãe – responde Ellie – e bem, ela não foi assim tão corajosa... - Corajosa? – a mulher ri – Eu não sou corajosa... Morro de medo de morrer, isso sim. Queria ser a pessoa que abraça a morte, de braços abertos, depois de viver intensamente tudo o que é possível, mas não – ela sorri – eu não tenho coragem para isso. Vou tentar aguentar, o máximo que eu posso, apenas isso... Fora, sem sombra de dúvidas, a pior de todas as suas consultas. Ellie precisara de quase quinze minutos no banheiro para manter o controle e conseguir voltar ao seu consultório para dar continuidade nos seus atendimentos.
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