Você não me deixa outra escolha, Ellie

1490 Palavras
Ainda que Ellie estivesse desconfortável com a visita indesejada de seu pai, no fim das contas, ela sentia uma certa compaixão por ele: talvez, nessa altura da vida, aposentado, não lhe restasse absolutamente nada de bom e quem sabe, por um acaso do destino, ele pudesse apresentar um pouco de humanidade e viver o resto da vida como uma pessoa normal, perto de sua família. Mas, quem era mesmo a família? - Então o seu pai queria que você fosse para New York com ele? – Norah pergunta tão logo Ellie chega, novamente atrasada, do seu plantão pós encontro com o pai. - Sim – ela responde afundando-se em uma das confortáveis cadeiras da varanda – ele já veio até aqui conversar com você? - Claro que sim – Norah responde com um sorriso calmo e sereno – sabe que restou muito pouco para ele nessa vida. - Não dia uma coisa dessas – Ellie a repreende – você mesma me ensinou que colhemos os frutos daquilo que plantamos. - Já parou para pensar porque é que o seu pai passava tanto tempo fora? – pergunta Norah. - Por causa do trabalho – responde Ellie. - Sim – Norah concorda – mas porque ele não sabe, nunca soube, na verdade, criar raízes... Seu pai veio de uma família de militares, filhos únicos... Ele não tem a menor ideia de como é ser diferente do que ele acabou se tornando. - Ele poderia ter tentado – Ellie responde. - Claro que sim – Norah suspira – e ele tentou. Mas ai a sua mãe ficou doente... - Em dois mil e cinco – Ellie protesta. - Bem antes – Norah responde – sua mãe estava doente desde o início de dois mil, quando os problemas entre eles realmente começaram. - E porque foi que ela não...? – Ellie encara a avó com os olhos marejados. - Ela fez o que podia ser feito – a avó responde – mas deixou claro, desde o seu diagnóstico, que não morreria em uma cama de hospital e que não abriria mão de viver o tempo que lhe restava normalmente, para que você tivesse boas lembranças dela e não lembranças tristes de hospitais e tentativas falhas. - Como permitiu que ela fizesse isso? – Ellie pergunta ainda perplexa. - Essa escolha não era minha e nem do seu pai, e por isso tudo ficou mais difícil entre eles – a avó a encara – eu jamais contaria isso para você, se não fosse o momento mais oportuno: o seu pai, ele se arrepende muito de não ter pedido uma licença para cuidar da sua mãe. - Era o que ele deveria ter feito, ele tinha que ter... – ela começa a desesperar-se. - Sua mãe não permitiu – a avó conta – ela deixou bem claro que queria uma vida normal e que queria que o seu pai continuasse a vida dele, após a sua partida. Sabemos que isso não deu muito certo. - Porque é que nunca me contou isso? – agora Ellie está em pé, pronta para sair dali assim que tiver a sua resposta. - Por que nunca foi necessário – a avó responde. Ellie sai em direção ao seu quarto sem nem mesmo se despedir. Como puderam esconder isso dela durante tantos anos? Como a sua mãe, Suzan, pudera ser tão egoísta a ponto de não aceitar a rotina de tratamentos e ser presente em sua vida? E naquela noite, quando Ellie dormiu, acabou voltando ao seu passado em um sonho não tão bom: - O que está acontecendo? – ela perguntava para a sua mãe, sentada na banqueta da cozinha, sacudindo as pernas que ainda não tocavam bem o chão. - Eu estou doente – a mãe conta – bem doente, minha pequena – Suzan responde forçando um sorriso. - Mas você vai tomar os remédios e vai ficar bem, não vai? – Ellie perguntava. - Se eu quiser aproveitar o tempo que eu tenho do seu lado – suspira Suzan – é melhor eu não começar a tomar os remédios. - Mas então você não vai melhorar? – Ellie pergunta. - A chance de eu melhorar é bem pequena, minha querida – Suzan senta na banqueta ao lado de Ellie, ela deve ter por volta de doze anos – e antes de talvez eu melhorar, eu vou ficar tão r**m que precisarei ficar em um hospital. - Hospital? – Ellie agora a encara um pouco assustada – O que é que você tem? - Câncer – Suzan responde – e não, não me pede para fazer o tratamento – ela suspira – tenho feito tudo o que é possível fazer sem me manter internada... Você precisa ser forte, certo? E cuidar da vovó. “Ela me contou” – Ellie constata, sentando-se na cama, de forma brusca. Como foi que ela se esquecera daquela conversa? Aquilo foi o que, um mês antes do acampamento? Provavelmente na semana do seu aniversário. Porque é que ela não se lembrava disso? Saiu da cama rapidamente e subiu em direção ao sótão. Naquele dia, quando ela e a mãe tiveram aquela conversa, a mãe lhe falou sobre um diário, que ela deveria ler assim que estivesse crescida... Porque foi que se esquecera disso por tanto tempo? Claro que o barulho acordou Norah, que assustada, caminhou pelo corredor até ver a luz pelo alçapão do sótão: - Ellie? – ela pergunta. - Sim, vovó – a mulher responde e enfia a cabeça pela a******a do alçapão – eu lembrei de uma coisa, eu vim procurar... - Certo – a avó concorda – posso ajudar em alguma coisa? - Acho que não, obrigada – ela suspira e depois encara a avó – e me desculpa pelo surto mais cedo, acho que eu bloqueei algumas coisas na minha cabeça... - Tudo bem – a avó concorda – você precisa de um tempo para colocar as ideias em ordem. Era engraçado que aquelas lembranças tivessem aparecido tão repentinamente em seu sonho, na verdade, era até mesmo um tanto perturbador, como se ela tivesse feito questão de deixar aquilo de lado. Depois de revirar, no mínimo, umas dez caixas, ela simplesmente desistiu de encontrar qualquer diário: estava tarde e ela precisava dormir, precisava encarar o plantão na manhã seguinte e o almoço com o seu pai, por mais que isso a deixasse bastante desconfortável. - Não pode sair sem comer – Norah protestou quanto ela passou praticamente correndo das escadarias em direção à cozinha. - Eu vou comer – ela pega uma maçã na fruteira que ficava sobre a mesa e logo dá uma mordida – eu estou comendo, oh... - Sabe que maçã não é café da manhã – Norah protesta novamente. - Eu estou atrasada – Ellie encara a avó com certa impaciência – sinto muito. - Tudo bem – a avó suspira – você não me deixa outra escolha, Ellie – e então, a senhorinha sai em direção ao aparador de onde pega as chaves da motocicleta – sente na mesa e tome o seu café da manhã direito. - Eu vou me atrasar – Ellie protesta, mesmo sabendo que no fundo, não vai adiantar discutir. - Não quero saber – a avó responde – sua pontualidade nesse plantão não vai salvar ninguém e eu sei, não está na emergência. - Tudo bem – Ellie agora senta-se na cadeira e serve-se de uma xícara de café. Tão logo consegue terminar a sua refeição, sai correndo em direção à garagem, de onde sobe na motocicleta e pilota em direção ao Hospital: aquela era a sua rotina mais tradicional, ela quase sempre dizia que estava atrasada e sempre chegava no hospital ainda dentro do horário. - Bom dia – ela anunciou assim que passou pelo primeiro posto de enfermaria. - Oi – uma voz feminina e animada responde. - Sam – ela diz sorrindo – e o Matt? - Ele está na sua sala – Sam responde – está encrencada? - Acho que não – ela suspira e abre a porta. - Bom dia, Matt ... – ela percebe que o amigo esta deitado na poltrona. - Ahn – ele diz – Ellie, que bom que chegou... - Descansando? – ela pergunta. - Estou exausto... Dobrei o turno – ele boceja – posso confiar que vai me chamar quando precisarem de mim? - Claro que sim – ela concorda e sai, apagando a luz. Essa era a “parte grande” de sua família: Sam, Matt e os seus colegas de hospital. Toda a vez que um ou outro estava sobrecarregado, as funções se alteravam, os turnos eram mudados... Conversas alteravam escalas e cochilos eram dados sob a cuidadosa supervisão daqueles que estavam ainda, com todo o gás. A rotina do Hospital era intensa, mas as manhãs costumavam ser mais tranquilas, a ponto de permitirem um certo descanso de toda a agitação noturna que costumava acontecer diariamente.
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