Era aproximadamente oito horas da noite quando o Thaeler me deixou em casa. Desci do carro e olhei para minha casa, encontrando todas as luzes apagas, resumindo, meu pai tinha ido para o hospital.
— Quer entrar? — Indaguei aproximando-me da janela e ele me olhou confuso. — Não quero ficar sozinha em casa. Hoje não. — Um sorriso doce surgiu em seus lábios enquanto ele retirava a chave da ignição e saia do carro, ativando o alarme.
Destranquei a porta de casa e entrei ligando todas as luzes, colocando a minha mochila em cima do sofá.
— Por que você não adota um animal ou coisa similar? — Ele indagou olhando em volta e eu dei os ombros como resposta. — Adota um que eu te ajudo a cuidar!
— Já tenho você... — Brinquei em um tom baixo, soltando uma risada enquanto ele me olhava confuso. — Quem sabe no futuro, agora só quero me formar!
— Que horas que seu pai chegar? — Indagou e eu dei os ombros como resposta indo em direção ao seu quarto, não encontrando-o. — Você sempre fica sozinha assim?
— Às vezes, mas não falo nada. — Respondi-o voltando para a sala. — Surpreso? — Concordou.
— Não tem medo não? — Indagou novamente e eu neguei indo para a cozinha, pegando um copo de água. — Por que eu não soube disso quando fui... Você sabe!
— Porque quando eu desenhava você, não me sentia sozinha, mesmo você sendo fruto da minha imaginação, sentia que estava comigo. — Sentei-me na bancada enquanto ele me observava encostado no batedor da porta.
— Yejuny, você já pensou em se suicidar realmente? — A sua pergunta pegou-me completamente desprevenida.
— Todo mundo, quando está se passando por um momento difícil de sua vida que nunca passa, já pensou nessa hipótese. Alguns conseguem e outros não, no meu caso eu não consegui. — Respondi-o com tranquilidade, pois sabia que não tinha motivos para esconder nada dele. — Não quis deixar meu pai sozinho nesse mundo sofrendo e se culpando por não ter dado o melhor de si para ficar ao meu lado.
— Parece que eu ainda tenho que descobrir algumas coisas sobre você! — Ele disse e eu sorri descendo da bancada.
— Quer comer algo? — Indaguei aproximando-me da geladeira. — Você não comeu nada lá na cafeteria e eu quero que sua pacinha apareça!
— Você vai comer também? — Ele indagou aparecendo atrás de mim, colocando suas mãos em meu quadril.
— Não, só quero alimentar você e te deixar gordinho. — Respondi-o e ele riu depositando um selar em minha bochecha. — Mas eu sei que eu não comer, você também não vai.
— Estou surpreso com o quão você é esperta. — Ele disse em um tom irônico e eu apenas mostrei meu dedo do meio para ele. — Só que falta educação!
— Vai provocando Thaeler, vai! — Exclamei e ele começou a rir apoiando-se pia ao meu lado.
Acabou que eu não consegui cozinhar o que tinha em mente. Mesmo eu sabendo cozinhar perfeitamente, queimei tudo, deixei salgado ao extremo, fazendo o Thaeler rir ao meu lado aumentando ainda mais a minha frustração.
— Você comia comida assim? — Ele indagou entre os risos enquanto eu olhava-o séria. — Como está viva hoje em dia?
— Eu sei cozinha, só não sei o motivo disso ter acontecido. — Resmunguei cruzando os braços. — Morre de fome então inferno. — Tentei sair da cozinha, mas suas mãos me impediram.
— Ficou com raiva? — Brincou e eu virei em sua direção preparada para bater nele, então em um gesto rápido, colocou-me sentada na bancada, ficando entre minhas pernas. — Você fica uma gracinha com raiva!
— Vai se ferrar! — Tentei descer da bancada, porém ele não deixou e aproximou nossos lábios para beijar-me, mas ouvimos um pigarrear no ambiente fazendo a gente se separar no mesmo instante. Era o meu pai.
— B-Boa noite Sr. Joy! — Thaeler disse descendo-me da bancada, fazendo uma breve reverência.
— Atrapalhei algo? — Meu pai indagou e eu engoli o seco negando no mesmo instante. — Quem é você jovem?
— M-Me chamo Tyun Thaeler, é um prazer conhecê-lo e me perdoe por estar aqui em sua ausência. — Ele disse fazendo outra reverência para meu pai.
— É ele? — Meu pai indagou referindo-se provavelmente a nossa conversa mais cedo. — Aceitável, mas ainda não gosto da ideia!
— Aceitável o que? — Thaeler indagou sussurrando pra mim e eu dei os ombros como resposta. — É melhor eu ir para casa, tenha um boa noite!
— Vou levar você até a porta... — Exclamei e ele negou no mesmo instante, acariciando meus cabelos e saindo da cozinha fazendo reverência para o meu pai. — Coitado, você o intimidou! — Escutei o barulho do seu carro sendo ligado e indo embora.
— Ele é bonito demais, como pode existir um homem assim? — Fiquei surpresa com a fala do meu pai. — Que orgulho da minha filha que não pegou qualquer um.
— Então você gostou dele? — Indaguei um pouco confusa e ele concordou sorrindo. — Por que agiu daquela maneira?
— Queria ver se ele era digno! — Respondeu-me e eu soltei uma risada de nervosismo. — Mas ainda vou me passar por mais difícil!
— Loucura demais pra absorver no momento... — Murmurei pra mim mesmo piscando várias vezes, tentando entender o que estava realmente acontecendo.
Era a manhã do dia seguinte e eu terminava de me arrumar para a faculdade quando ouço batidas apressadas na porta de casa. Sai do meu quarto perguntando-me quem era naquele horário.
— Você... — Exclamei assim que abri a porta e vi que era a minha tia. — Não é bem-vinda aqui! — Fechei a porta em sua cara, escutando-a me xingando.
Depois que meu pai decidiu me criar sozinho, toda a sua família criticou e disse que não ajudaria ele em nada, mesmo que ele implorasse de joelhos. Me lembro perfeitamente do dia em que ele pediu a minha tia pra cuidar de mim para que ele pudesse trabalhar, tinha sete anos, ela fechou a porta em nossa cara e disse que não era para aparecermos mais lá.
O jogo virou e agora ela vinha constantemente pedir ajuda pro meu pai e ele extremamente burro, ajudava-a mesmo depois do que ela fez para ele.
— SUA VACA, ABRE ESSA PORTA! — Encostei-me na porta, escutando todos os seus xingamentos.
— Aparece mais aqui não, é perca de tempo. — Exclamei e ela bateu ainda mais forte. — Como está seu marido? Verdade, ele te traiu e te deixou por uma mulher melhor do que você, que pena né?
— Yejuny! — Meu pai apareceu na sala repreendendo-me. — Sai da porta! — Ele disse e eu encarei-o com uma expressão de deboche.
— Você deve gostar de ser pisado por essa família de merda. — Olhei em seus olhos e afastei-me da porta enquanto ele abria e a sua irmã adentrava vermelha de raiva. — Olha só, o demônio resolveu aparecer. O que quer dessa vez? Deixa-me adivinha, dinheiro para suas bebidas!
— Abusada igual a v***a da mãe. — Uma voz meio idosa soou. Era a minha avó.
— O demônio chefe também veio. — Exclamei olhando para a idosa. Não me importava se era falta de educação afrontar ela, pois depois de tudo que ela fez, não vejo ela como um ser humano.
— Tem certeza que deu educação pra ela? — Ela se aproximou de mim e eu arqueei minha sobrancelha. — Devia ter deixado essa coisa em um orfanato apodrecendo.
— Mãe, não fala assim da minha filha em minha casa. — Meu pai disse e ela soltou uma risada. — O que vocês querem?
— Sua irmã quer dinheiro... — Ela disse e eu arregalei meus olhos. — Não abre a sua boca!
— Meu pai não pariu ela não, foi você, seu monte de rugas. — Exclamei olhando em seus olhos. — Cria vergonha na cara da v***a da sua filha e mande ela ir trabalhar. Vocês nunca nos ajudaram, por que a gente devia agora?
— QUEM É v***a? — Minha tia disse em um tom alto, aproximando-se de mim.
— Quem mais séria? Só tem duas aqui, você e aquela coisa escrota ali. — Apontei para minha vó e ela ergueu sua mão para me bater, mas então meu pai segurou o seu pulso impedindo que me acertasse.
— Saiam da minha casa... — Meu pai disse e a minha vó e minha tia encaram-no confusas. — Vocês vêm aqui e ainda ousam machucar e xingar minha filha, isso é inaceitável!
— Ela que começou com os xingamentos. — Minha tia disse e o meu pai inspirou fundo.
— Ela não disse mais do que a verdade, somem da minha frente e da minha casa. — Ele disse e a minha tia saiu. Antes da minha vó sair, encarou-o com uma expressão nada agradável. — Minha casa, minhas regras! — Fechou a porta e foi para o seu quarto.
— Queria que elas morressem ou sumissem completamente. — Murmurei sentindo meus olhos marejarem. Entrei em meu quarto peguei minha mochila, meu celular e as chaves do meu carro.
Sai de casa e em frente ao meu carro, encontrei a minha tia. Desativei o alarme e tentei entrar no carro, mas não me impediu. Inspirei fundo e encarei-a com a sobrancelha arqueada.
— Não sei se viu, mas está no meu caminho. — Exclamei e ela sorriu forçado, segurando os meus cabelos com força. — Me solta imediatamente!
— Você me paga por hoje. — Soltou-me e eu senti meus coros cabeludos latejando. — Entendeu?
— Se não me soltar agora, irei gritar e vai ser pior pra você. — Murmurei olhando em seus olhos e ela sorriu soltando os meus cabelos e segurando com força o meu pescoço.
— Me aguarde... — Ela afastou-se de mim e eu adentrei o carro, xingando-a mentalmente,
Encarei o meu pescoço pela a tela do celular. Estava bastante avermelhado. Inspirei fundo e passei um pouco de base para disfarçar a vermelhidão, logo, coloquei o carro em direção a faculdade.
Não tinha tomado o café da manhã e após as confusões com minha tia e minha avó, não me sentia completamente bem, mas ninguém precisava saber para não se preocupar com pequenas coisas.
Após alguns minutos adentrei o estacionamento da faculdade. Ativei o alarme do carro e caminhei em direção a minha sala tranquilamente e de cabeça erguida. Depois que o Thaeler me disse aquilo ontem comecei a me sentir mais confiante em mim mesmo e coloquei em minha mente que ninguém e nada irá me desaminar.
Quando estava chegando na porta da minha sala, encontrei o Jaesper encostado na parede enquanto as alunas passavam por ele eufóricas.
— Esse garoto nunca desiste. — Resmunguei pra mim mesmo indo em direção a minha sala, ignorando-o completamente.
— Bom dia! — Ele disse seguindo-me para dentro da sala. — Quero me desculpar por ontem, estava um pouco fora de mim.
— Jura? Nem percebi! — Debochei sentando-me em minha cadeira e ele sentou-se ao meu lado. — Sabia que eu sou mais odiada por que você vive ao meu lado?
— Não tenho culpa se eu sou atraído por coisas maravilhosas como você. — Ele disse e eu revirei os olhos com o seu comentário. — Ele é seu namorado?
— Se for, o que você tem a ver com isso? — Indaguei encarando-o com a sobrancelha arqueada.
— Eu irei fazer de tudo para roubar você dele. Irei te conquistar! — Ele disse e eu soltei uma risada irônica.
— Some daqui Jaesper. — Exclamei e ele tentou aproximar-se de mim para beijar minha bochecha, mas no mesmo instante me afastei. — Some garoto! — Ele sorriu e saiu da sala enquanto as meninas me olhavam fixamente pelo o fato de o Jaesper ter vindo conversar comigo. — Ódio gratuito todo dia!
— Bom dia... — Jiinyy ao sentar-me na cadeira ao meu lado, tirando-me dos meus devaneios.
— Olha quem resolveu falar comigo. — Murmurei e ela sorriu meio nervosa. — Alguma explicação de ontem?
— Nenhuma. — Respondeu-me e tirou uma vasilha de dentro da sua mochila. — Fiz biscoitos pra tentar melhorar minha situação!
— Só por que eu gosto dos biscoitos que você faz... — Resmunguei pegando um, chegando à conclusão que eu sou realmente muito i****a e burra. — Vai comer não?
— Estou de dieta! — Fez uma breve careta e olhou pra mim. — Você e sua sorte de não engordar!
Os horários se passaram e finalmente as aulas haviam chegado ao fim. Todo o tempo que eu estava na sala de aula, meu celular vibrava com mensagens do Thaeler. Passei maior parte do tempo, respondendo-o em vez de prestar atenção na aula.
Coloquei a mochila nas costas e sai da sala, encontrando o Thaeler encarando os pés. Aproximei-me dele suavemente e trisquei em seu ombro, ele ergueu seu olhar e sorriu largamente.
— É uma bosta ter que esperar suas aulas pra poder ver você. — Ele disse e eu revirei os olhos. — Posso fazer você concluir a faculdade rapidamente, não sei por que recusa tanto. — Fez bico olha pra mim. — Estava com saudades. — Entrelaçou suas mãos em meus cabelos, mas como ainda estava dolorido, fez uma breve expressão de dor. — O que foi?
— Nada... — Exclamei balançando as mãos várias vezes, forçando um pouco o sorriso. Seu olhar analisou todo o meu rosto, fixando em meu pescoço.
— O que são essas marcas vermelhas? — Indagou arregalando os olhos enquanto eu xingava mentalmente a maquiagem por ter saído. — Quem te machucou?
— Ninguém que mereça tanta atenção! — Respondi-o e ele olhou em meus olhos. Podia ver que ele estava com muita raiva.
— Se não me contar vou juntar todos os suspeitos pra mim e eles irão levar um soco mesmo não sendo eles... — Ele disse e eu arqueei minha sobrancelha. Acabou que ele entendeu aquilo como uma provocação.
Rapidamente Thaeler se afastou de mim pisando fundo enquanto eu ria da sua atitude, mas de repente, comecei a me sentir completamente tonta. Espalmei minha mão na parede e a tontura aumentava gradativamente, deixando uma penumbra em meus olhos.
— Thaeler... — Chamei-o olhando para ele que conversava com alguns meninos, com o pouco de visão que eu tinha naquele momento. — TYUN THAELER! — Foi a última coisa que eu fiz, antes de ver ele me olhar e eu desmaiar.