capitulo 4

1630 Palavras
Capítulo 4 Louis — Ponto de vista Eu estava diante do meu guarda-roupa, encarando minhas roupas como se minha vida dependesse disso. Talvez dependesse mesmo. Eu precisava estar bonito naquela noite. Meus dias estavam diminuindo e, se eu precisasse deixar este mundo em breve, queria aproveitar cada momento. Trim. Meu celular vibrou. Blaine: Já está pronto? Louis: Ainda estou procurando minhas roupas. Não tenho nada para vestir. Blaine: Princesa, você não é o dono da festa. A gente só vai lá para se divertir. Louis: Então quer que eu me vista como um mendigo só porque quero me divertir? Blaine: Hmm. Eu não disse para você se vestir como um mendigo. Mas, do jeito que você está levando seu look a sério, a festa vai acabar antes de você decidir. Louis: Vou decidir. Agora cala a boca para eu continuar procurando. Blaine: Princesa, você tem dois minutos para descer. Estou quase chegando. Louis: Já vou. Finalmente, escolhi uma camiseta preta justa, que ficava colada ao meu corpo magro, uma bermuda de couro e tênis brancos de tecido. Arrumei meu cabelo e passei um pouco de maquiagem. Então fiquei diante do espelho. — Uau. Quem é esse cara tão incrivelmente gostoso? Sorri para meu reflexo. — Louis! Louis! Louis! A voz de Blaine ecoou pelo corredor. — Solta esse cabelo! Eu estou aqui para te ajudar! Gemi e desci assobiando. Blaine me examinou de cima a baixo. — Quem é esse cara que parece que vai partir corações hoje à noite? Balancei a b***a e dei uma volta, como se estivesse desfilando em uma passarela. Depois mandei um beijo para meus fãs imaginários. Blaine fingiu segurar minha mão como um segurança. Nós dois caímos na gargalhada. — Vamos, superstar. Corremos até o carro dele. — Não volte tarde! — gritou mamãe do quarto. Sorri. — Não se preocupe, mãe! Assim que entramos no carro, Blaine me lançou um olhar. — Eu pensei que você tinha dito que seu irmão não queria que você fosse. — Ele mudou de ideia. Pelo visto, eu também posso me divertir de vez em quando. Sorri. — E eu vou escolher a música. — Não. — Vou, sim. — Não! Antes que ele pudesse me impedir, conectei meu celular ao rádio do carro. — Nããão — ele gemeu. — Eu não quero dormir no caminho. Minha música favorita começou a tocar. Imediatamente, comecei a me mexer no ritmo. — Vamos dançar! Comecei a girar e a balançar o corpo ao som de Water, da Tyla. Blaine balançou a cabeça. — Você é vergonhoso. — Você me ama. — Eu te suporto. — Dá no mesmo. Eu ri. Por alguns minutos, esqueci de tudo. Do hospital. Do diagnóstico. Da quantidade de dias que ainda me restavam. Eu era apenas Louis. E queria continuar sendo assim pelo maior tempo possível. --- No momento em que chegamos à festa, o barulho me atingiu. Música. Risadas. Gritos. Era sufocante. Minha cabeça começou a latejar imediatamente. Por um momento, tudo o que eu mais queria era dar meia-volta, voltar para casa e me esconder na cama. Mas afastei aquele pensamento. Eu não queria passar meus últimos dias escondido no meu quarto. — Hora de esquecer tudo isso. Dei de ombros e segui Blaine para dentro. As pessoas já estavam bebendo e dançando. Avistei alguns de nossos amigos e fui até eles. Então olhei ao redor. Blaine havia desaparecido. Claro. Passei os olhos pela sala novamente e finalmente o encontrei dançando com duas garotas. Balancei a cabeça. — Traidor. Peguei uma bebida. Antes que pudesse dar um gole, alguém a tirou da minha mão. Olhei para o cara. — Se eu fosse você, não beberia isso. Ergui uma sobrancelha. — Isso não é para menores de idade. — Eu não sou menor de idade. Dei um gole. — Só tenho cara de um. Ele ficou me encarando. Sorri. — Então, se me der licença... Virei a bebida de uma vez. Depois fui para a pista de dança. A música me engoliu. Eu dancei. Alguém me entregou outra bebida. Depois outra. Em algum momento, deixei de me importar com quem estava me dando. Pela primeira vez em dias, não pensei na contagem regressiva. Não pensei na morte. Não pensei na minha família. Eu simplesmente vivi. — Eu estou muito ferrado — murmurei, rindo. Comecei a dançar com alguém ao meu lado. Uma garota. Talvez um garoto. Naquele momento, não me importava. — Todo mundo diz “xis”! De repente, a voz de uma garota bêbada ecoou pela multidão. Todos se viraram. Ela segurava o celular para cima e tirou uma foto. Todos nós rimos. Por um momento, eu me senti imortal. Então vi Blaine atravessando a multidão. Sua expressão mudou imediatamente quando me viu. — Certo, Louis. Ele segurou minha mão. — Hora de ir para casa. Puxei minha mão. — Me solta! A festa ainda está rolando. Minhas palavras saíram enroladas. — Você bebeu demais. — Eu estou me divertindo! — Sim, e amanhã você vai me odiar por isso. Ele me puxou em direção à saída. Então— a dor explodiu dentro da minha cabeça. Eu congelei. Meu sorriso desapareceu. Soltei a mão dele e corri para o banheiro. — Louis? Bati a porta atrás de mim. Minhas mãos se agarraram à pia enquanto eu encarava meu reflexo no espelho. A dor ficou mais forte. Mais intensa. Mais aguda. Quase insuportável. Gemi e segurei a cabeça. Então vi. Sangue. Um fio fino de sangue escorria do meu nariz. — Não... Limpei rapidamente. Minha respiração estava irregular. Procurei os analgésicos nos bolsos. Nada. Procurei novamente. Ainda nada. — Merda. Eu devia ter perdido os comprimidos no meio da multidão. A dor atravessou minha cabeça novamente. Soquei o espelho. CRASH! O vidro rachou sob minha mão. Imediatamente, o sangue escorreu pelos meus nós dos dedos. Fiquei olhando para meu reflexo. Vidro quebrado. Sangue. Pele pálida. Um garoto morrendo me encarava de volta. Aos poucos, a dor diminuiu. Abri a torneira e joguei água fria no rosto. Minha mão machucada ardeu quando a lavei. Então— Tum! Tum! Tum! — Sabe, mesmo que alguém estivesse aí dentro dando à luz agora, o bebê já teria nascido! A voz de Blaine atravessou a porta. Quase ri. — Já estou saindo. — Quer saber? Pode ficar aí o tempo que quiser. Revirei os olhos. — Tá bom, pai. Peguei um pouco de papel higiênico e enrolei em volta da mão ensanguentada. — Vamos embora. Eu preciso dormir. Blaine bocejou. Abri a porta. O sorriso dele desapareceu. Ele examinou meu rosto. — Seu rosto... Ele se aproximou. — Está muito pálido. Forcei um sorriso. — Estou bem. É só a bebida e tal. O olhar dele desceu. Então seus olhos se arregalaram. — Sua mão está sangrando. Ele tentou segurá-la. Eu a puxei rapidamente. — Não é nada. Eu limpo quando chegar em casa. Ele não me ouviu. Em vez disso, me levou diretamente até o carro. Mexeu na parte de trás até encontrar um kit de primeiros socorros. — Senta. — Eu estou bem. — Louis. Suspirei e me sentei. Com cuidado, ele limpou o ferimento. Nenhum de nós falou. A única coisa que eu conseguia ouvir era o ritmo do meu próprio coração. Fiquei observando-o. Seus cílios longos. Seus lábios rosados. A maneira como suas sobrancelhas se franziram quando ele ficou preocupado. Fiquei olhando para ele por tempo demais. Que diabos eu estou fazendo? Dei uma bronca mental em mim mesmo. Eu simplesmente tinha bebido demais. — Você não pode ser um pouco mais cuidadoso? A voz dele me tirou dos meus pensamentos. — Você ainda é uma criança? Eu disse para você tomar cuidado. Sorri. Não respondi. Ele terminou de enfaixar minha mão e ligou o carro. --- A viagem para casa foi silenciosa. Encostei a cabeça no vidro e observei as ruas passarem. Minha cabeça voltou a doer. Não tanto quanto antes. Mas o suficiente para me lembrar. Será que devo contar a ele? Virei-me para Blaine. Ele olhou rapidamente para mim. Nossos olhares se encontraram. Ele sorriu. Eu não consegui sorrir de volta. Ele deu de ombros e voltou a olhar para a estrada. Quando chegamos à minha casa, ele estacionou e veio imediatamente para o meu lado. — Entrega em domicílio. Ele abriu minha porta. Franzi a testa. — Eu não sou criança. Posso abrir a porta sozinho. Ele ergueu minha mão enfaixada. — Com esse braço? Como, exatamente? Revirei os olhos. — Você é irritante. — E mesmo assim você continua me mantendo por perto. Ri baixinho. Então, sem pensar, dei um passo à frente e o abracei. Blaine ficou imóvel. Por um momento, ele não se mexeu. Então seus braços lentamente me envolveram. Fechei os olhos. Eu não sabia por que precisava tanto daquele abraço naquele momento. Talvez porque soubesse que não teria muitos outros. Afastei-me antes que ele pudesse perguntar. — Boa noite. — Boa noite. Ele sorriu. — Durma bem. Acenou e voltou para o carro. Fiquei olhando enquanto ele ia embora. Então entrei. A casa estava silenciosa. Todos estavam dormindo. Subi as escadas na ponta dos pés e entrei no meu quarto. Troquei de roupa rapidamente e me joguei na cama. Meu olhar caiu sobre meu diário. Peguei-o. COISAS QUE QUERO FAZER ANTES DE MORRER 1. Deixar a mamãe orgulhosa. ✓ 2. Ir a uma festa com Blaine. ✓ 3. Me divertir e viver a minha vida. ✓ Sorri. Três coisas concluídas. Virei a página. 88 dias restantes. Fiquei encarando o número. Preciso começar a marcar meu novo plano. Então o sorriso desapareceu do meu rosto. Coloquei uma mão na cabeça. Se ao menos essa dor desaparecesse. Fechei os olhos. E, pela primeira vez, me perguntei se meu plano de noventa dias seria suficiente.
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