O Retorno

775 Palavras
Nando estava sentado na cela, concentrado no livro à sua frente, quando o carcereiro entrou. — Nando, levanta aí. Sua doutora voltou. Ele fechou o livro lentamente, os olhos escuros se estreitaram. Sem dizer uma palavra, deixou que o guarda colocasse as algemas. Caminhou em silêncio pelo corredor, o macacão amarelo balançando com o movimento, a expressão fechada, controlada. Mas por dentro… por dentro ele estava inquieto. Quando a porta da sala se abriu, Clara estava lá, sentada elegantemente à frente da mesa. Ela levantou os olhos e sorriu suavemente. — Boa tarde, doutor Nando — disse ela, com a voz calma e envolvente, mas ainda carregada de emoção contida. — Boa tarde, doutora Clara — respondeu ele, sentando-se depois que os guardas retiraram as algemas. — Então é assim? — Assim como? — perguntou ela, curiosa, mantendo o sorriso. — Você mexe com a minha mente — disse ele, voz firme, mas carregada de intensidade — tenta invadir a minha mente, tenta me entender de todas as formas… e depois simplesmente desaparece por quase dois meses. Clara sorriu, percebendo a tensão no corpo dele, a raiva misturada à saudade. Ela sabia exatamente o efeito que causava. Mas ele disfarçou, recostando-se levemente, tentando manter a postura controlada. — Eu tive alguns problemas pessoais, Nando — disse ela, suave, mas direta — então precisei tirar uma licença. Mas agora estou aqui. Podemos retomar de onde paramos… claro, se você permitir que eu volte para a sua mente, né? Ele a observou por um instante, cada detalhe gravado na memória: o cabelo loiro, os olhos azuis, o sorriso suave, e algo mais que mexia com ele de forma silenciosa, quase dolorosa. Então falou, voz baixa, quase um sussurro: — Você nunca saiu nem um segundo. Os dois permaneceram se olhando, e naquele instante o tempo pareceu parar. A sala pequena da prisão ficou carregada de tensão elétrica: olhares longos, respirações contidas, química intensa que nenhum deles conseguia negar. Clara sentiu o coração acelerar, lembrando das semanas de ausência e do efeito que a falta dela causou nele. Ele está inquieto… e isso me fascina, pensou, tentando disfarçar o próprio fascínio. Nando, por sua vez, sentia cada fibra do corpo reagir à presença dela. Ela voltou… e não há como ignorar isso. Cada gesto, cada olhar… tudo em você me domina, pensou, mantendo a voz firme apenas para esconder o turbilhão interno. E assim, entre silêncio e olhares carregados, eles se encontraram novamente. Dois meses separados, e a tensão entre eles não apenas persistia — ela crescia, mais intensa e incontrolável do que nunca. A sessão havia passado rápido, mas intensa. Durante uma hora, eles navegaram pelos pensamentos, memórias e provocações sutis, cada gesto carregado de tensão e química que nenhum dos dois conseguia disfarçar completamente. Clara olhou para o relógio e suspirou levemente. — Bom… preciso ir. Semana que vem eu volto — disse, levantando-se, ajeitando a pasta contra o corpo. Nando permaneceu sentado, os olhos escuros fixos nela, como se cada palavra fosse insuficiente. — Sério? Não volta amanhã? — perguntou, a voz baixa, carregada de uma mistura de frustração e desejo contido. Ela riu suavemente, controlando o próprio fascínio. — Amanhã não posso, Nando. Eles só permitem que eu veja você uma vez por semana — respondeu, mantendo o sorriso, mas sentindo o peso do olhar dele percorrendo cada movimento dela. Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços, mas por dentro a inquietação queimava. Cada segundo longe dela parecia uma eternidade. Uma vez por semana… é insuficiente, pensou, a raiva misturada à saudade. Ela voltou… mas ainda assim consegue me enlouquecer. Clara, por sua vez, sentiu o efeito que causava nele, embora tentasse manter a postura profissional. Ele está… intenso. Essa mistura de raiva e desejo nele é perigosa… e irresistível. Ele se levantou lentamente, aproximando-se só o suficiente para que a presença dele fosse quase palpável. — Semana que vem é muito tempo — murmurou, como se deixasse escapar a própria frustração. — Eu sei — respondeu Clara, mantendo os olhos fixos nos dele, tentando controlar a respiração. — Mas é o que podemos fazer por agora. Nando a observou se afastar até a porta, cada movimento dela gravado na mente dele. Quando a porta se fechou, ele permaneceu parado por alguns segundos, respirando fundo, os punhos apertados, uma mistura de raiva e fascínio queimando dentro dele. Ela mexe comigo… e isso só aumenta cada vez que a vejo partir, pensou, os olhos ainda fixos no local onde ela desapareceu. Mesmo separados, a tensão e a química entre eles continuavam vivas, carregadas de desejo contido e promessas silenciosas que nenhum dos dois ousava verbalizar.
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