Ausência que Queima

707 Palavras
As semanas se arrastaram na prisão como se cada dia fosse mais lento que o anterior. Clara, por motivos pessoais, não conseguiu ir às sessões durante alguns dias. Para Nando, aquele silêncio não era apenas a falta da presença dela — era um vazio que mexia com algo dentro dele. Ele estava no pátio, sentado no banco de ferro, observando o céu cinzento, tentando concentrar-se nos exercícios que os guardas permitiam. Mas nada funcionava. Cada sombra, cada movimento ao redor parecia lembrá-lo de que ela não estava ali. Por que ela parou de vir? pensava Nando, a inquietação crescendo a cada minuto. Era só alguns dias… mas parece uma eternidade. Eu precisava vê-la. Precisava ouvir a voz dela, sentir o olhar dela sobre mim… A mistura de saudade e raiva queimava dentro dele. Raiva porque ela o deixava sentir essa falta, saudade porque ele não sabia o que fazer com o desejo de tê-la por perto. Cada gesto, cada lembrança das semanas anteriores, das sessões cheias de provocações e flertes sutis, fazia o peito dele arder. Ele se levantou, caminhando pelo pátio com passos longos, os punhos apertados, respirando fundo, tentando controlar a tensão que ameaçava explodir. Ela não pode me provocar assim… não pode me deixar assim, pensou. E, ainda assim… gosto que ela faça. Cada memória de Clara aparecia clara na mente dele: o sorriso, o jaleco sobre o vestido vermelho, os olhos azuis brilhantes, a postura firme que tentava disfarçar o fascínio que ele sabia que sentia. Nando sentiu a raiva misturada ao desejo — a raiva de quem não pode tê-la por inteiro, e o desejo de quem quer cada segundo de atenção dela. Quando o pátio se esvaziou e ele ficou sozinho por alguns minutos, fechou os olhos e murmurou para si mesmo: — Doutora… você me deixou inquieto. — E um sorriso sombrio se formou nos lábios dele. — Eu vou fazer você voltar. Nando sabia que aquela ausência havia deixado claro algo que ele não podia mais ignorar: Clara tinha se tornado mais do que uma terapeuta. Ela havia invadido sua mente, seus pensamentos, e cada segundo longe dela era uma tortura deliciosa e perigosa. Enquanto isso Clara se mantinha ocupada com seus compromissos, sem saber que Nando sentia cada minuto de sua ausência, ele não ficou parado. No pátio da prisão, sentado na mesma posição de sempre, cruzou os braços e murmurou: — Eles vão descobrir tudo sobre você, doutora. Os homens de confiança dele começaram a agir. E-mails, redes sociais, registros de consultas — Nando queria cada detalhe sobre Clara. Onde ela estava, com quem se encontrava, se estava segura. Ele não admitiria isso em voz alta, mas a ausência dela havia despertado algo perigoso e intenso dentro dele: uma mistura de fascínio, desejo e proteção obsessiva. — Quero cada movimento dela — disse ele a um dos homens que lhe entregava informações durante uma visita controlada — e quero que saibam se alguém se aproxima demais. Não deixem nada passar. Enquanto isso, na mente dele, imagens de Clara invadiam cada pensamento: o sorriso, os olhos azuis, o cabelo loiro preso no coque, o jaleco branco sobre o vestido vermelho. Cada detalhe da mulher que mexia com ele de forma silenciosa, mas irresistível. — Ela acha que pode me ignorar… que pode simplesmente desaparecer por algumas semanas — pensou, os punhos apertados — mas não vai. Eu preciso saber. Preciso sentir que está segura. E, ao mesmo tempo… precisa saber que não é apenas trabalho comigo. Os homens de Nando se moveram com precisão. Observavam discretamente, reuniam informações, monitoravam os lugares que Clara frequentava. Nada escaparia de seu controle. Nando não admitiria que sentia saudade, nem desejo, mas cada relatório que chegava só aumentava a intensidade de seus sentimentos. Ele voltou a se recostar na parede, olhos fechados por alguns segundos, murmurando: — Doutora Clara… você mexe com tudo em mim. Minha mente, meu corpo, minha paciência. E agora… meu controle. A obsessão silenciosa era perigosa, mas para Nando, inevitável. Ele não podia deixar Clara fora de seu alcance, mesmo que só pudesse agir indiretamente. Cada passo dela, cada movimento fora da cela, estava agora sob seus olhos, e cada detalhe alimentava a tensão crescente entre os dois.
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