Faíscas Entre Silêncios

916 Palavras
Clara entrou na cela com a pasta de sempre, mas hoje algo no ar parecia diferente. Nando estava sentado na mesma posição de sempre, braços cruzados, mas havia um leve relaxamento nos ombros dele, como se estivesse esperando algo mais do que simples perguntas. — Hoje vamos tentar algo diferente — disse Clara, com a voz firme, mas tentando esconder a excitação que sentia ao vê-lo assim. — Quero que você me conte uma história… algo que ninguém jamais ouviu. Ele inclinou a cabeça, olhando-a com aquele sorriso torto, quase provocador. — Você quer entrar na minha mente… e quer conhecer o homem. Corajosa, doutora. — Clara sorriu, mantendo a postura profissional, mas seu coração batia mais rápido. Ela disfarçou o calor que subia pelo pescoço, lembrando a si mesma que estava ali para trabalho, não para se perder. — Só quero entender melhor você — respondeu, deixando a voz firme, mesmo que por dentro ela estivesse curiosa demais para controlar. Ele se recostou, cruzando os braços, e começou a falar. Contava histórias do passado, da infância difícil, das decisões que o moldaram. Clara ouvia atentamente, fazendo anotações discretas, observando cada gesto, cada palavra. Ela se surpreendeu ao perceber que algumas histórias a tocavam, provocando uma sensação estranha de empatia que ela nunca imaginou sentir por alguém como ele. — É impressionante — disse Nando, interrompendo a narrativa por um instante — você consegue me ouvir sem medo… sem julgamento. A maioria foge. Clara inclinou-se levemente, mantendo os olhos nos dele. — Escutar faz parte do meu trabalho — disse, tentando manter a voz neutra, enquanto uma faísca de fascínio queimava silenciosa dentro dela. Ele se aproximou apenas o suficiente para que o perfume dele chegasse a Clara, misturando-se à tensão que ambos sentiam. — E você sente algo? — perguntou Nando, baixinho, quase desafiando-a. Ela engoliu em seco, mas manteve o sorriso profissional: — Sinto curiosidade. Fascínio. Mas nada que interfira no trabalho. Ele riu, um som grave e sedutor que fez Clara estremecer. — Bom… por enquanto, é uma boa resposta. Mas já vejo sinais de que está se perdendo, doutora. Clara respirou fundo, mantendo o controle. Ela não podia deixar que ele percebesse o quanto aquelas histórias, aquela presença, a atraíam. Mesmo enquanto ele falava sobre seu passado sombrio, ela sentia o coração acelerar, mas disfarçava com cuidado, deixando que só ele pensasse que ela era profissional e inabalável. — Talvez seja parte do meu trabalho conhecer a mente de um mafioso — disse ela, disfarçando o próprio fascínio — mas conhecer o homem… isso ainda é um território perigoso. Ele inclinou a cabeça, olhos fixos nela, e um pequeno sorriso se formou nos lábios. — Exatamente. E você está se aproximando dele perigosamente rápido, doutora Clara. Clara sorriu, controlando a respiração, disfarçando cada reação, enquanto internamente sentia-se cada vez mais envolvida. Por fora, profissional. Por dentro, uma tempestade de fascínio, curiosidade e desejo contido. A rotina na prisão havia se tornado algo que Clara esperava com uma mistura de apreensão e curiosidade. Cada sessão era um desafio, uma batalha silenciosa entre profissionalismo e fascínio. Hoje, ela sabia, seria diferente. Nando estava sentado na mesma posição, mas havia algo nos olhos dele que dizia: hoje vou testar você. — Doutora Clara — começou ele, a voz grave como sempre — já percebeu que consegue resistir… mas por quanto tempo? Ela manteve o sorriso firme, ajustando a pasta sobre a mesa. — Resistir a quê? — perguntou, tentando soar casual, embora sentisse a tensão crescer. Ele se inclinou levemente, aproximando-se só o suficiente para que o perfume dele a envolvesse. — A mim. — Ele deu uma pausa, observando cada reação dela — Ao que você sente… ao que ainda não sabe que sente. Clara engoliu em seco, mas não deixou transparecer. — Meu trabalho é compreender mentes perturbadas — disse, tentando soar segura. — Não me perder nelas. Nando soltou um riso baixo, um som que parecia misturar diversão e aprovação. — “Não se perder” — repetiu, e por um instante algo na forma como ele disse fez o ar parecer mais quente na cela. — Interessante… porque já sinto que você está se perdendo, doutora. Ela fechou levemente os olhos por um instante, respirando fundo, e quando abriu, manteve o olhar firme. — Se isso acontecer, será apenas curiosidade profissional — respondeu, com a voz calma, mas cada fibra dela alerta. Ele sorriu, e algo nele mudou. Não mais o homem calado e observador; agora havia um toque de desafio, de provocação consciente. — Então vamos testar seus limites — disse, cruzando os braços e recostando-se. — Conte-me algo que você nunca contou a ninguém. Clara sentiu um arrepio, mas disfarçou, mantendo o sorriso. Sabia que ele tentava sondar não apenas sua mente, mas seu coração. — Isso é contra as regras — respondeu, firme, tentando manter a distância. — Regras são feitas para testar — replicou ele, o sorriso sutil, provocador. — E você gosta de desafios, lembra? Ela respirou fundo, sentindo a química intensa entre eles. Era perigoso, fascinante e absolutamente impossível de ignorar. Mas ela continuou a disfarçar, mantendo a postura de profissional dedicada. Por fora, calma. Por dentro, uma tempestade. E assim, entre silêncios, provocações e pequenos gestos que nenhum outro humano fora dela perceberia, Clara começou a se permitir sentir: fascínio, curiosidade, atração. Tudo controlado, contido, mas inegável. Ela sabia que estava se aproximando de algo perigoso — mas também sabia que não queria recuar.
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