Quando Clara entrou na sala de sessões naquele dia, percebeu imediatamente que algo estava diferente.
Nando já estava sentado.
Mas não estava como sempre.
Normalmente ele a observava com aquele olhar intenso, quase provocador. Mas naquele dia havia algo frio nele. Distante. O maxilar travado, os braços cruzados, os olhos escuros carregados de algo que ela não conseguia identificar de imediato.
Clara se sentou devagar.
— Boa tarde, Nando.
Ele respondeu sem expressão:
— Boa tarde, Clara.
Aquilo já era estranho. Ele nunca a chamava pelo nome daquele jeito tão seco.
Ela abriu a pasta, tentando manter o profissionalismo.
— Você parece… diferente hoje.
Nando soltou uma pequena risada sem humor.
— Diferente?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu só estou pensando em uma coisa que você disse.
Clara franziu a testa.
— O quê?
Ele a encarou diretamente.
— Você não disse que seu noivado era algo antigo… sem importância?
O coração de Clara deu um pequeno salto.
— O que isso tem a ver, Nando?
Os olhos dele ficaram ainda mais escuros.
— Eu vi você indo embora com ele.
O silêncio caiu na sala.
— A mão dele nas suas costas.
Clara soltou um pequeno suspiro, percebendo de onde vinha aquela tensão.
— Nando… ele sempre fez isso. É o jeito dele de me proteger.
Nando soltou uma risada baixa, cheia de sarcasmo.
— Proteger.
Clara cruzou os braços.
— O casamento já era para ter acontecido dois anos atrás — continuou ela. — Mas eu não quis.
Ele a observava com intensidade.
— Porém… — disse ela, respirando fundo — eu não posso simplesmente terminar assim.
— Não pode? — perguntou Nando.
— Já tentei — respondeu ela. — Mas não posso.
Ela desviou o olhar por um instante.
— Meu pai controla isso… e o Henrique também.
Nando ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou baixo:
— Sei.
O jeito que ele disse aquilo irritou Clara imediatamente.
Ela fechou a pasta com um pequeno estalo.
— Ah não… — disse ela — você não vai fazer isso comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Fazer o quê?
— Esse tom de deboche.
Ela levantou da cadeira.
— Você mesmo disse que é um homem r**m para mim. Que não daríamos certo juntos.
Ela deu um passo mais perto dele.
— Aí depois diz que eu sou sua…
Outro passo.
— E agora está surtando de ciúmes?
O silêncio entre eles ficou pesado.
Nando levantou devagar da cadeira.
Agora os dois estavam frente a frente.
— Eu não estou surtando — disse ele.
A voz dele estava baixa. Controlada.
Mas perigosa.
— Estou sendo honesto.
Clara cruzou os braços.
— Honesto?
Ele deu um passo mais perto.
— Eu não gosto de ver outro homem tocando em você.
O coração dela acelerou.
— Você não tem esse direito.
Nando inclinou levemente a cabeça.
— Não?
Ela sustentou o olhar dele.
— Não.
O silêncio entre os dois parecia eletricidade no ar.
Então Nando falou, mais baixo:
— Então por que você quase me beijou outro dia?
O ar pareceu desaparecer da sala.
Clara ficou imóvel.
— Você sentiu aquilo também — continuou ele.
Ela respirou fundo.
— Nando…
Ele deu mais um passo.
Agora estavam muito perto.
— Você passa horas comigo. Entra na minha mente. Me olha daquele jeito…
Os olhos dele desceram lentamente para os lábios dela.
— E quer que eu acredite que não sente nada?
O coração dela batia forte.
— Eu sinto — admitiu ela finalmente.
O olhar dele se intensificou.
— Mas isso não muda o fato de que você está preso… e eu tenho uma vida lá fora.
Nando ficou em silêncio por um momento.
Então disse algo que fez o coração dela parar por um segundo:
— Eu saio daqui um dia.
Clara levantou o olhar para ele.
— E quando eu sair…
Ele se inclinou um pouco mais perto dela.
— Nós vamos terminar essa conversa.
O silêncio voltou a dominar a sala.
E Clara percebeu que aquele jogo entre eles estava ficando cada vez mais perigoso.
Porque agora não era mais apenas atração.
Era ciúme.
Desejo.
E algo muito mais profundo começando a nascer entre eles.