pingos nos i

701 Palavras
Quando Clara entrou na sala de sessões naquele dia, percebeu imediatamente que algo estava diferente. Nando já estava sentado. Mas não estava como sempre. Normalmente ele a observava com aquele olhar intenso, quase provocador. Mas naquele dia havia algo frio nele. Distante. O maxilar travado, os braços cruzados, os olhos escuros carregados de algo que ela não conseguia identificar de imediato. Clara se sentou devagar. — Boa tarde, Nando. Ele respondeu sem expressão: — Boa tarde, Clara. Aquilo já era estranho. Ele nunca a chamava pelo nome daquele jeito tão seco. Ela abriu a pasta, tentando manter o profissionalismo. — Você parece… diferente hoje. Nando soltou uma pequena risada sem humor. — Diferente? Ele inclinou levemente a cabeça. — Eu só estou pensando em uma coisa que você disse. Clara franziu a testa. — O quê? Ele a encarou diretamente. — Você não disse que seu noivado era algo antigo… sem importância? O coração de Clara deu um pequeno salto. — O que isso tem a ver, Nando? Os olhos dele ficaram ainda mais escuros. — Eu vi você indo embora com ele. O silêncio caiu na sala. — A mão dele nas suas costas. Clara soltou um pequeno suspiro, percebendo de onde vinha aquela tensão. — Nando… ele sempre fez isso. É o jeito dele de me proteger. Nando soltou uma risada baixa, cheia de sarcasmo. — Proteger. Clara cruzou os braços. — O casamento já era para ter acontecido dois anos atrás — continuou ela. — Mas eu não quis. Ele a observava com intensidade. — Porém… — disse ela, respirando fundo — eu não posso simplesmente terminar assim. — Não pode? — perguntou Nando. — Já tentei — respondeu ela. — Mas não posso. Ela desviou o olhar por um instante. — Meu pai controla isso… e o Henrique também. Nando ficou em silêncio por alguns segundos. Então falou baixo: — Sei. O jeito que ele disse aquilo irritou Clara imediatamente. Ela fechou a pasta com um pequeno estalo. — Ah não… — disse ela — você não vai fazer isso comigo. Ele arqueou uma sobrancelha. — Fazer o quê? — Esse tom de deboche. Ela levantou da cadeira. — Você mesmo disse que é um homem r**m para mim. Que não daríamos certo juntos. Ela deu um passo mais perto dele. — Aí depois diz que eu sou sua… Outro passo. — E agora está surtando de ciúmes? O silêncio entre eles ficou pesado. Nando levantou devagar da cadeira. Agora os dois estavam frente a frente. — Eu não estou surtando — disse ele. A voz dele estava baixa. Controlada. Mas perigosa. — Estou sendo honesto. Clara cruzou os braços. — Honesto? Ele deu um passo mais perto. — Eu não gosto de ver outro homem tocando em você. O coração dela acelerou. — Você não tem esse direito. Nando inclinou levemente a cabeça. — Não? Ela sustentou o olhar dele. — Não. O silêncio entre os dois parecia eletricidade no ar. Então Nando falou, mais baixo: — Então por que você quase me beijou outro dia? O ar pareceu desaparecer da sala. Clara ficou imóvel. — Você sentiu aquilo também — continuou ele. Ela respirou fundo. — Nando… Ele deu mais um passo. Agora estavam muito perto. — Você passa horas comigo. Entra na minha mente. Me olha daquele jeito… Os olhos dele desceram lentamente para os lábios dela. — E quer que eu acredite que não sente nada? O coração dela batia forte. — Eu sinto — admitiu ela finalmente. O olhar dele se intensificou. — Mas isso não muda o fato de que você está preso… e eu tenho uma vida lá fora. Nando ficou em silêncio por um momento. Então disse algo que fez o coração dela parar por um segundo: — Eu saio daqui um dia. Clara levantou o olhar para ele. — E quando eu sair… Ele se inclinou um pouco mais perto dela. — Nós vamos terminar essa conversa. O silêncio voltou a dominar a sala. E Clara percebeu que aquele jogo entre eles estava ficando cada vez mais perigoso. Porque agora não era mais apenas atração. Era ciúme. Desejo. E algo muito mais profundo começando a nascer entre eles.
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