O homem mafioso

745 Palavras
A sala estava silenciosa depois da última confissão de Nando. Clara ainda tentava processar tudo o que ele tinha contado. A infância difícil, o primeiro assassinato aos dezessete, a forma como ele aprendera a desligar os sentimentos para sobreviver naquele mundo. Ela respirou fundo e fechou devagar a pasta. — E depois disso? — perguntou com suavidade. — Como você se tornou quem é hoje? Nando apoiou os cotovelos na mesa e ficou olhando para as próprias mãos por alguns segundos. — Depois disso… eu subi rápido. Ele levantou os olhos para ela. — Muito rápido. Clara percebeu que o olhar dele tinha algo pesado ali. — Por quê? Ele soltou um pequeno suspiro. — Porque eu era bom nisso. O silêncio caiu por um momento. — Frio. Calculista. Inteligente. Ele falou aquilo sem orgulho, apenas como um fato. — Em poucos anos eu já estava liderando operações. Depois… territórios inteiros. Clara escutava cada palavra com atenção. — E quando percebi… — continuou ele — eu já era um dos homens mais temidos da organização. Ela inclinou levemente a cabeça. — E seu pai? Nando ficou quieto por um segundo. — Mataram ele. O coração dela apertou. — Uma guerra entre famílias da máfia. Ele deu de ombros. — Depois disso… eu assumi tudo. Clara observava o rosto dele. — Você nunca quis sair desse mundo? Nando riu baixo. — Não existe sair, doutora. Ele levantou os olhos novamente. — Quando você entra… você fica. Ela ficou alguns segundos em silêncio. — Então por que você fez tudo isso? Nando demorou um pouco para responder. Mas quando respondeu, a voz saiu mais baixa. — Porque eu tinha alguém para proteger. Clara franziu levemente a testa. — Quem? — Minha irmã. Ela se surpreendeu. — Eu nunca ouvi você falar dela. — Porque ela não faz parte daquele mundo — disse ele imediatamente. Os olhos dele ficaram mais intensos. — Eu fiz questão disso. Clara sentiu algo mudar dentro dela naquele momento. — Então… tudo isso… — disse ela devagar — foi para proteger ela? Ele assentiu. — Dinheiro. Poder. Controle. Ele respirou fundo. — Era a única forma de garantir que ninguém nunca chegaria perto dela. Clara ficou olhando para ele por alguns segundos. E então disse baixinho: — Você sabe que isso não faz de você um monstro… não sabe? Nando soltou um pequeno sorriso. — A sociedade discorda de você. Ela levantou da cadeira lentamente. Ele observou cada movimento. Clara deu a volta na mesa e parou perto dele. Muito perto. — A sociedade só vê os crimes — disse ela suavemente. — Eu vejo o homem por trás deles. Nando levantou devagar da cadeira também. Agora os dois estavam frente a frente. A diferença de altura entre eles era grande, mas aquilo só tornava o momento mais intenso. — Cuidado, doutora — murmurou ele. A voz dele estava mais grave. — Você está ficando muito perto de um homem perigoso. Clara levantou o olhar azul para ele. — Eu já estou dentro da sua mente há um ano. O coração dele bateu mais forte. — E quanto mais eu entro… menos eu vejo um monstro. O silêncio entre eles ficou pesado. Carregado. Nando observava cada detalhe do rosto dela. Os olhos azuis. Os lábios. A respiração dela um pouco mais acelerada. — Você devia ter medo de mim — disse ele em voz baixa. Clara respondeu quase em um sussurro: — Eu não tenho. Ele aproximou um pouco mais. Agora estavam tão perto que conseguiam sentir a respiração um do outro. O coração de Clara disparou. Pela primeira vez em um ano… Nando parecia prestes a perder o controle. Os olhos dele desceram lentamente para os lábios dela. E por um segundo… Parecia que ele ia beijá-la. Mas então ele parou. Fechou os olhos e deu um passo para trás. — Isso não pode acontecer — disse ele. Clara ficou parada, ainda sentindo o calor daquele momento. — Por quê? Ele abriu os olhos novamente. — Porque eu destruiria você. Ela balançou a cabeça devagar. — Eu não acredito nisso. Nando olhou para ela com intensidade. — Eu sou um mafioso, Clara. Foi a primeira vez que ele disse o nome dela daquele jeito. Sem "doutora". Sem distância. Apenas Clara. — E homens como eu… — continuou ele — não têm finais felizes. Mas Clara sabia, naquele momento, que a linha entre paciente e terapeuta… já tinha sido ultrapassada há muito tempo.
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