A sala estava silenciosa depois da última confissão de Nando.
Clara ainda tentava processar tudo o que ele tinha contado. A infância difícil, o primeiro assassinato aos dezessete, a forma como ele aprendera a desligar os sentimentos para sobreviver naquele mundo.
Ela respirou fundo e fechou devagar a pasta.
— E depois disso? — perguntou com suavidade. — Como você se tornou quem é hoje?
Nando apoiou os cotovelos na mesa e ficou olhando para as próprias mãos por alguns segundos.
— Depois disso… eu subi rápido.
Ele levantou os olhos para ela.
— Muito rápido.
Clara percebeu que o olhar dele tinha algo pesado ali.
— Por quê?
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Porque eu era bom nisso.
O silêncio caiu por um momento.
— Frio. Calculista. Inteligente.
Ele falou aquilo sem orgulho, apenas como um fato.
— Em poucos anos eu já estava liderando operações. Depois… territórios inteiros.
Clara escutava cada palavra com atenção.
— E quando percebi… — continuou ele — eu já era um dos homens mais temidos da organização.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— E seu pai?
Nando ficou quieto por um segundo.
— Mataram ele.
O coração dela apertou.
— Uma guerra entre famílias da máfia.
Ele deu de ombros.
— Depois disso… eu assumi tudo.
Clara observava o rosto dele.
— Você nunca quis sair desse mundo?
Nando riu baixo.
— Não existe sair, doutora.
Ele levantou os olhos novamente.
— Quando você entra… você fica.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Então por que você fez tudo isso?
Nando demorou um pouco para responder.
Mas quando respondeu, a voz saiu mais baixa.
— Porque eu tinha alguém para proteger.
Clara franziu levemente a testa.
— Quem?
— Minha irmã.
Ela se surpreendeu.
— Eu nunca ouvi você falar dela.
— Porque ela não faz parte daquele mundo — disse ele imediatamente.
Os olhos dele ficaram mais intensos.
— Eu fiz questão disso.
Clara sentiu algo mudar dentro dela naquele momento.
— Então… tudo isso… — disse ela devagar — foi para proteger ela?
Ele assentiu.
— Dinheiro. Poder. Controle.
Ele respirou fundo.
— Era a única forma de garantir que ninguém nunca chegaria perto dela.
Clara ficou olhando para ele por alguns segundos.
E então disse baixinho:
— Você sabe que isso não faz de você um monstro… não sabe?
Nando soltou um pequeno sorriso.
— A sociedade discorda de você.
Ela levantou da cadeira lentamente.
Ele observou cada movimento.
Clara deu a volta na mesa e parou perto dele.
Muito perto.
— A sociedade só vê os crimes — disse ela suavemente. — Eu vejo o homem por trás deles.
Nando levantou devagar da cadeira também.
Agora os dois estavam frente a frente.
A diferença de altura entre eles era grande, mas aquilo só tornava o momento mais intenso.
— Cuidado, doutora — murmurou ele.
A voz dele estava mais grave.
— Você está ficando muito perto de um homem perigoso.
Clara levantou o olhar azul para ele.
— Eu já estou dentro da sua mente há um ano.
O coração dele bateu mais forte.
— E quanto mais eu entro… menos eu vejo um monstro.
O silêncio entre eles ficou pesado.
Carregado.
Nando observava cada detalhe do rosto dela.
Os olhos azuis.
Os lábios.
A respiração dela um pouco mais acelerada.
— Você devia ter medo de mim — disse ele em voz baixa.
Clara respondeu quase em um sussurro:
— Eu não tenho.
Ele aproximou um pouco mais.
Agora estavam tão perto que conseguiam sentir a respiração um do outro.
O coração de Clara disparou.
Pela primeira vez em um ano… Nando parecia prestes a perder o controle.
Os olhos dele desceram lentamente para os lábios dela.
E por um segundo…
Parecia que ele ia beijá-la.
Mas então ele parou.
Fechou os olhos e deu um passo para trás.
— Isso não pode acontecer — disse ele.
Clara ficou parada, ainda sentindo o calor daquele momento.
— Por quê?
Ele abriu os olhos novamente.
— Porque eu destruiria você.
Ela balançou a cabeça devagar.
— Eu não acredito nisso.
Nando olhou para ela com intensidade.
— Eu sou um mafioso, Clara.
Foi a primeira vez que ele disse o nome dela daquele jeito.
Sem "doutora".
Sem distância.
Apenas Clara.
— E homens como eu… — continuou ele — não têm finais felizes.
Mas Clara sabia, naquele momento, que a linha entre paciente e terapeuta…
já tinha sido ultrapassada há muito tempo.