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838 Palavras
Liz Acordei e segui minha rotina habitual: dei remédio à minha mãe, tomei um banho e me vesti. Hoje eu precisava chegar mais cedo, pois era dia de visita. A fila costuma ser longa, e como entro por um portão diferente, fica mais tranquilo. Quando cheguei, entrei pelos fundos, passei por uma revista rápida e fui direto para minha sala. Nunca ando sozinha aqui; sempre tem um policial por perto. É arriscado um preso se manifestar ou algo assim. Organizei alguns documentos, assinei casos que já tinham sido encerrados, e um policial me avisou que as visitas já estavam chegando ao pátio. Fiquei na sala por mais um tempo e, quando eram 8:40, fui para o pátio. Não estou há muito tempo nesse presídio, então só os pacientes que atendo costumam me reconhecer. Os outros m*l me olham, pensando que sou visita de algum preso. Não sabem que estou aqui para observá-los. Conversei com um paciente e, em um momento da conversa, ele começou a chorar, dizendo que não aguentava mais estar ali, outra vez sem visita. É uma situação bem pesada. Enquanto caminhava pelo pátio, avistei Hell. Ele estava com o olhar fixo à frente, cheio de esperança. Segui seu olhar e percebi: uma mulher muito bonita se aproximava, segurando uma criança nos braços. O garotinho saiu correndo e pulou no colo de Hell, que se abaixou e o beijou. A felicidade entre eles era palpável. Hell levantou o menino e foi até a mulher, dando um beijo apaixonado nela, enquanto ela chorava e ele acariciava seus cabelos pretos. Que cena linda... --- Sara Estou com Hell há sete anos, quase oito. Nunca foi fácil, para ser sincera. Quando completamos três anos de relacionamento, ele foi preso, e a partir daí tudo se complicou, especialmente quando descobri que estava grávida. Soube da gravidez logo após sua prisão, quando passei m*l ao saber que ele tinha sido capturado. Hell está preso há quatro anos e muda de presídio frequentemente. Fiquei um ano sem vê-lo porque ele foi colocado em castigo por ter matado alguém na prisão. Imagine o que é passar um ano sem ver seu marido. Foi muito doloroso. Chorei muitas noites. Sempre mostro fotos de Hell para o Breno, nosso filho. Ele só teve uma saída temporária uma vez, quando o Breno tinha três meses. Desde então, nunca mais saiu para ver a família. Ele não consegue a saída, e quanto mais tempo passa, mais difícil fica. Isso me machuca, porque meu filho crescerá sem o pai ao seu lado e, por muitos anos, vou ter que enfrentar a humilhação de entrar naquele lugar. Mas, por eles, vale a pena. Moro com minha sogra, mãe de Hell. Somos muito amigas, e ela é incrível! Hell a adora e nunca deixou faltar nada para nós duas, mesmo de dentro da prisão. Ele continua comandando a favela do Vidigal, dando ordens para os que estão fora. Isso me machuca, porque mesmo lá dentro ele não aprendeu nada. Continua no crime, querendo traficar, mantendo as mesmas escolhas. Mudou de presídio novamente, e esse é mais próximo de onde moramos. Depois de um ano, poderei vê-lo novamente e levarei o Breno! Já estou emocionada só de pensar nesse momento. Nada é melhor do que ver aquele sorriso de novo, sentir seu toque e seu beijo. A cena mais linda foi ver a felicidade de Breno ao ver o pai. Me emocionei tanto! Era só olhar para ele que todo esse tempo longe valia a pena. Fomos para o cantinho da cela e dei a ele a comida que trouxe. Sara: E aí, amor? Como estão as coisas? Você sabe quando terá alguma saída ou algo assim? Hell: Nem sei, amor. Essas coisas são complicadas! Estou pulando de presídio em presídio. Não dá para fazer planos assim. Sara: Um ano longe de mim e do Breno não foi suficiente? Você não cansa de aprontar, de vacilar e de ficar sem nós? Hell: Claro que canso, Sara. Mas aqui dentro é complicado. Se eu não der ordens, vão dar em mim. E você não sabe da nova que fizeram pra mim. Sara: O que foi dessa vez? — falei cabisbaixa. Hell: Colocaram uma mulher... psicóloga, sei lá o que ela é, para me tratar, como se eu fosse maluco. Fiquei puto, eles querem me cercar de qualquer jeito, achando que vou soltar alguma coisa pra ela. Sara: O que ela te disse? Hell: Que se eu me saísse bem, poderia diminuir minha pena... Mó lorota! Sara: Pensa pelo lado bom... Tenta conversar com ela, quem sabe você não consegue uma saída, pelo menos para o aniversário do Breno. Hell: Sem chances, não vou falar com aquela mulher. Sara: Pelo nosso filho, amor. É tão doloroso passar todos esses aniversários sem o pai ao lado. Isso machuca. — Ele ficou calado, olhando para Breno que dormia. Ficamos assim, em silêncio, até que percebi que precisava matar a saudade. Ele me puxou para perto e me beijou. O resto da visita foi só amor.
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