Tairon narrando
Eu tava na boca desde cedo. Tentando ocupar a cabeça. Porque quando minha cabeça ficava vazia, ela sempre acabava voltando pro mesmo lugar. Heloísa. Sempre ela. Era impressionante. Passei três anos sem conseguir esquecer aquela mulher. E agora que ela tava de volta, parecia que tinha ficado ainda pior. Eu não conseguia pensar em outra coisa.
Peguei o rádio.
— Se alguém ver o Sapão pelo morro, passa a visão pra ele colar aqui na boca.
— Já é, patrão.
— Quero trocar uma ideia com ele.
— Certo.
Guardei o rádio. Mas não demorou nem cinco minutos para outro chamado chegar.
— Patrão.
— Fala.
— O Sapão tá lá na Bomba Dólar.
Balancei a cabeça. Era óbvio. p***a. Se a Heloísa tinha voltado pra assumir o comando, onde mais ele estaria? Meu coroa provavelmente tava ensinando tudo pra ela. Mostrando os pontos. Explicando as movimentações. Apresentando as responsabilidades. Tudo aquilo que um dia seria dela. Respirei fundo. Naquele momento eu já sabia que não adiantava ir atrás. Nem mandar chamar. Nem insistir. Se ele estivesse com ela, não viria. E eu também não queria atrapalhar. Então deixei quieto.
Continuei resolvendo minhas paradas. Conferindo carga. Falando com os vapores. Organizando a segurança do baile. Resolvendo problema de fornecedor. Mais uma porrada de coisa que nunca acabava.
Quando deu perto da hora do almoço, meu celular vibrou. Angélica. Abri a mensagem. "Fiz comida." Logo embaixo veio outra. "Vai vir almoçar?" E depois outra. "Ou quer que eu leve marmita?" Fiquei olhando a tela por alguns segundos. Antes aquilo me deixava feliz. Hoje... Hoje só me fazia sentir culpado.
Digitei a resposta. "Tô ocupado." "Não vou conseguir sair da boca." "Tô resolvendo umas paradas." "Não precisa trazer nada." "Tô sem fome." Enviei. E esperei. Normalmente ela respondia rápido. Mas dessa vez não respondeu. Nem visualizou. Nem mandou figurinha. Nada. O silêncio dela me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.
Guardei o celular. E tentei voltar ao trabalho. Mas minha cabeça tava longe dali. Muito longe. Porque pela primeira vez eu tava começando a aceitar uma verdade que vinha evitando fazia tempo. Eu não amava mais a Angélica. Talvez nem tivesse amado da forma que ela merecia. Gostava dela. Me importava. Queria proteger. Queria ver bem. Mas amor? Amor era outra coisa. E infelizmente eu sabia exatamente como ele era. Porque eu sentia por outra pessoa. Sentia desde moleque. Sentia até hoje.
A porta da minha sala abriu. Levantei os olhos. E encontrei justamente quem eu procurava. Sapão. Meu pai. Entrou calmamente. Fechou a porta. E sentou na cadeira em frente à minha mesa.
— Que foi?
Cruzei os braços.
— Nós precisamos conversar.
Ele suspirou. Como se já soubesse exatamente sobre o que era.
— Sobre o quê?
Revirei os olhos.
— Para de se fazer de desentendido.
Ele permaneceu em silêncio.
— Tu sabe muito bem.
Meu pai passou a mão na barba.
— Fala então.
— Três anos.
Ele continuou me olhando.
— Três anos, coroa.
A sala ficou silenciosa.
— Eu passei três anos procurando notícia da Heloísa. — Minha voz saiu mais dura. — Três anos querendo saber onde ela tava.
— Eu sei.
— E tu sabia.
Ele não respondeu.
— Tu sabia exatamente onde ela tava.
Silêncio.
— E nunca me falou nada.
Meu pai respirou fundo. Depois apoiou os braços nos joelhos.
— No dia que o pai dela morreu... — A voz dele saiu baixa. — Eu fiz uma promessa.
Meu peito apertou.
— Que promessa?
— Que eu protegeria ela.
Olhei para ele.
— De tudo. — Ele assentiu. — E de todos.
Aquela resposta me irritou.
— Eu não sou todo mundo.
— Eu sei.
— Então por que me escondeu?
Ele me encarou.
— Porque naquele momento ela precisava sair daqui.
Balancei a cabeça.
— Eu sei.
— Precisava desaparecer.
— Eu sei.
— Precisava sobreviver.
— Eu sei! — Bati na mesa.
Meu pai não se abalou.
— Então qual é o problema?
Levantei.
— O problema é que tu podia pelo menos ter me falado onde ela tava.
— Não podia.
— Podia sim.
— Não podia.
— Por quê?
Ele levantou também.
— Porque tu teria ido atrás dela.
Abri a boca. Fechei. E depois ri sem humor.
— Claro que eu teria ido.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
— Esse era exatamente o problema.
Passei a mão no rosto. Frustrado.
— Eu só queria ver ela.
— Eu sei.
— Queria saber se tava viva.
— Eu sei.
— Queria saber se tava bem.
— Eu sei.
Aquilo me irritava. Porque ele respondia tudo com calma. Enquanto eu tava explodindo.
— Talvez... — Parei por um instante. Talvez se eu tivesse encontrado ela antes... Talvez se eu tivesse conseguido falar tudo que sentia... Talvez...
— Talvez o quê? — Meu pai perguntou.
Olhei para ele.
— Talvez hoje as coisas não estivessem desse jeito.
Ele cruzou os braços.
— E talvez o quê?
— Talvez eu não tivesse...
Nem consegui terminar. Porque ele me interrompeu.
— Não estaria com a Angélica?
O silêncio respondeu por mim. Meu pai assentiu lentamente. Como se confirmasse algo que já sabia.
— Tu não deve nada pra ela.
Aquilo me fez franzir a testa.
— Como é?
— Tu ouviu.
— Ela perdeu um filho meu.
— Eu sei.
— Ela quase morreu.
— Eu sei.
— Ela entrou em depressão.
— Eu sei.
— Então não fala como se eu pudesse simplesmente largar ela.
Meu pai respirou fundo.
— Eu não tô dizendo que é fácil.
— Não parece.
— Tô dizendo que tu não pode viver uma mentira.
Aquilo me atingiu em cheio. Porque era exatamente disso que eu tava fugindo.
— Se tu quer reconquistar a Heloísa... — Meu coração acelerou. — Então resolve tua vida primeiro.
Fiquei em silêncio.
— Porque enquanto tu estiver com a Angélica... — Ele apontou para mim. — A Heloísa nunca vai te dar uma chance.
Eu sabia. p***a. Eu sabia.
— Tu conhece ela.
Balancei a cabeça lentamente.
— Conheço.
— Então sabe.
Sabia mesmo. Heloísa jamais ficaria com homem comprometido. Jamais pisaria em outra mulher. Não importava quem fosse. Não fazia parte dela.
— Ela não vai querer sair como talarica. — A frase do meu pai ecoou dentro da minha cabeça. Porque era verdade. Absoluta.
— Então se tu acha que ainda tem alguma chance... — Ele continuou. — Resolve tua vida.
— Eu vou resolver.
— Espero que sim.
— Vou.
Meu pai assentiu. Mas depois falou algo que me acertou pior que qualquer soco.
— Porque ela não vai ficar esperando.
Meu coração afundou.
— O quê?
— A Heloísa. — Ele me encarou. — Ela é nova.
— Eu sei.
— Linda.
— Eu sei.
— Inteligente.
— Eu sei.
— E uma hora ela vai cansar.
Meu estômago embrulhou.
— Não.
— Vai.
— Não vai.
— Vai sim. — A voz dele saiu firme. — Vai cansar de ficar sozinha.
Apertei os punhos.
— Não.
— Vai conhecer alguém.
— Não.
— Vai se apaixonar.
— Não! — Bati na mesa novamente. Sentindo a raiva subir. Sentindo o peito pegar fogo.
Meu pai continuava me olhando.
— E aí?
Respirei pesado.
— Isso não vai acontecer.
— Vai.
— Não vai.
— Tu não controla isso.
Foi aí que explodi.
— Só por cima do meu cadáver.
A frase saiu antes mesmo que eu percebesse. Meu pai fechou os olhos. E balançou a cabeça.
— Tá vendo?
— O quê?
— Tu continua sendo moleque.
Aquilo me irritou ainda mais.
— Moleque?
— Sim.
— Eu tenho vinte e sete anos.
— E continua pensando igual um adolescente apaixonado.
Cerrei os dentes.
— Ela é minha.
Meu pai soltou uma risada sem humor.
— Não.
— É sim.
— Não é.
— É.
— Não é propriedade tua.
As palavras dele me acertaram.
— Cresce, Tairon.
O silêncio tomou conta da sala.
— E para de achar que o mundo funciona do teu jeito.
Ninguém falou mais nada. Ele apenas virou as costas. Abriu a porta. E saiu. Me deixando sozinho. Parado no meio da sala. Com o sangue fervendo. Com a cabeça explodindo. E com uma única certeza martelando dentro de mim.
Meu pai estava certo sobre uma coisa. Se eu não resolvesse minha vida logo... Eu corria o risco de perder a Heloísa pela segunda vez. E dessa vez... Talvez fosse para sempre.