CAPÍTULO 28

692 Palavras
Clara Eu não deveria estar ali. Essa é a única certeza que me acompanha enquanto caminho pela rua estreita, m*l iluminada, onde os prédios parecem se inclinar uns sobre os outros, como cúmplices silenciosos. O ar é denso, carregado de fumaça, álcool e algo mais perigoso. Sinto isso na pele, no arrepio que não me abandona desde que decidi seguir as pistas que ninguém quis me dar. Se Lucas estivesse aqui, jamais me deixaria chegar perto desse lugar. Talvez por proteção. Talvez por medo de que eu visse demais. O nome do bar não aparece em nenhuma placa visível. Apenas uma porta metálica escura, marcada pelo tempo e por histórias que não querem ser lembradas. A música grave vibra do outro lado, abafada, quase como um coração batendo fora do ritmo. Respiro fundo antes de entrar. Assim que atravesso a porta, sinto todos os olhares se voltarem para mim. Não de forma óbvia, mas o suficiente para eu perceber. Sou um corpo estranho naquele ambiente. Mulheres com vestidos colados demais, homens com expressões duras, olhares calculistas. Aqui ninguém sorri por educação. O cheiro de bebida forte se mistura ao de suor e fumaça. As luzes são baixas, avermelhadas, criando sombras que parecem se mover sozinhas. Cada passo meu ecoa alto demais no chão gasto, denunciando que eu não pertenço àquele mundo. Caminho até o balcão tentando parecer confiante, mas minhas mãos estão frias. O bartender me encara por alguns segundos antes de perguntar o que vou querer. Peço qualquer coisa. Não importa. Só preciso ficar ali tempo suficiente. — Você está perdida — diz uma voz masculina às minhas costas. Viro devagar. O homem que me observa tem um sorriso torto e olhos atentos demais. Ele me analisa como quem tenta decifrar um enigma. — Não — respondo, mesmo sem convicção. — Estou procurando alguém. O sorriso dele se alarga um pouco. — Todo mundo aqui está. Volto a olhar para o copo à minha frente, sentindo o coração acelerar. Sei que qualquer palavra errada pode me colocar em uma situação que não sei como sair. — Lucas — digo, quase num sussurro. — Você conhece? O efeito é imediato. O homem não responde. Apenas inclina levemente a cabeça, como se estivesse avaliando até onde pode ir. O bartender finge não ouvir, mas seus dedos apertam o pano que segura. — Esse nome não se diz assim — ele responde, por fim. — Principalmente aqui. Engulo em seco. — Eu só preciso saber se ele esteve aqui. O homem se aproxima um pouco mais, invadindo meu espaço pessoal. — Você é o quê dele? — pergunta, baixo. A pergunta me pega desprevenida, O que eu sou do Lucas? A garota está errada, O desejo proibido. O erro que ele tentou evitar. — Uma amiga — respondo. Ele ri. — Não parece. Antes que eu possa reagir, ele se afasta, deixando algumas notas sobre o balcão. — Volta para casa, garota — diz por cima do ombro. — Tem lugares que engolem quem entra sem saber nadar. Fico ali, imóvel, enquanto ele desaparece no meio da multidão. Meu coração bate tão forte que parece querer escapar do peito. Termino a bebida em um gole só. O líquido queima a garganta, mas não apaga o medo. Quando saio do bar, o ar frio da noite me atinge como um choque. Caminho rápido, sentindo o coração martelar nos ouvidos. Cada sombra parece ganhar forma, cada passo atrás de mim soa próximo demais. Tenho certeza de que estou sendo seguida. Viro uma esquina, depois outra, tentando manter a calma. Meu celular vibra no bolso, quase me fazendo pular de susto. Número desconhecido. “Você entrou onde não devia.” Minhas pernas enfraquecem. Olho ao redor desesperada, mas a rua está vazia. Nenhum rosto. Nenhuma resposta. Guardo o celular com força e continuo andando, agora quase correndo. Só consigo pensar em uma coisa, Lucas sabia desse lugar. Lucas conhecia esse mundo. E fez de tudo para me manter longe dele. Pela primeira vez, entendo que o silêncio dele não era apenas fugaz. Era proteção. E eu acabei de cruzar uma porta que talvez nunca devesse ter aberto.
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