Lucas
Eu soube que ela viria antes mesmo de vê-la.
Há um tipo específico de silêncio que antecede o desastre.
Eu conheço bem.
Ele se instala na pele, aperta a nuca, deixa o corpo em alerta constante.
Quando senti isso naquela noite, tive certeza, Clara tinha cruzado uma linha que eu passei a vida inteira tentando me manter distante dela.
Ela nunca deveria ter entrado naquele bar.
Nunca deveria ter dito meu nome naquele lugar.
Fico nas sombras do outro lado da rua, observando enquanto ela sai apressada, o olhar inquieto, o corpo tenso demais para alguém que finge normalidade.
O medo ainda não tomou conta completamente, mas está lá rastejando, aprendendo o caminho.
E isso é culpa minha.
A vontade imediata é ir até ela, pegá-la pelo braço e levá-la para longe dali, sem explicações, sem espaço para perguntas.
Mas sei que isso só a faria resistir. Clara não foge quando é empurrada, Ela enfrenta, Sempre enfrentou.
Espero.
Dou alguns passos quando percebo que ela sente que está sendo seguida.
O ritmo da respiração muda, O andar acelera.
Ela vira a esquina com pressa demais, como quem sabe que algo está errado, mas ainda não entende o tamanho do problema.
— Clara.
Chamo baixo. Controlado.
Ela gira no mesmo instante, os olhos arregalados, o corpo pronto para fugir ou lutar.
Quando me vê, o alívio vem primeiro, logo depois, a raiva.
Sempre nessa ordem.
— Você me seguiu, ela diz, a voz firme demais para quem acabou de sair de um lugar onde poderia ter se perdido para sempre.
— Eu te encontrei corrijo, me aproximando apenas o suficiente para que ela sinta minha presença.
— Você não devia estar aqui.
O olhar dela escurece.
— Eu posso cuidar de mim mesma.
— Não ali — respondo, mais duro do que pretendia.
— Não naquele lugar.
Ela cruza os braços, tentando se proteger , de mim ou do que ouviu, ainda não sei.
— Por quê? — pergunta.
— O que tem lá que você nunca me contaria?
Essa pergunta.
Ela é sempre assim, direta, teimosa, perigosa para alguém como eu.
Dou um passo à frente, invadindo o espaço dela de propósito.
Quero que entenda a gravidade sem que eu precise dizer nomes, histórias, mortes.
— Tem mundos que não admitem testemunhas — digo.
— E você não pertence a nenhum deles.
— Mas você pertence — ela rebate.
Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa mais do que um soco.
— Já pertenci — respondo, por fim.
— E paguei caro por isso.
Ela me encara, procurando rachaduras.
Algo que eu nunca permito que vejam.
Mas Clara sempre esteve perto demais de conseguir.
— Estão me mandando mensagens — ela diz.
— Dizendo que você tem sangue nas mãos.
Meu maxilar se fecha automaticamente.
— E você acreditou?
— Eu não sei o que acreditar — ela admite, e isso dói mais do que qualquer acusação.
— Você sumiu. Todo mundo me manda ficar longe. Você nunca explica nada.
A raiva que sinto não é dela.
É de mim, Do passado, Das escolhas que me trouxeram até aqui.
— Eu sumi porque ficar perto de mim te coloca em perigo — digo, com a voz baixa.
— E hoje você provou isso.
Ela dá um passo atrás.
— Então é verdade?
Fecho os olhos por um segundo, Apenas um.
Porque se eu encarar essa pergunta por muito tempo, posso acabar dizendo coisas que nunca deveriam ser ditas.
— A verdade não é algo que você vai suportar — respondo.
— Não ainda.
— Você não tem o direito de decidir isso por mim.
Abro os olhos.
Ela está tremendo, mas não recua.
Clara nunca recua quando sente que está perto de algo importante.
— Eu tenho — digo, agora firme.
— Porque se você continuar cavando, alguém vai tentar te usar Ou te quebrar Ou te matar.
A palavra paira entre nós como uma lâmina.
Vejo o medo atravessar o rosto dela.
Rápido Controlado, Mas real.
— Então por que está aqui agora? — ela pergunta.
Me aproximo mais uma vez, até que não exista mais espaço seguro entre nós.
— Porque você entrou onde não devia — digo.
— E isso me obriga a sair das sombras.
Ela engole em seco.
— Você está me ameaçando?
— Estou te protegendo — respondo.
— Mesmo que você me odeie por isso.
Por um instante, penso que ela vai me bater, Ou chorar, Ou correr.
Mas Clara apenas me encara, os olhos cheios de perguntas que eu não posso responder.
— Fica longe desses lugares — digo, por fim.
— E de quem tentar falar comigo através de você.
— E de você? — ela pergunta.
Essa é a pergunta mais difícil de todas.
Dou um passo atrás, Crio distância, Forço o controle de volta para o lugar onde ele costuma morar.
— Especialmente de mim.
Me viro antes que ela veja o que essa decisão me custa.
Antes que eu falhe.
Enquanto caminho para longe, sinto o peso inevitável.
Ela já viu demais.
Perguntou demais.
E se aproximou perigosamente da parte da minha vida que sempre termina em sangue.
O encontro nas sombras não foi um acaso.
Foi um aviso.
E eu sei, com uma clareza brutal, que o pior ainda está por vir.