Lucas
Afastar-me dela é como arrancar algo vivo de dentro do meu peito.
Caminho pelas ruas sem rumo aparente, mas cada passo é calculado, Olhos atentos, Corpo tenso.
A cidade nunca dorme para quem sabe o que procurar e eu sei, sempre soube.
O problema é que Clara agora começou a enxergar os contornos desse mundo e isso a coloca perigosamente perto demais da minha verdade.
A verdade é que eu não posso contar.
Encosto-me à parede de um prédio abandonado, respirando fundo.
O reflexo no vidro quebrado me devolve um rosto que não combina com a imagem que ela conhece.
Mandíbula dura.
Olhar carregado de coisas que não se apagam.
Sangue não sai da pele só porque o tempo passa.
Eu tentei ser diferente por ela.
Quando Clara entrou na minha vida, foi como uma f***a inesperada na armadura.
Ela ria fácil, falava demais, perguntava coisas que ninguém nunca teve coragem de perguntar.
E eu deixei.
Porque, por um instante, quis acreditar que podia ser só um homem.
Não o que resolve problemas no escuro.
Não o que enterra nomes junto com corpos.
Um homem comum.
Mas homens como eu não ganham finais comuns.
Meu celular vibra no bolso.
Um nome que eu esperava e temia.
Dante.
Atendo sem dizer nada.
— Ela foi ao bar — ele diz, direto.
— Isso espalhou rápido.
— Eu sei — respondo.
— Já resolvi.
— Não resolveu tudo — ele rebateu.
— O nome dela já circula.
Fecho os olhos por um segundo.
— Apaga — digo. — Agora.
— Não é assim que funciona, Lucas. Quando alguém olha para onde não deve, o sistema reage.
— O sistema que se dane — rosno. —Clara não faz parte disso.
Há um silêncio do outro lado da linha.
Um silêncio que conheço bem demais.
— Você está fraco — Dante diz, por fim.
— E fraqueza custa caro.
Desligo sem responder.
Ele está certo.
E isso é o mais perigoso.
Caminho até meu carro, estacionado longe demais para ser coincidência.
Antes de entrar, faço a varredura automática.
Nada fora do lugar.
Ainda assim, a sensação de estar sendo observado não vai embora.
Nunca vai.
Dirijo sem destino fixo até parar num galpão antigo, afastado do centro.
Meu refúgio.
Meu inferno particular.
É ali que guardo o que restou da minha outra vida , documentos falsos, armas, dinheiro que nunca passou por bancos.
Provas de que o passado não ficou para trás.
Entro e acendo a luz fraca.
As sombras revelam lembranças que não falam, mas gritam.
Eu me lembro da primeira vez que matei.
Não por ódio.
Não por prazer.
Mas porque alguém decidiu que eu era a ferramenta ideal.
Depois disso, uma coisa leva à outra.
Você cruza linhas achando que pode voltar.
Não pode.
O mundo subterrâneo não devolve quem aprende a sobreviver nele.
Clara não sobreviveria.
Ela tem olhos honestos demais.
Um coração que ainda acredita que tudo pode ser explicado.
Que toda verdade liberta.
Algumas só destroem.
A verdade que eu carrego tem nomes.
Tem rostos. Tem gritos que ainda me acordam à noite.
E se ela soubesse.
Se Clara soubesse o que precisei fazer para manter certas pessoas longe dela…
Ela nunca mais me olharia da mesma forma.
Apoio as mãos na mesa de metal, sentindo o frio atravessar a pele.
Penso no jeito como ela me encarou naquela rua, Desafiadora, Ferida, Determinada a não aceitar meias respostas.
Ela vai continuar procurando.
E isso significa que alguém vai tentar chegar até mim através dela.
Não posso permitir.
Não depois de tudo que sacrifiquei para mantê-la fora disso.
Meu celular vibra novamente.
Número desconhecido.
Atendo.
— Ela está se aproximando da verdade — diz uma voz distorcida.
— E verdades cobram preços.
— Chega perto dela e eu acabo com você — respondo, sem alterar o tom.
A risada do outro lado é baixa.
— Você já sabe como isso termina, Lucas. Pessoas como nós não escolhem quando parar.
Desligo devagar.
Fico ali, no silêncio pesado do galpão, encarando o nada.
Pela primeira vez em muito tempo, sinto algo parecido com medo, Não por mim, Nunca por mim.
Por ela.
A verdade que eu não posso contar não é apenas sobre o que fiz.
É sobre o que ainda sou capaz de fazer.
E se for preciso afundar de vez nesse mundo para manter Clara viva, então que seja.
Ela pode me odiar.
Pode me perder.
Pode nunca me perdoar.
Mas não vai morrer por minha causa.
Essa é a única verdade que importa.