Lucas Existem verdades que não se contam para aliviar a consciência. Contam-se porque, se continuarem guardadas, apodrecem tudo ao redor. Clara está sentada no sofá, as mãos unidas no colo, o olhar atento demais para alguém que finge calma. A casa está silenciosa, mas não é um silêncio vazio é um silêncio carregado, daqueles que antecedem decisões irreversíveis. Eu fico de pé, perto da janela, observando o reflexo do meu próprio rosto no vidro escuro. Não gosto do que vejo. Mas nunca gostei. — Você disse que queria a verdade — digo, sem encará-la ainda. — Toda ela. Sinto o movimento sutil quando ela assente. Não fala nada. Clara sempre soube quando palavras atrapalham. Viro-me devagar. O rosto dela está pálido, mas firme. Corajosa. Sempre foi. Talvez por isso tenha sido arrastada

