“Entre o passado, onde estão nossas recordações, e o futuro, onde estão nossas esperanças, fica o presente, onde está o nosso dever.”
O despertador tocou indicando que já eram 06:00 da manhã. Gabriel já estava de pé há mais de duas horas. Era sempre assim, todas as noites ele era atormentado por seus pesadelos. Será que em algum momento da sua vida isso iria ter fim? Será que um dia ele enfim teria uma nova oportunidade de ser feliz? Suspirou fundo, passou as mãos sob seus fios loiros que já estavam crescendo e pensou : — Preciso cortar o cabelo. Fez seu desjejum e saiu rumo ao seu trabalho.
Chegando na escola, se dirigiu ao seu quarto e lá antes de chegar ao seu destino, encontrou uma figura que até então não tinha visto. Era uma senhora baixinha, branquinha e gordinha, ela usava um lenço cobrindo a cabeça e tinha um lindo sorriso. A idosa sorriu para ele e disse:
— Olá, meu jovem. Me chamo Martha, mas todos aqui me conhecem apenas por vovó, sou responsável pela refeição de todos vocês. — falou sorrindo para Gabriel. O homem sentiu uma paz naquele sorriso e resolveu retribuir a gentileza sorrindo e dizendo:
— Olá senhora Martha, me chamo Gabriel Parsons, sou o novo zelador da escola.
— Seja bem vindo meu rapaz. — completou a senhora sorrindo. — Agora entendi o porquê do rebuliço das alunas mais velhas e de algumas professoras. Um jovem tão bonito como você aqui, só poderia deixar muitos corações agitados. Gabriel sorriu contido e baixou a cabeça envergonhado. Martha achou graça e disse:
— Me diga, tem namorada?
Gabriel soltou uma gargalhada alta , não conseguindo se conter. Será possível que estava levando uma cantada da idosa? Martha o acompanhou na risada e disse em seguida:
— Olha meu jovem, não me leve a m*l , sou casada e muito bem casada, mas isso não quer dizer que não posso achar um homem bonito. Na verdade eu quis saber se você estava solteiro mas não foi para mim, e sim para alguém especial. — a idosa falou com os olhos brilhando. Gabriel a olhou com carinho, e respondeu em seguida:
— Não senhora, Martha, não tenho ninguém. — Martha ficou animada. — Já tive em uma fase da minha vida, mas agora estou sozinho, e sinceramente, acho que não seria uma boa companhia para uma mulher no momento. — falou entristecido. A idosa se aproximou do mais novo e tocou o seu rosto com carinho. A diferença de tamanho era gritante, já que o zelador era um homem bem alto e a senhora Martha era baixinha. Gabriel encarou a idosa nos olhos e sentiu acalento naquele olhar, Martha sorriu novamente e disse:
— Vejo dor nesses olhos azuis tão lindos, vejo sofrimento … mas consigo enxergar também outra coisa… — Martha se calou por uns segundos e em seguida continuou: — vejo esperança! — Gabriel suspirou fundo e ela continuou: — acalme seu coração, meu jovem, mais cedo do que pensa você estará com alguém aqui novamente. — Martha levou a mão até o peito do zelador que sorriu fraco para a idosa.
Gabriel não sabia explicar, mas sentia firmeza naquelas palavras, por mais que por dentro não acreditasse nelas, ele conseguia sentir. De repente a porta da cozinha foi aberta e por ela entrou Arianna. A professora estava com as mãos ocupadas que não havia percebido que Martha não estava sozinha, e foi logo falando:
— Vovó, fiz uma fornada de cupcakes para as crianças, mas não esqueci de fazer o seu especial sem glúten, com aquele toque que é o nosso segredo e…
Arianna ao perceber quem estava ao lado da idosa corou de imediato e disse:
— O…o…lá Gabriel. E… eu não sabia que estava aqui. — falou corando mais ainda.
Gabriel a encarava maravilhado. Arianna usava um vestidinho lilás que ia até os joelhos. Seus cabelos estavam para o alto num coque frouxo, amarrados com uma fita também lilás. Ela estava linda. Por um momento o zelador nada falou, apenas a encarava bobo. .
Uma troca de olhares ocorreu entre os dois, Martha percebeu um clima diferente no ar, sorriu e sentiu seu coração aquecer, e resolveu quebrar o clima entre os pombinhos dizendo:
— Ari querida… As crianças irão adorar, e tenho certeza que o meu estará delicioso. — falou a senhora enquanto ajudava a professora a segurar os depositos.
Gabriel saiu do transe e coçou a nuca envergonhado. Olhou para a professora e depois para a cozinheira e disse:
— Bem senhoritas… o dever me chama, nos vemos mais tarde.
Se despediu sorrindo e saiu para se trocar e começar seu serviço.
Arianna por uns segundos ficou em silêncio, absorvendo tudo o que aconteceu. Sentia o seu interior se agitar, seu coração batia tão acelerado que parecia que a qualquer momento iria sair de dentro do peito. Nunca tinha sentido nada disso antes e, no fundo, estava temerosa. Perdida em seus pensamentos, só voltou a si quando ouviu a voz da idosa lhe chamando.
— Arianna querida, você está bem?— perguntou a mais velha.
— Sim vovó, não se preocupe. — respondeu sorrindo corada.
— Vocês formam um lindo casal. — falou a mais velha mordendo o seu bolinho. Arianna corou de imediato e perguntou gaguejando:
— O … o que ? vovó, por favor. — disse Arianna ruborizada. A mais velha com a boca cheia do bolinho disse convicta:
— O que houve? Ora, ele é um homem bonito e educado e pelo o que pude observar está caidinho por você. — Arianna ficou estática com a revelação, só de imaginar que o zelador tinha olhado para ela de maneira diferente. Mas… não iria pensar sobre isso. Não queria se magoar novamente, olhou para a mais velha e disse:
— Acho melhor eu ir para a minha sala. — disse Arianna já saindo da cozinha, porém Martha segurou a sua mão e disse:
— Espere, Ari. — a professora encarou a cozinheira em confusão. — leve um cupcake para o Gabriel. — depositou um bolinho na mão da professora que corou, e saiu da cozinha com ele na mão.
Martha sorriu para a professora e pensou: — vejo uma linda história de amor surgindo.