Nunca tive um encontro. Estou nervosa. Já arrumei Erik, e dei sua janta de sopa de legumes para ele não estar faminto e comer besteiras. Agora, estou me arrumando e não sei o que vestir, peguei um vestido e achei que ficaria arrumada demais, afinal não iríamos a um restaurante chique, e de calça jeans ficaria da mesma forma que quando iria trabalhar. Não tenho muita roupa, por tanto não tenho muitas opções. Acabo vestindo o vestido preto, é simples, mas tem um corte bonito e fica bem em meu corpo. Um brinco e um batom, e já estou me sentindo arrumada demais. Não tenho o hábito de me arrumar. Deixo os cabelos soltos, calço a sandália e espero por Ruan.
— Onde vamos, Lu? — Erik perguntou assim que cheguei na sala. Ele estava assistindo a um daqueles vídeos que ele repete até enjoar.
— Vamos passear, Erik.
— Aonde?
— Não sei bem, mas vai ser legal!
— Quem vai com a gente?
— O Ruan.
— Aquele cara esquisito?
— Não fala assim, Erik. Ele tem sido gentil, até me ofereceu emprego.
— Você já tem emprego.
Conversar com criança esperta é complicado.
— Escuta, não o trate m*l. Ele está sendo legal com a gente. Há quanto tempo não saímos, hein?
Acabo de falar e Ruan bate em minha porta. Faço sinal de silêncio para meu irmãozinho e vou atender.
— Você está linda, Luana! — Ele diz assim que abri a porta e ele está escondendo algo em suas costas.
— Obrigada! — Ele veste uma camisa azul clara dobrada até os cotovelos e uma calça social preta. Fiquei feliz por não ter colocado a calça jeans.
— Espero que goste de rosas vermelhas. — Ele me entregou um buquê de rosas maravilhoso. Lindo, e o perfume é muito agradável.
Ruan está me conquistando aos poucos, sempre me apresentando a coisas novas. Sair à noite para jantar e ganhar flores, poderia ser muito comum para outras garotas, mas para mim tudo isso é novo.
— São maravilhosas, obrigada! — Entrei e improvisei um jarro para elas na cozinha.
— Vamos? — diz assim que retorno.
— Claro. Vem, Erik, desligue a TV. — Meu irmão fez o que pedi e veio em minha direção, seu olhar desconfiado para Ruan me deixa desconfortável.
— E aí garotão, quer brincar? Eu vi um lugar que você vai adorar.
Erik olhou para mim, e quando me viu sorrir, respondeu que queria brincar.
— Então vamos logo! — responde refletindo a empolgação da criança.
Ruan nos guiou até seu carro, prendeu o cinto de segurança em meu irmão. Eu sentei na frente, mas fiquei preocupada por ele não ter um acento para Erik.
— Fica tranquila, eu vou devagar. Não sou de correr mesmo, tenho amor a minha vida — diz sorrindo para mim.
— Que bom — respondi meio sem saber o que dizer.
No caminho ele me falou sobre a empresa que trabalhava. A agência. Contou sobre o trabalho de outras garotas. Disse que eu ficaria muito bem fazendo fotos de figurinos de praia e eu me senti corar imediatamente.
— Me desculpe... — disse e parecia meio sem graça. — Não quis ofender, mas com a chegada do verão é muito comum as marcas que trabalham com moda praia contratarem modelos para fotos. Só me lembrei.
— Tudo bem, eu entendo.
— Me conte de você, de seu trabalho.
— Meu trabalho é aquilo que você viu, não tem novidades. Agora fico no caixa, mas antes eu ficava na reposição. Levo Erik para a creche e vou trabalhar, saio do trabalho e busco ele na creche, esse é meu dia. Tá vendo, nada de novidade.
— Então que bom que te trouxe a um lugar diferente hoje, chegamos.
O lugar onde Ruan nos levou é fora da minha pequena cidade, e possui um parque com vários brinquedos para os filhos dos clientes. Nos acomodamos em uma grande área ao ar livre com mesas onde os pais podem observar seus filhos brincando enquanto aproveitavam a noite. Fiquei feliz por ele se preocupar em encontrar um lugar que agradasse Erik.
Erik está encantado com as crianças brincando nos brinquedos da lanchonete.
— Eu posso brincar? — perguntou, seus olhos já brilhando com a expectativa.
— É claro, garotão! Só espera um pouquinho, tudo bem.
Ele balançou a cabeça em confirmação, mas seus olhinhos não deixavam os brinquedos.
— É a primeira vez que vocês vêm aqui? — inquire uma atendente, usando o uniforme vermelho da lanchonete.
— Sim! — Eu respondi.
— Espero que gostem. — Ela nos entregou o cardápio. — Qual o nome do seu filho? — Todos acham que ele é meu filho e eu não vou perder tempo explicando. Dei o nome dele a ela, meu nome e de Ruan. — Fiquem tranquilos, somente vocês poderão pegar o menino.
Levo Erik até o parquinho e volto a me sentar com Ruan. Mesmo com toda segurança que a atendente tentou me passar, preferi ficar onde poderia vê-lo de vez em quando.
— Gostou? — Ele me perguntou.
— Sim, muito. Nunca ouvi falar deste lugar.
— Eu pesquisei na internet. Eles tem parquinho, e é bem seguro. Tem um cardápio bem variado, pode pedir algo que ele possa comer.
— Depois eu vou ver se ele vai querer comer, acho que agora, ele só está preocupado em brincar. Dei comida para ele em casa, não deve estar com fome.
— Esperta você!
— O sufoco faz a gente ficar mais esperta!
Ele gargalhou.
— Isso é verdade.
— Não quero mais ficar naquele ponto, contando com a sorte.
— E você acha que teve sorte naquele dia? — Seus olhos claros brilham e ele se inclina na mesa, me minha direção.
— Sim, claro. Se não fosse você eu chegaria em casa quase na hora de ir trabalhar — suspiro. — Seria muito pior.
— Então que bom que eu estava passando ali naquele momento. — Ele segurou minha mão. — Luana, vem comigo? Tenho mais alguns dias aqui, mas ficaria muito feliz se dissesse que virá comigo, já poderia inclusive ir adiantando algumas coisas.
— Adiantando o quê?
— Um lugar para ficar, sua sessão de testes. Quando chegar, tudo já estará ajeitado.
— E se eu não passar no teste? — O futuro incerto me assusta, mas por outro se eu não arriscar, nunca saberei onde poderia ter chegado.
— Não se preocupe com isso, você passará! — Ele aperta e minha mão e a acariacia com delicadeza. Seus olhos estão cravados nos meus.
— Mas e se eu não passar? — A insegurança ainda me domina.
— Faço questão de te trazer de volta. — Ele leva minha mão à boca e a beija.
Respiro aliviada com as suas palavras, mas logo lembro de Erik.
— E Erik? Não posso deixá-lo aqui.
— Eu sei. Leve seu irmão. Não haverá problemas quanto a isso.
— Acho que aceito, então.
Ele me deu o sorriso mais encantador que já tinha visto.
— Fico muito feliz.
O restante da noite conversamos sobre coisas bobas, nunca me diverti tanto com alguém em minha vida. Fizemos planos. Ele começou a falar de boas creches que Erik poderia ficar, onde eu poderia morar e senti que tudo estava andando rápido demais, mas se não der certo eu volto para minha cidade, não tem com que me preocupar.
Erik brincou tanto que dormiu no carro. Chegando em casa foi difícil dar banho em meu irmão quase caindo de sono.
No dia seguinte digo a Silvana que aceitei a oferta de emprego e conto sobre o jantar.
— Ai, amiga, que bom que aceitou. — Ela me abraça. — Pode ser uma oportunidade única na sua vida.
— Estava com muito medo, mas decidi aceitar. Afinal, se não der certo, eu volto para a minha vida pacata no interior. Não vou poder dizer que nunca tentei algo diferente.
Silvana sorri com a minha coragem e determinação.
— Está certa, amiga. E o chefe, já falou com ele? — inquire curiosa.
— Já, sim. Ele disse que se não der certo lá, meu emprego aqui estará me esperando.
— Ah, que ótimo, amiga. — Silvana vibra, mas um cliente se aproxima e preciso retornar ao meu caixa.
Confesso que fiquei mais segura em saber que poderei contar com meu emprego de volta.
O restante da semana passou rápido. Ruan preparou tudo para nossa chegada e no dia seguinte viajaremos para o Rio.