Depois do casamento de Lúcio, Francisco e Olívia estavam mais próximos, mas de uma maneira diferente.
Ele havia terminado tudo com Márcia, mas não contou para Olívia, só ficou o tempo todo do lado dela, ignorando Márcia. Olívia percebeu e ficou feliz. Sentiu-se importante para ele e era só o que queria.
Eles estavam no trabalho. Olívia sonhava acordada em ter sua casinha ali, junto de Francisco, logicamente com sua porquinha Francisca.
Ele chega de mansinho e a abraça por trás. Ela leva um susto, por estar distante, sonhando.
Eles riem do susto dela.
Francisco: - O que você estava pensando.
Diz abraçado com ela como se fossem um casal.
Olívia: - Só pensando no dia que terei minha casinha.
Francisco: - Comigo?
Olívia olha para ele surpresa.
Francisco: - Estou apaixonado por você.
Olívia estava sem saber o que dizer. Tinha esperado tanto isso e agora que aconteceu, não sabia que reação deveria ter.
Francisco brinca, sem graça com a não reação: - Quer que eu chegue de novo e a gente finge que nada aconteceu?
Olívia segura a mão de Francisco, dizendo: - Não seja bobo. Estou só surpresa.
Francisco: - E?
Olívia estava envergonhada, mas diz: - Eu também estou.
Francisco lhe dá um beijo, dizendo: - Graças a Deus.
Depois do beijo eles se abraçam.
Francisco, diz: - Que alívio.
Olívia não entende e diz: - Não entendi.
Francisco: - Estava a meses sentindo isso e escondendo. Sentia-me tão m*l e nem percebia quanto. Agora que falei, saiu o peso do meu peito. Estou com uma sensação de leveza e paz.
Olívia: - Também não estava sendo fácil para mim. Pensava que talvez não constasse de mim e tinha medo de me declarar e você rir.
Francisco a abraça, dizendo: - Perdão. Fui um i****a. Prestava atenção no que não importava, mas prometo que nunca mais vou te magoar.
Olívia sorri, dizendo: - Vou cobrar.
Francisco: - Pode cobrar. Eu mesmo vou me cobrar. Passarei a vida me cobrando e me tornando alguém melhor para você.
Era lindo vê-los juntos e apaixonados.
Francisco se assusta e afasta Olívia: - Terei que pedir ao teu pai antes.
Olívia: - Ele vai dizer que nem precisava pedir.
Francisco: - Mas vou lá. Espera aí.
Ele pega uma florzinha do chão e alcança para Olívia que sorri.
Francisco diz, saindo: - Fica aí, não se mexa, já volto.
Olívia cheira a flor e sorri.
Francisco chega perto de Bento e fica ensaiando. Naquela época o homem tinha que primeiro pedir permissão para o pai da moça. Ele havia esquecido completamente. Era tão acostumado com Olívia que parecia que já eram namorados, mesmo não sendo.
Bento, de costas para o rapaz, diz: - Vai falar logo ou vai ficar aí parado feito um dois de paus.
Francisco tenta desconversar: - Nunca entendi tal expressão.
Bento olha sério para ele e cruza os braços.
Francisco diz, sem jeito: - Está bem, vou parar de rodeios. Quero namorar Olívia.
Bento fica parado mudo.
Francisco estala os dedos na frente do rosto de Bento dizendo: - Oi? Está aí?
Bento abraça o rapaz, dizendo: - Graças a Deus. Estava perdendo as esperanças. - ele cruza os braços e diz, olhando sério: - Mas você é lentinho, hein?
Francisco: - Isso é um sim?
Bento grita: - Mas é claro, menino. - ele pára sério e aponta o dedo na cara de Francisco, dizendo: - Respeita minha filha, hein?
Francisco: - Nem precisa me dizer. - ele abraça Bento, dizendo: - Sogrinho.
Bento: - Agora é um pedido de casamento?
Francisco diz, sorrindo: - Adiantado para o futuro, por hora está bom namoro. Preciso estudar e ajeitar minha vida, mas com certeza para um futuro.
Bento sorri. Finalmente ele criara juízo, gostava de Francisco demais tanto quanto a um filho. Fazia gosto do relacionamento deles. Ele e Olívia viviam juntos desde pequenos e Francisco estava sempre atrás de Bento, mais do que do seu pai, Miguel. Onde Bento estava se fosse se virar, esbarrava em Francisco e Olívia, ainda mais depois do falecimento de sua esposa. Precisava levar a criança junto no trabalho, mesmo com Isadora ajudando e ficando com ela em sua casa, Olívia adorava o trabalho do pai. Como já havia perdido a mãe, não queria forçá-la a ficar longe dele e deixava ela escolher onde queria ficar. Por Isadora, lhe cuidava direto.
Isadora era assim, uma verdadeira mãe pata. Adorava filhos e sempre estava cuidando deles. Na época não havia contraceptivo e Miguel e ela eram, digamos, muito apaixonados.
Francisco chega até Olívia e a ergue, abraçando e girando seu corpo no ar.
Ela de novo leva um susto.
Francisco: - Mas hoje você está bem distraída.
Olívia sorri, dizendo: - Estou apaixonada.
Francisco abraçado, brinca: - Sério? Quem é o felizardo?
Olívia: - Um certo jovem insuportável.
Francisco: - E como foi se apaixonar por alguém assim?
Olívia: - Ele tem uma boa lábia.
Francisco: - Acaso tem boas feições?
Olivia: - Sabe que nem reparei.
Os dois riem.
Ele pega em sua mão e diz: - Venha.
Olívia: - Onde vamos?
Francisco: - Contar para alguém.
Ele sai puxando ela rapidamente. Ela ri.
Eles entram na casa dos irmãos e vão direto para a cozinha.
Ursinha estava em oração com seus irmãos Micael e Pedro e com Clara e Serena. Sem entenderem nada, Francisco começa a dar ré.
Úrsula diz, em voz alta: - Pode vir juntar-se a nós. Estamos orando pelo seu irmão Júlio. Olívia é bem-vinda e estou muito feliz pelo namoro.
Ele e Olívia se entreolham e arregalam os olhos.
Então sentam-se, calados e fecham os olhos em posição de oração.
Pedro vai novamente junto a Clara até a cabana.
Francisco e Olívia abrem os olhos e ficam olhando algo estranho, mas não dizem nada, fechando os olhos.
Ursinha rezava fervorosamente e sem parar.
Ao chegarem na cabana, Pedro e Clara aproximam-se de Yasmin. Ela estava fingindo dormir e, sentindo a presença deles, olha os procurando. Clara e Pedro abraçam Isadora e Miguel.
Júlio não ia mais até a cidade. O possuidor estava completamente desnorteado e sem forças. Só bebia e já nem comia mais. Estava completamente entregue.
Não parava de pensar em seu nome. A simples pergunta de Pedro havia lhe deixado confuso e fraco. Um doutrinador é um portador do caminho para a luz. Ele tem uma mediunidade que apresenta a luz em forma de palavras e conversas. Pedro havia intuído qual a forma de romper com a armadura resistente do possessor.
Miguel, após abraçar o filho, pergunta: - Está pronto?
Pedro faz sim com a cabeça. Sentia-se mais confiante.
Miguel: - Ele vai ser agressivo, mas não pode lhe fazer m*l.
Eles se aproximam e o possessor abre os olhos. Ele fica parado. Conseguia enxergar, mesmo no corpo de Julio, Pedro.
Possuidor: - O que faz aqui?
Isadora e Miguel estavam perto de Pedro, para ajudá-lo.
Clara relatava tudo para Yasmin.
Pedro: - Vim vê-lo. Saber como está.
Possuidor: - Não finja se importar comigo.
Pedro: - Você sabe que não estou fingindo. Pode perceber a mentira se eu lhe contar. Tudo vibra e tem uma cor.
Ele apenas intuía todos eu conhecimento, como se lembrasse naquele momento da doutrinação de conceitos não estudados ainda. Não pensava, só falava com uma certeza que enchia Miguel e Isadora de orgulho. Parecia não um menino, mas um homem feito..
O possuidor olha fixo para Pedro.
Pedro diz: - Diga-me se estou lhe mentindo?
O possuidor enxerga luz no envoltório de Pedro. Ele quase não consegue olhar, diretamente para Pedro sem sentir dor nos olhos, onde realmente estava muito escuro. Então responde: - Creio que alguém com a tua luz não mente. Acaso é um anjo?
Pedro se agacha a seu lado lhe dizendo: - Sou apenas um amigo…alguém que se importa com você.
O possuidor: - Sabe o meu nome? Eu não lembro…
Pedro fecha seus olhos. Ali estavam outros mentores espirituais e ele é intuído, dizendo: - É Joaquim.
O possuidor fecha os olhos e diz: - Sim…Joaquim…eu era contador…
Pedro lhe dá um passe e tenta levá-lo para a lembrança de uma época feliz. Precisava fazê-lo desprender-se das lembranças dolorosas que tinha de Júlio e Yasmin. Elas o prendiam ali.
Ele o leva até sua infância quando era feliz com seus pais. O possuidor havia tido ótimos pais e era uma pessoa como Júlio, com o coração perturbado, pelo baixo grau de evolução espiritual, mas já bondoso. Ainda tinha muito o que aprender e se perdia em orgulho, vaidade, egoísmo, entre outras limitações. Seus pais lhe davam tudo o que sonhava, sem que precisasse lutar por nada. Todas as suas vontades eram realizadas. Queriam dar carinho para o filho, sem se questionarem se era esse o caminho para transformá-lo em um homem de bem.
Não faziam por m*l, tinham também suas próprias limitações, mas não pensavam que seu filho cresceria e agiria na sociedade. Todos os pais deveriam pensar nisso. Toda criança um dia vai crescer e vai ou transformar a sociedade para melhor ou para pior. Ou a destruíram ou a construíram.
Acostumado a ter tudo o que queria, na hora que queria, quando encontrou Yasmin, em outra vida, se apaixonou perdidamente. Era aqueles sentimentos doentios, que mais machucavam todos a sua volta, do que fazia o bem. Se a queria, tinha que tê-la. Foi a primeira vez que não conseguiu o que queria, alimentando sua doença pela moça.
Yasmin, que tinha encontrado sua alma gêmea, nosso Júlio, fugiu do compromisso que tinha firmado com Joaquim. Ela só havia aceitado tal compromisso, por imposição dos pais. Vendo que seria infeliz longe do seu verdadeiro amor, escuta seu coração e foge com ele. Joaquim passou sua vida caçando os dois, sem sucesso. Quanto mais o tempo passava, mais ele adoecia de raiva pela rejeição e abandono. Bebendo para afogar sua dor, acaba desencarnando cedo e se perdendo no umbral. Lá ele se perde em maldade e crueldade, despertando seu pior lado. O seu lado bom é afogado completamente.
Pedro lhe dá mais um passe e o direciona para uma época, daquela sua vida, que se sentia seguro e feliz. Estava com seus pais no jardim de sua casa, brincando. Sentia o colo quente de sua mãe, a voz macia que tinha, os braços fortes e seguros do seu pai e estava em paz. Seu coração encheu de alegria. Ele sentiu um calor no peito como se um pequeno sol lhe invadisse o coração e aquecesse seu espírito.
Seus pais estavam ali, prontos para o levarem para um lugar de acolhimento e cura, no umbral.
O possuidor não conseguia vê-lo, por ainda estar prisioneiro de sua própria maldade. Eles começam a aplicar passe, junto com Isadora e Miguel. Pedro já estava ministrando um também. Com as orações e os passes dos mentores dessas que lhe estavam ajudando, a corrente do bem inunda o local de luz, dissipando as trevas. Era isso que todos do mundo deveriam enxergar. Mesmo que o bem esteja parecendo em menor número, ainda assim, sua força é muito maior e fica. Olha para a história do planeta terra e veja se ele não evoluiu. Veja o quanto não crescemos como seres humanos e continuaremos assim.
O possuidor aos poucos vai se desprendendo do corpo de Júlio. Enquanto o espírito dele, ia se aproximando da luz no final do labirinto.
Clara olha para Yasmin, dizendo: - Chame por ele.
Yasmin começa a chamar por Júlio. Um doce voz o conduziu para a luz e ele foi se ajustando em seu corpo, enquanto o possuidor foi saindo. Todos de sua falange estavam longe dali, assim mantidos pelas entidades de luz presentes. Era hora de Joaquim evoluir e os demais da falange, permaneceriam no umbral, e na erraticidade perdidos, até que chegasse sua hora.
A mãe de Joaquim o pegou em seus braços e ele foi se tornando um menino, adormecendo.
Júlio já estava inerte.
Yasmin começa a chamá-lo, sem sucesso. Ela se aproxima ao máximo lhe dizendo: - Volte Júlio, volte para mim.
Ele estava lá naquele dia onde tudo começou. Quando se declarou para Yasmin. Queria lembrar do momento em que ela riu dele e, finalmente, percebeu que apenas sorriu de nervosa. Era uma menina tanto quanto ele. Seu coração percebe o engano que sentiu e viveu todo aquele tempo e consegue respirar em seu corpo. Junto com sua respiração, as lembranças de tudo de r**m que fizera, enquanto possuído. Era como um filme de terror em sua mente.
Queria voltar para o escuro labirinto, mas já não podia. Ele estava catatônico lembrando de tudo. Seus pais lhe davam um passe, junto de Pedro. Isadora vertia lágrimas pela dor do seu menino. Queria sentir tudo aquilo por ele, mas não podia.
Ele desperta e olha para Yasmin.
Miguel olha para Pedro, dizendo: - Agora vocês precisam ir. Logo estaremos lá.
Pedro sorri, abraça seus pais e segue com Clara para seus corpos.
Chegando na cozinha da casa dos irmãos, despertam. Já tinha quase uma hora. Francisco e Olívia estavam preocupados com o jeito dos dois. Seus corpos pareciam inertes. Não entendiam como ursinha rezava de uma forma que parecia um transe, esquisito. Aquilo tudo lhes causava arrepios. Ambos se olhavam e se entendiam, sem precisarem dizer uma só palavra. A famosa telepatia entre almas gêmeas.
Após o encerramento, Micael e todos ficam conversando. Olívia e Francisco permanecem ouvindo. Tudo aquilo parecia um tanto surreal, mas escutavam, sem emitir opinião. Depois do relato de Pedro e Clara, contando estar Júlio livre, finalmente do possessor e que logo Yasmin voltaria para casa, cada um segue, ficando na cozinha apenas Ursinha, Francisco e Olívia.
Ele guarda tudo e diz: - O que queriam me contar?
Eles se olham e Francisco segura a mão de Olívia.
Ursinha coloca suas mãos nas bochechas, exclamando: - Minha Nossa Senhora!
Eles a abraçam e os três riem juntos.
Depois de um tempo conversando e contando tudo, eles saem. Andam um tempo calados e falam juntos. Sem escutarem um ao outro param e ficam mudos.
Francisco diz: - Fale você primeiro.
Olívia: - O que foi tudo aquilo?
Francisco: - Eu não entendi nada.
Olívia: - Nem eu, mas achei muito interessante.
Francisco: - Achei levemente estranho, mas também fiquei curioso para saber mais. Estavam tão empolgados. Nunca vi Micael e Pedro assim. Confesso que senti vontade de participar.
Olívia: - Vamos ver com ursinha quando vai ter outra oração assim?
Francisco concorda com ela e saem de mãos dadas.
Os dois ainda não estavam preparados para a doutrina. Não tinham grandes questionamentos espirituais. Seguiam o catolicismo e só se preocupavam com o trabalho. Eram pensamentos simples que lhe ocorriam: cumprir seu papel de maneira correta e terem uma família cheia de amor. Não pensavam em grandes questões da natureza humana antes olhavam um céu estrelado e sentiam-se bem. Era uma outra forma de serem bons, sem precisarem necessariamente ajudar ao próximo, ou descobrirem respostas para dúvidas existenciais. O coração deles era preenchido com trabalho e o que o presente lhes dava. Tinham a mesma forma de ver o mundo. Viviam um dia por vez realizando o que precisava ser feito. Não precisavam de grandes descobertas, mas das coisas simples da vida.