Miguel promete cuidar de sua filha. Eles tinham muito o que conversar.
Ele sai meio tonto de dentro do quarto e ao Ver Madalena, diz: - Precisamos conversar.
Madalena: - Preciso cuidar dela. Pode ser outra hora?
Miguel: - Você pode me procurar no trabalho a hora que puder. Estarei te esperando para conversamos.
Os dois se despedem. Ele sai, Marta chama Madalena e conversam sobre ele.
Madalena estava encantada com seu pai, embora triste com a perda de sua mãe. Marta tenta preparar sua filha para o inevitável. Ela ajeita sua mãe.
Mais tarde, Mauro chega e os dois conversam sobre seu pai. Mauro fica nervoso, mas entende toda a história. O fato que teria que conversar com o seu cunhado a respeito. Os dois conversam inclusive sobre isso tudo e decidem deixar tudo para lá e viverem o amor deles, em paz.
Mauro sabia que agora Madalena estava frágil e queria cuidar dela. Estava pensando em firmar compromisso e se casar, mas iria esperar ela se recuperar um pouco da perda para falar a respeito. Até lá, ele juntaria dinheiro para começarem uma vida juntos.
Ela nem desconfiava. Para ela bastava ficar ao lado dele. A forma, como seria, não importava. Se ele tivesse vergonha de sua origem, ela aceitaria viver esse amor em segredo, ou mudarem para outro lugar. Faria o que ele quisesse para ficar ao seu lado.
No dia seguinte, Madalena vai até o trabalho de Miguel, que lhe recebe com todo carinho do mundo. Ele lhe convida para sentar-se no sofá e conversar mais intimamente.
Os dois ficam em silêncio. Havia um desconforto no fato de serem pai e filha sem nunca saberem.
Miguel: - Quero que saiba que se eu soubesse que era minha filha, jamais teria deixado crescer longe de mim.
Madalena: - Percebo isso no senhor.
Miguel: - Pode me chamar de pai.
Madalena: - E como será agora? Não quero te causar nenhum constrangimento.
Miguel: - Preciso de um tempo para ajeitar tudo. Quero primeiro preparar meus filhos. Por fim contarei a minha esposa. Temo que ela queira se separar…preciso preparar meus filhos antes, até para ampará-la se tiver que ficar longe.
Madalena: - Se quiser deixar tudo em segredo, não me importo. Só gostaria de conviver com você.
Miguel estava encantado com a docilidade da moça. Era muito meiga e sem pretensões ou maldade em intenções de cobiça.
Visivelmente Madalena queria ser independente e lutar por si. Do pai queria família e amor.
Miguel sentia-se aliviado com o coração puro e generoso da filha. Ele diz: - Só me dê um tempo. Sei que aos poucos vamos contar isso diante de toda a sociedade. Não sou homem de me esconder.
Madalena estava orgulhosa do pai, mas não o julgaria se quisesse se calar.
Os dois ficam conversando e trocando experiências e lembranças. Queria recuperar o tempo perdido e sabiam que levaria tempo para isso.
Prometem conversar todos os dias no mesmo horário e local. Certamente falariam, mas seria um lugar público e não poderiam inventar nada. Seria uma conversa apenas.
Eles se despedem. Madalena encontra Mauro na confeitaria e conta o combinado. Mauro sabia que, ao sair dali, deveria ir falar com o seu cunhado.
Mauro: - Ele sabe de nós?
Madalena: - Não falei nada. Acabei de conhecer ele, não me senti à vontade para falar sobre isso ainda.
Mauro lhe segura a mão, dizendo: - Entendo. Eu falarei com ele. Se me permitir.
Ela faz sim com a cabeça.
Os dois seguem comendo e conversando como dois namorados que eram.
Mauro deixa Madalena em casa e vai até o trabalho de Miguel. Tinham muito o que conversar.
Ao ver seu cunhado, Miguel sorri, dizendo: - Venha, vamos tomar um porto e conversar. Já estamos no fim do expediente.
Depois de alguns goles, Mauro sente-se corajoso e diz: - Vim conversar com você sobre Madalena.
Miguel fica espantado que ele saiba. Será que teriam fofocado algo por ele ter estado no bordel?
Mauro gesticulando, diz: - Não te preocupe. Eu só sei disso porque Madalena me contou.
Miguel fica mais surpreso ainda. Ela parecia ser leal. Prometeu esperar.
Mauro tenta explicar: - Nós dois estamos namorando.
Miguel suspira aliviado. Depois percebe que Mauro era irmão de Isadora e volta a ficar tenso.
Mauro: - Relaxe, meu cunhado. Sei de tudo. Não te julgo. Sei que não teve culpa. Jamais direi algo para minha irmã. Vi aqui deixar tudo às claras para que possamos cuidar juntos de Madalena.
Miguel: - Acaso está apaixonado?
Mauro: - Completamente. Estou pensando em pedi-la em casamento, mas esperarei o falecimento de sua mãe e mais um tempo até seu luto passar.
Miguel: - Faz bem. E agora estarei mais calmo, sabendo que ela tem alguém como você.
Os dois brindam com o porto.
Mauro diz: - Fico feliz que me aprove como genro.
Miguel: - Não poderia pedir um companheiro melhor na vida de minha filha. Conversei um pouco com ela e já percebi se tratar de uma moça admirável.
Mauro: - Espere conhecê-la melhor. Ela é a pessoa mais inteligente, talentosa, honesta, justa e íntegra que já conheci.
Miguel: - Decididamente o cupido te flechou.
Os dois riem.
Miguel serve mais um porto, dizendo: - Vamos brindar a isso.
Eles conversam mais tempo e vão para casa juntos.
Miguel não sabia como iria olhar para Isadora. Ela lia seus pensamentos. O conhecia melhor que qualquer um no mundo. Teria que pensar em outras coisas, ou sempre fingir estar com dor. Isso tiraria sua atenção em sua mente e lhe focaria no corpo para ajudá-lo a corrigir. Mentira é uma doença. Quando contamos uma, lá vem um monte para ocultar a primeira. Era como um caminho sem volta.
Eles entram em casa e Isadora já vem cuidar do marido.
Miguel já diz: - Nem vou jantar, vou me deitar. - na verdade tinha comido algo antes de ir e contado seu plano para Mauro, que entendera.
Isadora pergunta, preocupada: - O que aconteceu?
Miguel, lhe afagando o rosto, olhando para aquele olhos que se desesperavam ao vê-lo com algum problema, seja qual for, lhe diz com toda paixão: - Não se aflija, meu amor. Só estou com dor na minha cabeça. Sabe que tinha crises de enxaquecas.
Isadora: - Não quer nem algo leve, ou uma maçã?
Miguel: - Não, amor. Estou bem. Não te preocupes. Promete?
Isadora lhe beija a mão que lhe agradava o rosto, dizendo: - Prometo.
Miguel deita-se e Mauro vai jantar com todos. Se acaso não fosse, levantaria suspeitas. era irmão dela, e sabia como ninguém ludibriá-la.
Ela lhe chama no canto e pergunta: - Ele está bem mesmo?
Mauro diz, lhe beijando a testa: - ele está ótimo, maninha. Só mesmo aquela velha indisposição.
Isadora fica aliviada e vai jantar com seus filhos. Gostava de servir todos e cuidar para que comecem legumes. Eram todos teimosos com os legumes. Se deixasse comeriam somente porcaria.
Todos jantam, ficam conversando na sala de estar e depois vão se deitar. A intuição de Isadora gritava e ele calava. Na cozinha, conversa com a amiga e irmão de coração Úrsula, enquanto ajeitavam a cozinha.
Úrsula: - Se colocasse todos para ajudar, já estávamos descansando também.
Isadora: - Sabe que ensino meus filhos a serem homens de verdade. Quero que saibam se virar e não depender de mulher alguma.
Úrsula fica quieta e diz: - Então diga.
Isadora disfarça: - Diga o que?
Úrsula: - O que está te incomodando e quer conversar.
Isadora: - Você agora lê pensamentos?
Úrsula: - Conheço melhor você do que a mim mesma.
Isadora reluta um pouco, mas confessa: - Achei Miguel estranho.
Úrsula: - Mas por qual motivo? Ele sempre tem essas crises de enxaqueca.
Isadora: - Chame de intuição, mas ele me olhou no olhos de um jeito…conheço meu marido…algo o está incomodando, lhe destruindo por dentro.
Úrsula: - Talvez você deva deixar ele te contar quando estiver pronto. conhecemos Miguel. Ele pode demorar, mas sempre te conta tudo. Respeite o tempo dele.
Isadora abraça Úrsula: - É por isso que amo conversar com você. Você sempre acalma o meu coração.
Úrsula: - Nascemos na mesma mãe espiritual.
Na verdade, a mãe de Isadora terminou de criar Úrsula quando sua mãe faleceu cedo. As mães delas eram tão amigas quanto elas.
Úrsula continua lavando a louça e Isadora secando. Isadora diz: - Amanhã colocamos nossos meninos para isso.
Úrsula: - Concordo.
As duas riem.
Elas vão se deitar.
Isadora deita-se do lado do marido que está virado para o canto sem conseguir dormir. Morria de remorso. Seu coração queria contar tudo para ela.
Ela lhe cobre e faz cafuné, o deixando mais cheio de culpa ainda.
Fica pensando o que poderia ser. Não havia nada que ele não pudesse lhe contar. Logicamente que tinha coisas que não admitiria, mas não seria de Miguel. Traição, por exemplo. Ela sabia que seu marido jamais faria isso. Ele preferiria se separar antes de traí-la. Se a deixasse, sabia que era por estar realmente interessado por alguém. Miguel não era homem para se apaixonar por beleza. Tinha que ter conteúdo e uma conexão espiritual intensa. Ele tinha muitas opções na época que se conheceram, mas foi com ela que sentiu sua alma sorrir e seu espírito se unir.
Ela sorri e sente seu coração acalmar. Sabia que não seria outra mulher, nunca. Tinha fé nele, no amor que tinha por ela, pelos meninos, pela família. Só não entendia o motivo de estar pensando nisso. Seria intuição ou medo. Nunca tinha tido medo sobre isso, mas aquele olhar nos olhos que ele lhe deu logo mais cedo…aquilo quebrara seu coração. Era como se tivesse lhe confessasse tudo.
Estava sendo infantil e insegura. Agora com essa idade, depois de tantos filhos? Ela olha ele e deita-se pertinho, lhe cheirando a nuca, abraçada nele.
Miguel estava acabado. Sentia o carinho da esposa e seu olhar em suas costas. Sabia que estava sendo analisado e que ela, não sabia como, havia lido seus pensamentos. ficaria ali rezando, imóvel, esperando que tudo se ajeitasse até ele poder lhe contar.
Os dois dormem.
No outro dia, ao acordar, Isadora percebe que ele já não estava. Era muito estranho, já que faziam tudo juntos.
Miguel tinha saído cedo para evitar o olhar da esposa e para ir ver a filha. Sentiu algo no coração.
E, na verdade, Marta havia partido aquela noite e Madalena a encontrara logo pela manhã. Estava fora de si. Ao ver Miguel, lhe abraça. Os que ali estavam saem. Ele nem liga para fofocas, só percebe a dor de sua filha e tenta lhe confortar.
Soluçando, Madalena lhe diz: - Eu nem pude me despedir.
Miguel lhe segura a cabeça contra seu peito e, lhe apertando forte em seus braços paternos, diz: - Você se despediu todos os dias cuidando dela, como uma boa filha faria. Acredite! Ela sabia o quanto a amava, filha e tinha muito orgulho de ti.
Foi a primeira vez que ela tinha seu pai ali. E foi o momento que mais precisava de um. Realmente nada mais tinha importância. Quando mais precisou, ele estava ali por ela. Madalena lhe abraça forte e os dois finalmente se sentem como pai e filha.
Miguel estava desolado e agradece a Deus por estar com sua filha nesse momento. Ele começa a preparar tudo para deixá-la vivenciar seu luto.
Madalena percebe os olhares tristes, porém medrosos das meninas que trabalhavam no bordel. Ela lembra do quanto sua mãe era forte e resolve honrá-la, também sendo. Então reúne todas e diz: - Fecharei o bordel por três dias. Vocês terão casa e abrigo. Depois disso continuaremos as atividades. Não deixarem ninguém sem um lugar para trabalhar. Madalena sabia que o destino de todos ali seriam as ruas, doenças, drogas e um vida trágica. Sabia que sua mãe garantira um futuro para todas e seguiria cuidando delas. Sabia da história da sua mãe e que tudo o que ela fizera foi para dar segurança para todos ali.
Mauro não gosta da notícia. Ele não queria sua futura esposa, mãe de seus filhos dona de um bordel. Em sua mente, ela fecharia tudo e seguiriam esquecendo dali. Ele se cala e aguarda conversar sobre isso quando for pedi-la em casamento.
Madalena percebe um esfriamento dele, mas estava atordoada e resolve pensar em seu luto apenas. Podia só ser impressão.
Miguel observa tudo calado. Sabia que sua filha pensara em todos ali, mas temia que Mauro não aceitasse sua decisão. ele lhe apoiaria em tudo, como um bom pai faria. Se isso fosse um problema mais tarde para sua carreira, desistiria de tudo para cuidar de sua filha e apoiá-la em tudo, como nunca pode fazer. Se ela pedisse um conselho, diria para deixar alguém cuidando do bordel e se afastasse para viver sua vida.