Júlio mais uma vez vai ao bordel ver Yasmin dançar, mas novamente ela está sumida. Era a quinta vez naquela semana. Ele estava angustiado de saudade. Seu coração precisava vê-la. Ao perceber que outra dançava no seu lugar, ele vai confrontar Madalena: - Onde está Yasmin?
Madalena responde sem dar muita explicação: - Voltou para a cidade dos tios.
Júlio, apontando o dedo para a irmã, diz: - Se você pensa que vai me afastar dela, está muito enganado. - fala, saindo bravo.
Madalena, com a mão na cintura, responde em voz alta, mesmo depois dele sair: - Isso é o que nós vamos ver, meu irmão...isso é o que nós vamos ver…
Ele sai e verifica perto do beco aqueles homens, parados, esperando algo. Disfarçando se aproximam e vão para o canto escuro conversar.
Júlio: - Vocês fiquem vigiando. Assim que ela sair vocês a pegam. Não deem chance ao azar. Sabe Deus quando terão outra chance. Eu sei que ela vai sair para ver o i****a do mendigo.
Os homens fazem sim com a cabeça. Júlio saí, colocando seu chapéu. Estava visivelmente furioso. Os m*l encarados, ficam na espreita.
Madalena vai até o quarto da moça.
Yasmin estava aflita e pergunta: - Alguma notícia de Samuel?
Madalena: - Lilica e Manu ainda estão procurando. Estão perguntando por aí. Tenha calma, filha, vamos achá-los.
Lilica e Manu eram moças que trabalhavam no bordel. Tinham conhecidos por toda a cidade, da época que trabalhavam nas ruas. Elas estavam a semana toda tentando alguma notícia do mendigo, sem sucesso.
Uma senhora mendiga chega perto delas, dizendo: - Vi que estão procurando o mendigo, amigo da cigana do bordel.
As duas olham para a senhora e se entreolham, respondendo sim com a cabeça.
A mendiga estende a mão.
Contrariadas, elas lhe pagam com moedas e esperam para ouvir o que tinha a dizer.
A mulher olha para os lados, parecia preocupada em ser vista. Ela sussurra: - Ele levou uma surra daquelas e um padre o ajudou. Agora está no convento.
As moças se olham e vão contar para Madalena.
Madalena agradece as moças, que também eram amigas de Samuel e vai contar para Yasmin, preocupada com a reação da moça. Sabia que ia querer vê-lo.
Yasmin ao saber da surra fica fora de si. Ela diz, impetuosamente, indo em direção a porta: - Vou lá no convento.
Madalena a segura, dizendo: - Júlio está de olho. Viram ele conversar com dois homens m*l encarados. Devem ser os mesmos que deram a surra no pobre do Samuel. Filha, precisa pensar mais e parar de agir com o coração, impulsivamente. Eu sinto que ele está só esperando para fazer algo contra você.
Yasmin: - E o que você quer mamãe? Quer que viva aqui, prisioneira dele, mesmo que de forma indireta.
Madalena - Ele é capaz de tudo. Não sabemos o que pode fazer contra você. Por favor, me escute.
No fundo Yasmin sentia que precisava fazer algo para parar Júlio, só não sabia o que.
Madalena sentia em seu coração de mãe que a moça iria fazer uma besteira. Ela diz, segurando a moça pelos braços, aflita: - Prometa-me que não vai sair...que não fará nenhuma besteira?
Yasmin: - Farei o que meu coração mandar, mamãe. Você sabe disso, ninguém vai me impedir, nem a senhora.
Madalena sabia disso. Conhecia o fogo da filha. Ela sai, aflita do quarto da moça e vai para o seu. Em seu quarto tinha um pequeno altar com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ela acende uma vela e coloca-se a rezar. Tinha medo e sabia que algo r**m estava para acontecer. Coração de mãe não se engana.
Yasmin estava angustiada, caminhando de um lado para outro.
No convento, Samuel preocupava-se com Yasmin. Sabia que iria procurá-lo, mas não tinha condições de ir embora. Visivelmente preocupado, deixa transparecer sua angústia.
Lucas ainda estava na paróquia, a pedido de padre Emanuel, para tentar fazê-lo falar. Precisava terminar isso antes de sair. Iolanda o apoiava como sempre. Ao lado do moço, ainda de batina, tenta fazê-lo falar. Sabia de quem tinha medo e precisava entender o motivo. Ele diz: - O que lhe está angustiando? Pode dizer...estou aqui para ajudar…
Samuel, relutante, precisava avisar a amiga e resolveu confiar no padre. Era contra sua natureza desconfiada, mas precisava agir de alguma forma. Então diz: - Preciso avisar Yasmin, a filha de Madalena do bordel. Ela não pode vir me procurar aqui. Tem que pedir para que se cuide e fique em casa.
Lucas fica assustado. Era sua sobrinha, de coração, mas era. O que Júlio podia querer com a moça? Responde a Samuel: - Quer que eu vá avisá-la?
Samuel faz sim com a cabeça.
Lucas: - de quem você tem medo?
Samuel fica calado.
Lucas diz: - Sabe que se for em confissão não posso contar nada a ninguém, não é?- ele já havia pedido o seu afastamento para a igreja, mas ainda era considerado padre e não havia saído da Paróquia ainda, para ficar com Iolanda, adiando seus planos por uns dias, até resolver a situação de Samuel.
Samuel pergunta - Se falar aqui posso considerar uma confissão?
Lucas o direciona ao ato de contrição e diz: - Agora está em confissão. Pode falar o que quiser que não poderei falar a ninguém a respeito.
Samuel começa a desabafar em confissão: - O tal juiz Júlio está obcecado por Yasmin.
Lucas: - Foi ele quem fez isso?
Samuel: - Pessoalmente, não. Mas vi ele trocando olhares com os homens que o fizeram. Sei que foi ele e temo que faça algo contra a moça.
Lucas fica apreensivo. Samuel nem desconfiava ser ele irmão de Júlio. Ele não sabia o que fazer. Sem querer quebrar a confiança do rapaz, continua a escutar mais seus relatos do interesse de Júlio por Yasmin. Algo arrepia a alma de Lucas. Ele não podia ver, mas era Isaura e Miguel tentando avisá-lo que algo r**m estava prestes a acontecer.
Terminando a confissão, Lucas vai ao encontro de Madalena, tentando evitar uma tragédia.
Madalena estranha o irmão entrando no bordel, aliás todos estranham um padre adentrando um lugar assim.
Ela vem cumprimentar o irmão: - Algum problema, padre?
Lucas: - Podemos conversar em um lugar particular?
Madalena: - Por aqui padre. - diz apontando para os fundos.
Eles vão até o quarto dela. Ao entrar ela abraça o irmão: - Saudade, meu irmão.
Lucas: - Desculpe não te ver sempre. Sabe que entrar aqui é sempre um problema.
Madalena: - Eu sei e não tenho podido ir até a igreja.
Lucas: - Em breve não estarei mais lá, mas isso é outro assunto. Agora vim para lhe falar sobre Yasmin.
Madalena: - Já sei do que se trata.
Lucas olha para ela assustado.
Madalena: - Samuel está no convento, não?
Lucas faz ism com a cabeça.
Madalena: - Fiquei sabendo.
Lucas: - Mas ele me pediu para avisar que Yasmin deve ficar em casa e não sair de jeito nenhum.
Madalena: - ele lhe contou algo?
Lucas: - Em confissão, mas pediu para avisar isso. Não posso falar mais nada.
Madalena caminha até a imagem de sua santa e diz: - É Júlio. Ele está obcecado por Yasmin. Sempre esteve, mas agora não é mais doce e meigo como quando era criança. - diz com o semblante triste. Eu tenho certeza que foi ele quem mandou surrar Samuel e sinto que vai fazer algo com Yasmin, só não sei o que…
Lucas não diz nada. Ele não podia. Então pergunta: - Onde está Yasmin? Precisamos conversar com ela.
Madalena: - Já conversei, mas conheço ela. Não vai deixar de ver Samuel por medo.
Lucas: - Posso tentar conversar…
Madalena, segura a mão do irmão, dizendo: - Isso seria ótimo. Venha, vamos até o quarto dela.
Chegando lá, descobrem que ela saiu.
Madalena diz: - Eu sabia.
Lucas: - Vamos conversar com todos. Temos que localizá-la.
Eles se olham e saem. Madalena pede ajuda para todos, que saem em busca de Yasmin.
Era tarde. Assim que Yasmin saiu para a rua, os dois homens lhe renderam, com uma substância anestesiante.
Levando-a até uma distante cabana, os homens esperam a chegada de Júlio. Entrando e vendo Yasmin desvanecida, ele sorri maldosamente e, pagando os dois homens, diz: - Agora sumam da cidade. Vão para bem longe. Se os vir aqui perto, os terei como meus inimigos.
Os homens saem e fazem o que o juiz diz.
Júlio acorrenta Yasmin, acende a lareira e senta-se em uma poltrona, tomando seu vinho. Estava radiante e feliz. Finalmente tinha sua presa abatida.
Depois de um tempo, ela acorda e se percebe prisioneira. Então olha, ainda tonta para Julio, dizendo: - O que você fez?
Júlio levanta-se, sorrindo e abrindo os braços, dizendo: - Seja bem-vinda ao seu novo lar.
Yasmin estava furiosa. Ela grita, dizendo: - Solte-me logo! Está louco!
Júlio sorri maldosamente e fala mais alto: - Pode gritar. Aqui é longe de tudo. Esbraveje o quanto quiser. Sei que vai se cansar. Sou paciente.
Yasmin diz: - Todos vão me procurar.
Júlio fala em tom de ironia: - Inclusive eu. Serei o primeiro a prestar meus serviços à sua mãe.
Yasmins continua furiosa: - Ela sabe do que você é capaz.
Júlio vai até a poltrona, senta-se, calmamente e, tomando um pouco do vinho, ainda com um doente sorriso nos lábios, diz: - Saber, ela sabe, provar é que é mais difícil…
Júlio era dissimulado, ardiloso e premeditado, ao contrário de Yasmin que era impulsiva, impetuosa e sem maldade. Ele tinha paciência e todo o tempo do mundo para esperar ela cansar de lutar. Sabia que mesmo sendo uma guerreira, todo mundo tem um limite e estava disposto a esperar esse limite.
Estavam longe da cidade, mas não tão longe que não conseguisse chegar a cavalo em duas horas. As terras eram de um nobre amigo que lhe devia favores. Lúcio sabia todas as propriedades de Júlio, visto que eram todas da família e tinham sido distribuídas ao juiz, após a morte dos pais, por exigência do mesmo, como herança. Precisava de um lugar onde ninguém desconfiaria estar a bela jovem. Ninguém mais a tiraria dele, nem se colocaria entre eles. Isso ele tinha certeza, pois cuidaria pessoalmente disso.
Ele coloca água e um pedaço de pão perto dela que tenta agredi-lo, com muita raiva.
Júlio segura a moça, rindo da sua atitude e dizendo: - Você fica linda com raiva. Ele a empurra para a cama e sai, dizendo: - Vou lá fazer meu teatrinho. Logo volto para ficar com você, minha querida. Temos muito tempo a sós e juntinhos.
Yasmin não estava acreditando nisso. No fundo não acreditava que ele fosse capaz de algo assim. O que estava pensando? Ela iria escapar ou a encontrariam, cedo ou tarde. Será que não percebeu na enrascada que se meteu? Ele só poderia estar louco.
Isadora olha para Miguel, dizendo: - Não conseguimos evitar. Temo o pior, meu amor.
Miguel: - Se ela não o odiava, agora vai.
Isadora: - Ele está totalmente inerte com relação ao possessor. Agora rezar para que Yasmin consiga lembrar do seu amor por ele.
Miguel: - A questão é que ela não está reconhecendo sua alma companheira e sim o possessor dela. Júlio precisa despertar. Espero que agora, vendo o que seu possessor fez a moça, consiga reagir.
Os dois olham para Yasmin, que está chorando de raiva.
Júlio chega a cavalo até sua casa. De lá vai até o bordel. Fingiria estar esperando por Yamins, novamente.
Madalena estava apavorada. As meninas abrem o bordel, mas ela não iria trabalhar. Estava rezando para sua santa.
Lucas resolve dar a notícia a Samuel, que reage tentando sair da cama. Lucas o segura, dizendo: - Você não vai ajudar em nada assim. todos estão procurando por ela.
Samuel coloca a mão na cabeça, dizendo: - Foi aquele louco que a pegou. Tenho certeza, padre.
Lucas segura ele na cama, dizendo: - Estamos tentando provar isso e descobrir o que aconteceu. Agora descanse e tente se curar para poder ajudar.
Samuel deita-se e Lucas vai conversar com Lúcio.
Lúcio estava furioso com o irmão: - O que se passa na cabeça desse louco? Meus Deus! Como ele pode sair tão diferente de todos nós? Fomos criados pelos mesmos pais.
Lucas faz sinal de calma ao irmão, dizendo: - Calma, Lúcio, não vai ajudar ninguém assim.
Lúcio dá razão ao irmão e tenta se acalmar. Sabia que precisava manter o sangue frio, embora fosse impulsivo nessas horas.
Os dois partem juntos até o bordel.
Júlio entra no lugar fingindo procurar Yasmin. Senta-se em frente ao palco.
Sofia, desconfiada do juiz, diz: - Não está sabendo?
Júlio se faz de desentendido: - Sabendo do que?
Sofi: - Yasmin desapareceu.
Júlio levanta-se, demonstrando preocupação: - Como assim?
Realmente ele estava se superando. Convenceu até sua cúmplice de outras épocas. Seus olhos demonstravam lágrimas. Na verdade, era ele mesmo caindo em si, oscilando entre o possessor e sua alma. Para todos, sem entender, ou ele era um ótimo ator, ou um psicopata frio e calculista, ou um inocente. Existiam almas perturbadas e perversas capazes de tudo, sem por isso ser possessão. Lógico que sim. Só que realmente não era esse o caso de Júlio. Esse era um típico caso de possessão entre uma alma boa, com baixo grau de evolução e um espírito perverso e vingativo. Haviam, também, possessões entre espíritos igualmente perversos que se alimentavam mutuamente entre encarnados e desencarnados. Nesse caso, especificamente, Júlio tinha culpa de desistir e lutar contra tudo aquilo e se deixar possuir.
Madalena vem do quarto para respirar um pouco e encontrando seu irmão, lhe confronta, dizendo: - O que está fazendo aqui?
Júlio estava visivelmente transtornado. Isadora e Miguel assistiam tudo rezando pelo seu filho. De alguma forma ele estava reagindo.
Madalena diz: - Pelo amor de Deus, não pense que vou cair nessa sua cara de coitado.
Júlio: - Vim vê-la dançar e Sofi acabou de me contar. O que posso fazer?
Madalena: - Sair daqui. Sai! - fala gritando e fora de si.
Júlio sai sem dizer nada.
Após um tempo chegam Lucas e Lúcio. Madalena estava chorando na mesa após perder a razão. Uma das meninas lhe trazia água com açúcar. Tomando e, vendo Lúcio, Madalena vai até ele, o abraçar.
Lúcio a abraça, dizendo: - Eu sinto muito. Farei de tudo para achá-la.
Madalena cai no choro. Lúcio era assim, despertava com seu abraço ternura e emoção nas pessoas. Era como uma rocha onde todos podiam cair e se apoiar.
Eles levam Madalena para seu quarto. Ela estava visivelmente abatida. Então deitada, olha para seus irmãos, perguntando: - Vocês acham que ele a matou?
Lúcio senta-se na cama, ao lado da irmão, dizendo: - Por Deus, acho que não.
Lucas: - Isso parece mais uma tentativa desesperada para tê-la pra sim.
Madalena: - Minha menina nunca irá ser dele. Eu sei disso.
Lúcio: - Não vamos nos desesperar. Precisamos tentar achá-la. Ele não vai levá-la em uma das suas terras. Precisamos fazer uma lista dos seus aliados e tentar dissuadi-los.
Madalena: - Você sabe que isso não será fácil.
Lúcio: - Precisamos tentar. Ela tem que estar ao arredores para ele poder ir e vir sempre. Vou colocar alguém, que ele não conhece, para segui-lo.
Madalena estava sem forças. Tinha chorado a noite e dia inteiros.